quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

AS VIGÍLIAS DA NOITE

“Havia, naquela mesma região, pastores que viviam nos campos e guardavam o seu rebanho durante as vigílias da noite” Lc 2.8

Poucas são as pessoas dispostas a viverem os bastidores da vida. Neste frenético ativismo ditado pela ditadura do consumo não resta mais espaços à vida simples.

Exercícios em tudo salutares como momentos com a família, períodos de reflexão e de contemplação são avessos a sempre malgrada agenda de tarefas “urgentes” que possuímos todos os dias.

Ademais, aqueles que, mormente o caos instaurado por um mundo que jaz no maligno possuem a função de servir como contracultura ao que expomos, em sua imensa maioria se percebem imersos nas águas do Lete, completamente esquecidos de sua verdadeira função, quiçá, lutar por aliviar o sofrimento impingido àqueles que não têm como se defender dos sempre atraentes caprichos do mundo.

Entretanto, há muito tempo atrás, “Havia, [...] pastores que vivam nos campos e guardavam o seu rebanho nas vigílias da noite”. Eram homens sábios e experimentados, dispostos a agarrarem leões e ursos pelas barbas para defender uma ovenlhinha indefesa. Homens que sorviam despretensiosamente o orvalho da noite, e que regavam conversas sóbrias ao sempre presente frio do deserto. A estes, coube à graça de numa noite de contemplação, de solilóquios e assossegos, serem banhados não pelo luar, mas pela glória do Senhor Todo Poderoso – que minutos antes havia entregue seu único Filho à humanidade, deitando-o por meio de uma mulher no conforto de uma manjedoura.

Esta história me faz perceber que a luta por relevância não se trava nos tablados da ribalta, tão pouco sob os olhares auspiciosos dos críticos sempre de plantão, ou dos que procuram a todo o custo visibilidade social, não. A relevância se dá no dia-a-dia. No regaço confortável da família, no aprisco aveludado dos amigos, na presença afeiçoada dos irmãos, e, também, nos momentos de vigília, reflexão e contemplação.

O problema, a meu ver, é que tais iniciativas não encontram guarida na vida super ativista das pessoas de nossa geração. Pior. Também não encontram na vida daqueles que foram abençoados por Deus com esta ditosa função, os pastores. Onde estão aqueles que deveriam vigiar nas madrugadas solitárias da noite? Penso que não são muitos que estão a contemplar o balido de suas ovelhas em meio ao doce orvalho que deveria lhes servir de lenitivo.

Neste período de reflexão que se aproxima – O Natal – experimentemos a nostalgia que lhe é própria para sopesarmos nossa vida. Por que os anjos já não nos visitam? Por que as madrugadas não mais nos convidam? Quem está a vigiar nossas ovelhas?

Lembremos que o nosso Supremo Pastor se serviu de nos usar como despenseiros de sua vida simples, mas em tudo feliz. Que a lembrança de seu nascimento nos embale a uma vida que tenha um propósito. Que a sedução do discurso não nos roube de nossa verdadeira missão – aproveitar e fazer com que as pessoas aproveitem a vida.

Vivamos nosso Natal hoje como o viveram nossos amigos pastores ontem:

“Glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto, como lhes fora anunciado” Lc 2.20

Já vimos o suficiente, vimos o bastante. Nossa experiência é mais que suficiente para um milhão de vidas. É tempo de começarmos a vivermos de acordo com aquilo que já alcançamos. Ò, “Protetores do Rebanho”. Que nossa vida exale o Natal continuamente! Jesus nasceu. É mais que suficiente. Tal relato é “exultação expositiva”.

Um Feliz Natal a todos quantos Ele quer bem!

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

A RELEVÂNCIA CULTURAL DO CALVINISMO HOLANDÊS NA AMÉRICA

Indubitável a indelével participação de João Calvino para formação dos estados americanos e para o conseqüente surgimento do estado de direito, diga-se, Neo-Liberal que encontramos hodiernamente por estas paragens. Nesta perspectiva estaremos analisando uma variação do calvinismo que teve gérmen na mais perfeita escola de Cristo – para utilizar um termo do John Knox – mais que possui sua gênese também neste. Trata-se, portanto, do calvinismo produzido nos países baixos, mas precisamente na Holanda.
Os escritos de Calvino chegaram a Amsterdã e demais cidades holandesas por vezes do contrabando que, a revelia das auspiciosas barreiras impostas pela inquisição, não conseguiram parar seu fluxo para esta região do globo. O maior número de escritos e da conseqüente teologia esboçada por Calvino desembocava nesta região nas malas e nas mentes de estudantes de teologia hávidos por uma transformação que viesse a colmatar os espaços hora deixados pela então esquálida religião católica.
Alhures a falta de estrutura que tais estudantes possuíam, em bem pouco tempo o calvinismo se espalhou por toda Holanda como que um rastro de pólvora. Se podia ver sermões de orientação calvinista em praticamente todas as igrejas sérias da Holanda, algo que naquela época traria como rastro conseqüências peculiares tendo em vista tamanha perseguição por parte da igreja católica que, inconformada com o espaço perdido em tais regiões e, tendo em vista a questão estratégica que a Holanda possuía para expansão de seus interesses, procurava combater de todas as formas tal propagação. Todavia, sem produzir, in loquo, tal atuação.
Eram comuns em centros públicos holandeses o encontrar de huguenotes – reformados franceses – e de homens da estirpe do compositor Datheus e de teólogos como Bogerman, este último famoso por sua atuação no Sínodo de Dort. Mesmo sendo precedido por luteranismo, zwinglinismo e anabatismo fora o calvinismo quem ditou as regras do pensamento teológico holandês dos idos de 1500, isto por conta de seu espírito organizado e de sua notória devoção a liberdade política e espiritual, os quais o levaram inevitavelmente a uma posição de primazia.
O calvinismo propiciou o tipo de religião evangélica capaz de robustecer os nervos de um povo perseguido e caçado. Sua ênfase a soberania absoluta de Deus e a realização de sua vontade a todo custo, era exatamente o que esta terrível hora dos países baixos requeria.
Por conta de sua maciça atuação no combate por igualdade racial, a “Hervormed Kerk” se tornou a igreja estatal. E o calvinismo a região oficial dos países baixos. Como se sabe, este crescimento espiritual fora acompanhado por não menos proeminência material. No campo político este fora o apogeu dos países baixos, mas precisamente da Holanda. Após herdar um vasto império colonial outrora pertencente a portugueses e espanhóis, a Holanda veio a ser reconhecida como uma potência econômica e política.
Culturalmente falando a situação era excelente. No campo das artes tínhamos homens tais como Hals, Vermeer, Van Leeuwenhoek, Boerhaave e Swammerdam. Na filosofia, Espinoza; e no direito Hugo Grotius, conhecido como o pai do direito internacional. Foi justamente na primeira fase desta época dourada que o calvinismo holandês despontou fulgurante em solo americano.

FASE EXPANSIONISTA
            O veiculo utilizado pelos holandeses para dar vazão a sua saga expansionista fora a então conhecida Companhia Holandesa das Índias Orientais a qual fora criada para servir como uma espécie de concorrência para a Companhia das Índias de foro espanhol. Já em meados de 1609 holandeses eram vistos pontilhando solo americano por via dos rios, tais como o Hudson. O centro desta maciça atividade econômica era a então conhecida Nova Amsterdã que após a ocupação inglesa ficou conhecida como Nova Iorque, 1664. Embora a ambição dos holandeses fosse eminentemente comercial, inevitável era a participação da teologia calvinista em suas empreitadas, tendo em vista a grande proporção de adeptos que nesse período era suma maioria em terreno holandês.
            Para tanto, em 1623 era possível encontrar artigos nestes termos:
Dentro de seu território só será permitido cultuar segundo a verdadeira Religião Reformada... e através de uma boa vida cristã devem tentar atrair os índios e outras pessoas de coração obscurecido ao Reino de Deus e à sua Palavra, sem, contudo, cometer qualquer perseguição religiosa...”  
            O que se extrai de afirmações como estas é que os cultos eram produzidos e levados a termo por vezes reformadas, no entanto, na intimidade de suas casas, os americanos possuíam liberdade para seguiram outras facções teológicas tais como luteranos, católicos, anabatistas e puritanos ingleses.
            Após uma total participação leiga no ministério. O primeiro pregador ordenado na América fora Dominie Jonas Michaelius, da Universidade de Leiden, o qual já possuía experiência missionária e de capelania. O mesmo fundou a Igreja Reformada Holandesa e estabeleceu uma forma presbiteriana de governo eclesiástico.
            Como regras de condutas básicas o grupo adotou ipsis literis os três padrões doutrinários dos Cânones de Dort – a Confissão Belga, o Catecismo de Heidelberg e os Decretos de Dort. As igrejas holandesas americanas eram ligadas ao Presbitério de Amsterdã, um dos presbitérios do sínodo da Holanda do Norte.
            Ao contrário do ocorrido com os puritanos em sua colônia, que experimentaram um vasto crescimento populacional, provavelmente por conta da ênfase dada a pregação da Palavra, uma vez que os mesmos respiravam ares eminentemente espirituais. A colônia da Nova Holanda cresceu vagarosamente. Um dos problemas era a tensão existente entre a igreja e o estado. Por causa de sua orientação calvinista os holandeses procuravam fazer com que a igreja servisse como consciência do estado, enquanto que o estado deveria promover a verdadeira religião. Desta forma fora tamanha a intromissão da igreja nos negócios do estado.
            Um segundo problema fora a má distribuição dos colonos. Em meados de 1626 Nova Amsterdã contava apenas com 200 habitantes e, em 1628 com apenas 270. A população total de colonos americanos, os quais não ofereceram qualquer resistência aos holandeses, era de aproximadamente 8000 pessoas espalhadas por cerca de 33 cidades  e vilas. Tão pequeno crescimento demográfico era atribuído ao total comprometimento da colônia com o comércio e o contínuo medo de represálias por parte da maciça população indígena que, diga-se, era poderosamente hostil naquele período.
            Um terceiro problema para expansão da igreja reformada holandesa na America fora a crônica falta de pregadores. Do período compreendido entre 1631 e 1645 houve tão somente um único pregador residente, Dominie Bogardus. Em 1664 com a tomada da colônia pelos ingleses, havia treze igrejas com seis pastores, mas logo que tal fato ocorreu três destes retornaram para a Holanda, restando apenas três pregadores idosos com idades entre – 62, 70 e 72 anos – os quais ficaram responsáveis pelo cuidado espiritual das igrejas holandesas. Umas das principais razões desta carência era a dependência da Holanda para prover pastores e para treinar e ordenar candidatos ao ministério. Os ministros holandeses, com raríssimas exceções, não estavam muito desejosos de servirem em colônias americanas.
            Uma solução plausível para esta celeuma seria a criação de um presbitério americano. Como a prorposição política de tal empreitada mostrava-se difícil, a solução encontrada para tentar remediar aquela situação fora criar um Coetus (assembléia ou união) de anciãos e ministros que se reunisse periodicamente.
Para considerar, determinar, dar sentença e estabelecer todos os assuntos e dissensões que possam ocorrer, ou que sejam trazidos diante de nós para ação, pois estando (aqui) no país estamos em melhor posição para julgá-los e para detectá-los e suprimi-los logo no seu início
            A função precípua desse Coetius era a manutenção da ordem na igreja, muito embora a igreja da holandesa americana se mantivesse plenamente fiel ao presbitério da Holanda. Ao longo de sua história, o Coetus chegou a ordenar de 9 a 10 ministros e manteve a postura de lhes propiciar um treinamento doméstico com vistas ao ministério, através de cadeiras dispostas no King’s College ou Princeton, ou num seminário próprio.
            Os que não concordaram com o Coetus formaram o Conferentie – composto de elementos altamente conservadores e doutrinariamente orientados, homens que insistiam no uso exclusivo da língua holandesa para preservar a ortodoxia e que desejavam manter fortes laços com a igreja mãe. Com isso, a igreja veio a dividir-se em 1755 e só veio a reunificar-se em 1772.
            Um quarto problema fora a ameaça do estabelecimento do episcopado na colônia. Após a assunção inglesa em 1664, fato que fez com que Nova Amsterdã se torna-se Nova Iorque, os ingleses, conforme a Lei dos Duques, permitiram que os holandeses continuassem com sua própria religião,uma vez que os mesmos eram maioria na colônia. Contudo, após um lapso de pequena reconquista holandesa, os ingleses tornaram-se mais hostis a referida causa. Ademais, em 1686, a igreja episcopal propôs o Test Act, o qual exigia que toda pessoa da colônia fizesse menção juramental a coroa inglesa e recebesse conseqüentemente os sacramentos conforme os ritos da Igreja Anglicana, fato que suscitou a suspeita de se estar querendo estabelecer a Igreja Anglicana na colônia, motivo pelo qual os holandeses protestaram veementemente. Por isso receberam publicamente, com vistas a menos conflitos, liberdade para o funcionamento de sua religião, diga-se calvinista.
              Um quinto, e sem sombra de dúvida, mais poderoso problema era a ortodoxia morta e um declínio do fervor religioso. Além da avassaladora influencia da ciência e da filosofia, um intelectualismo formalista invadiu a igreja no final do século XVII e início do XVIII. O que fora sanado graças a uma onda de avivamento que balançol as estruturas da igreja nos idos de 1700. Tal avivamento acabou de vez com o sequitarismo imposto pela univocização da língua holandesa e atraiu um grande número de jovens de fala inglesa ao seio da igreja. Por causa do reavivamento, a igreja experimentou um crescimento que chegou a pelo menos um terço, desta forma, por volta da irrupção da revolução, as igrejas reformadas holandesas contavam com cem igrejas, quarenta e um ministros e setenta mil membros. Ela era a sétima maior denominação da America.
            Ainda assim, a postura outrora assumida pela igreja holandesa, e seu caráter isolacionista em muito contribui para um crescimento aquém do esperado, tanto no caráter religioso como na produção de um meio melhor para seus adeptos. A situação poderia ser resumida da seguinte forma:
Deve-se esperar que o longo período de isolamento étnico promovido pela manutenção da língua holandesa e pela dependência eclesiástica da Holanda tenha ajudado muito pouco a capacitar os holandeses reformados a progredirem na realização do ideal calvinista de Cristo transformando a cultura.
            Desta forma, por cerca de cento e oitenta anos a imigração de holandeses para a Inglaterra esteve paralisada, vindo e ser super aquecida no século XX, quando ocorreu o que passou a ser conhecida nos anais da história como Grande Migração. Entre os idos de 1840 e a irrupção da Guerra Civil, cerca de 20.000 novos holandeses chegaram a America. E após a guerra este número subiu para 55.000.
            Tempo depois, os reflexos da revolução francesa alardearam duramente, bem como o racionalismo, o humanismo e o misticismo; os quais abalaram fortemente a igreja em sua fé ortodoxa. Os calvinistas foram paulatinamente reduzidos ao que chamamos de “remanescente fiel” – que influenciados por pregadores que não se venderam no altar da crítica – encontravam-se em pequenos grupos de oração, num esforça colossal para manterem sua fé incólume.
            O principal acontecimento após este período negro da Igreja Reformada Holandesa da America só veio ocorrer nos idos de 1816. O Rei William I, recebido de volta do exílio, reorganizou a igreja estatal holandesa. Os sínodos, presbitérios e consistórios foram colocados sob a jurisdição do Ministério de Assuntos Internos. A igreja passara a ser dominada pelo estado. A reação a esta tomada de poder e a teologia liberal que a esta altura já colocava suas garras de fora foi a premente manifestação dos pregadores calvinistas sérios que se mantiveram fieis ao ditames da reforma e, acima de tudo, do próprio evangelho. A conseqüência foi a triste separação entre as igrejas calvinistas estatais e as calvinistas dissidentes. Após esta separação, a imigração holandesa a America experimentou mais um boom.

A IMIGRAÇÃO DEPOIS DA SEPARAÇÃO
            A secessão ou separação experimentada em 1834, fora seguida de um forte avivamento experimentado em Genebra. Reavivamento este que graças a estudantes e escritos reformados espalhou-se até a Holanda. Tal momento foi um período de fortalecimento da igreja da Holanda e de seus ideais. Em 1836 a igreja reformada da “velha Holanda” celebrou seu primeiro sínodo. Vindo a adotar os padrões doutrinários dos Cânones de Dort. Aqui, mais uma vez, houve uma grande migração.
            O movimento de migração era necessariamente uma recuperação do calvinismo teológico ou doutrinário. Conforme indicam um sem número de sermões oriundos desse período da história. Foi nesse momento que surgiu na historia da Holanda aquele que talvez tenha sido se maior teólogo, Abraham Kuyper.
            A maioria dos colonos da America, mais precisamente os de Michigan, filiou-se ao partido dos Democratas, um vez que, por estes era bem mais fácil de se conseguir a cidadania americana.
            Neste período as duas principais questões sociais que agitavam a America eram a proibição e a escravidão. No entanto, os holandeses da America, salvo raríssimas exceções, eram anti-proibicionistas. Com relação a escravidão, os reformados holandeses eram unânimes em que era um mal absoluto.
            Enquanto isso na Holanda a igreja havia se tornado terrivelmente liberal. Havia uma negação aberta da divindade de Cristo, de seus milagres, de sua expiação substitutiva, de sua ressurreição física e de sua morte. A igreja estatal perdera completamente o seu caráter doutrinário e ainda assim os interessados no ministério tinham de prometer “promover os interesses do Reindo de Deus”. Figurava indelével neste momento fora Abraham Kuyper, um verdadeiro gigante espiritual. Ele fora um excelente teólogo e um jornalista talentoso, vindo a ser Primeiro Ministro da Holanda, de 1901 a 1905. O ideal de Cristo como revitalizador da cultura o dominou e ele empreendeu a tarefa árdua de revitalizar o calvinismo. Como Kuyper não viu seus apelos de retorno a verdadeira fé reformada atendidos, deixou a igreja estatal e fundou a Doleantie, fato que ocasionou a segunda secessão da igreja reformada da Holanda.  A nova igreja dissidente passaria a se chamar De Nederduits Gereformeerds Kerken.

A IMIGRAÇÃO PÓS-DOLEANTIE
            “Não existe uma polegada da realidade da qual Cristo não diga: é minha”. Frase dita por Kuyper ao tomar posse como reitor da Universidade Livre de Amsterdã, a qual ela havia ajudado a fundar em 1882. Para Kuyper o cristão tinha a responsabilidade de entrar em todas as áreas da vida e reivindicar o senhorio de Cristo sobre elas. Ele procurava julgar o princípio que achava ser central nas Escrituras – a soberania de Deus.
            Sob a égide Abraham Kuyper na produção de teologia, após 1870 a imigração para America começou a renovar-se. A perseguição religiosa já não possuía tamanhos tentáculos, fato com que fez que o novo fator surgisse de causas eminentemente econômicas. Por conta da crise cerca de 53.000 pessoas deixaram a Holanda em direção a America. Fato que só foi mais uma vez experimentado após a Segunda Grande Guerra.
            Estas novas ondas de imigração trouxeram uma nova abordagem ao cristianismo, diga-se bastante salutar, propiciando ao mesmo não apenas um olhar soteriológico sobre o mundo, mas também um cosmológico. Um calvinismo mais integral que buscava reivindicar o Senhorio de Cristo sobre todas as áreas da vida. O calvinismo voltava a ser de fato uma força religiosa.
            O que se seguiu após este ressurgir do calvinismo foi um embate poderoso entre a antiga Igreja Reformada Holandesa e a nova Igreja Reformada Holandesa, ambas caldeando-se para formar a una Igreja Reformada Holandesa. A questão em volta desta aglutinação gerou novos embates teológicos e a questão ao que parece jamais se resolveu.
            Entretanto, deve ficar bastante claro, que a influência da última onda de calvinismo histórico oriunda da Holanda sob a égide de Abraham Kuyper sem sombra de dúvida ainda perdura sob os auspiciosos olhos intelectuais do evangelicalismo de então. Todo o denodo de devoção de Kuyper estão impressos nas mais sólidas instituições americanas e sem sombra de dúvida contribuíram para forjar o estado democrático americano de que temos ciência. Indubitável a participação das demais alas, contudo, seria ingenuidade de nossa parte colmatar a contribuição das duas igrejas holandesas reformadas anteriores e a última a ser trabalhada como faces idênticas da mesma moeda. A história esta ai para nos mostrar claramente que a America, bem como suas fortes e solidas instituições, devem muito a pena de João Calvino e a devoção de homens como Abraham Kuyper.
            Finalmente, é verdade dizer que a influência da Igreja Reformada Holandesa não se restringiu apenas ao solo norte americano. Absolutamente! É notório a poderosa influência que o calvinista de orientação alemã e cidadania holandesa João Maurício, Conde de Nassau, impingiu as Terras de Santa Cruz, mas precisamente a Capitania Real de Pernambuco.
            Tal assunto não é objeto de nossa atual pesquisa, conquanto, não poderíamos deixar de frisar a poderosa administração que este visionário implantou a este amado estado. Não há que se discutir o Pernambuco de antes e de depois da administração dos portugueses, e isto se levarmos em consideração apenas as benesses materiais, as quais, não hão que se comparar as espirituais. Algumas destas obras matérias, imbricadas a história do Recife, seriam:
Convocação da primeira assembléia para decretação da liberdade de culto.                                                                                                                                        Produção da primeira documentação das terras brasileiras. O mesmo documentou toda a paisagem, que retratavam animais, frutas da região.                       
Fez um jardim botânico, um zoológico e ainda ergueu um observatório astronômico.                                                                                                            
Drenou os pântanos, transformando-os em jardins à moda holandesa.           Construiu não um, mas dois palácios na cidade.                               
Construiu a primeira ponte das Américas. Foi feita em madeira e media 318 metros de comprimento. Um prodígio para engenharia do Século XII.  Abriu os portos, construiu um teatro, construiu escolas.                          
Foi ele que inventou a ecologia. Foi decretado por ele que era proibido derrubar cajueiros.                                                                                               
Remodelou e organizou Recife.
Sendo estas apena algumas das contribuições deste Conde reformado ao solo brasileiro. Destarte, é indubitável o caráter mercantilístico da empreitada holandesa no Brasil. Entretanto, é verdade dizer que aquele momento da história era comum, infelizmente, a exploração de terras erroneamente tidas como dominadas – desapropriadas –, contudo, mesmo quase cinco séculos depois, não tem sido essa a política das grandes potências mundiais de orientação reformada/evangélica?

sábado, 19 de novembro de 2011

O SIGNIFICADO DE ALIANÇA E SUA RELEVÂNCIA FENOMENOLÓGICA

Em todas as culturas se tem um entendimento, ainda que tácito, do que venha a significar uma aliança. In illo tempore povos de ascendência nômade demarcavam sua linha de circunscrição a partir de elementos que acreditavam sagrados e apercebidos da realidade advinda destas hierofanias organizavam um espaço que até bem pouco tempo era desprovido de sentido, amorfo.


Com vistas ao aperfeiçoamento deste espaço agora organizado – cosmos – os povos que viveram esta experiência no illud tempus, na iminência de aplacar a ira de possíveis espíritos anteriores a esta organização, os quais se mostravam irados com o novo status quo alcançado pela presença do item sagrado – um totem, um poste sagrado, uma tenda mística, um altar de holocaustos – impingiam as mais variadas formas de castigo aos povos que abitavam seus respectivos “domínios”. Destarte, fora a tentativa de apaziguar estes espíritos que dominavam o espaço habitado por estas tribos que fomentaram a necessidade de “alianças”.

A questão era basicamente esta. Os seres míticos acreditavam que momentos de escassez, mortes por doenças diversas, supremacia de povos/tribos inimigas, catástrofes naturais e coisas do tipo eram produtos da excentricidade dos deuses. Por vezes, na falta de uma maior devoção por parte destes povos (?) os deuses permitiam tais coisas na iminência de fazer com que tais povos lhes conferissem a atenção devida outrora negligenciada – fato típico da mitologia grega.

Com base no exposto é que entendemos ter surgido no seio da humanidade o conceito de alianças conforme depreendemos hoje. Com vistas a dirimir o máximo possível a sempre instável “longanimidade” dos deuses, os povos comumente antecipavam os momentos de calamidades com ritos de adoração que ambicionavam antecipar a sempre presente “cólera” dos mesmos. Desta forma, periodicamente estes povos – na pessoa de seus respectivos xamãs – firmavam compromissos de antecipada devoção – alianças – com seus respectivos deuses. A tônica de tais ritos de adoração era basicamente esta: eles se comprometiam a não negligenciar suas responsabilidades enquanto dominados, desde que os deuses cumprissem com suas responsabilidades de mantenedores da ordem necessária a vida da comunidade na qualidade de dominadores. A questão era simples; os povos faziam compromisso de manterem tenra devoção aos deuses que supostamente os dominavam e com isso se eximiam de amargar as intempéries provocadas pelos mesmos.

Tal tentativa de convívio mútuo envolvendo adoradores e adorados seria uma fórmula certa para o sucesso. Contudo, não é assim que percebemos tal convívio. São inúmeros os casos de catástrofes naturais e massacres de povos inteiros ao longo da história das civilizações. Fatos que nos impõem a obrigação intelectual de nos perguntarmos: em que sentido estes povos que se fizerem tão subservientes em relação aos seus deuses erraram? Porque estes deuses sendo tão apetecidos de adoração não cumpriram com sua parte no acordo firmado por meio das alianças? Simples!

A aliança só possui valor metafísico se partir dos deuses em relação aos homens e nunca se partir dos homens em relação aos deuses.

Sendo assim, onde encontrarmos uma aliança que tenha valor verdadeiramente sagrado? Onde encontrar em meio à história da humanidade uma aliança que possua de fato e de direito a aquiescência de um ser superior?

Ora, o único exemplo de uma aliança com estas características encontramos tão somente no que conhecemos por CRISTIANISMO.

Apenas no cristianismo a aliança parte de Deus em relação ao homem e não do contrário. Aqui é Deus quem cria o homem e o estabelece em seus domínios, fomentando-lhe o essencial a preservação da vida e com Ele firmando uma aliança. Interessante notar que nesta aliança todo o interesse é de Deus em manter o homem na sua presença livrando-lhe com isso de todo o tipo de mal que por ventura lhe pudesse ocorrer. Não há na história da raça humana Deus qualquer que se submeta a satisfação de sua criação sem que com isso a dignidade da mesma venha a ser depreciada. Nesta economia Deus é glorificado por sua suficiência e o homem é preservado pela suprema misericórdia de Deus.

Interessante ainda é perceber que alhures a crassa rebeldia do homem em não reconhecer a misericórdia de Deus e contra ela romper com Ele os laços ora firmados por meio da desobediência (vide Gn 3.1-17), Deus ainda assim prova o seu amor despretensioso para com o homem punindo-lhe com justa medida sua insensatez, mais ao mesmo tempo firmando com Ele um compromisso de restauração que daria sentido ao que chamamos de história da humanidade (Gn 3.15).

Não é objeto “deste” discorrer sobre a sucessão de alianças que O Ser Todo Poderoso firmou com sua criatura. Entretanto, se faz necessário frisar que tal iniciativa da Pessoa Divina em tudo denota a verdade de que é Deus quem encontra o homem e transforma-lhe a vida. Apenas a aliança vindicada na perspectiva cristã produziu resultados positivos para humanidade. Dado seu caráter sagrado por ter origem imanente.

A verdadeira aliança é a que parte Deus.

“Porque esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o Senhor: na sua mente imprimirei as minhas leis, também sobre o seu coração as inscreverei; e eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo” Hb 8.10

O homem por suas próprias forças jamais conseguiria uma aliança com um Deus grandioso assim. Por isso coube ao mesmo agraciar ao homem com sua maravilhosa presença.

A relevância desta aliança aponta para o fato de que sendo Deus o autor e consumador do contato com o homem, este se vê livre pela palavra de um ser que não pode mentir da mais variadas agrúrias que um reles mortal estaria sujeito. Aqui não é o homem que se vê as voltas para livrar-se da excentricidade de um deus, e sim um Deus que promete para sua própria satisfação que protegeria o homem mesmo que esse não merecesse. Esta postura sui generis do Deus de Israel causa uma “dobra” no estudo da fenomenologia da religião por que rompe com o encontrado em todas as demais culturas e desta forma faz com o que o cristianismo seja um divisor de águas no que tange ao estudo das religiões.

O que se percebe a partir da leitura da Bíblia Sagrada – livro que vindica autoridade sobrenatural no cristianismo – é que Deus procura fazer com que o homem perceba que a finalidade precípua da aliança ora aventada não é necessariamente a proteção/satisfação do homem, e sim, a manifestação da Glória de Deus.

“Para que se saiba desde o nascente do sol, e desde o poente, que fora de mim não há outro; eu sou o SENHOR, e não há outro. Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o SENHOR, faço todas estas coisas”. Isaías 45:6-7

“Lembrai-vos das coisas passadas desde a antiguidade; que eu sou Deus, e não há outro Deus, não há outro semelhante a mim. Que anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam; que digo: O meu conselho será firme, e farei toda a minha vontade”. Isaías 46:9-10

Deus está fazendo a sua vontade, executando o seu projeto! Não há que se aventar submissão de IHWH ao homem que é sua criação, mas sim a completa misericórdia do mesmo em permitir a sobrevivência do homem em sua presença sem que a percepção do mesmo altere em nada a magnitude de seu Ser. Percebesse que o sucesso da aliança consiste na manutenção da glória de Deus que; sendo perfeito em todos os seus atributos confere ao homem a graça de permanecer em sua presença, sendo a sobrevivência e proteção do mesmo consequências acessórias ao projeto de Deus e nunca o seu fim.

Portanto, depreende-se que a aliança que Deus firmou com o homem consiste no fato de que a satisfação de Deus na glorificação do seu Ser empresta ao homem a prerrogativa de existir. Não há motivo para existência do homem a distrito da magnificação do ser absoluto de Deus. O que nos infere logicamente que a preservação da raça humana não é o fim último da aliança que Deus firmou com a mesma, e sim, condição mínima de execução de seu projeto que é a manifestação de sua glória sempiterna a seres que foram criados propositalmente com a capacidade de contemplá-la.

Em suma:

“Porque Deus, que disse: Das trevas resplandecerá a luz, ele mesmo resplandeceu em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo” 2 Coríntios 4.6

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

27ª Conferência Fiel para Pastores e Líderes

Estive assistindo as palestras promovidas pela Editora Fiel em sua 27ª Conferência.

O tema desta ditosa programação fora: Evangelização e Missões, proclamando o evangelho para alegria das nações.

Estiveram presentes no evento pregadores conhecidos, tais como: Augustus Nicodemos, Mauro Meister, Silas Campos, Franklin Ferreira, R. W. Glen, John Piper e o decano do evento, o Rev. Stuart Olyott.

Indubitável o nível em que a promoção da glória de Deus fora proclamada ao longo de todo o evento. Como diria o Rev. Piper, tivemos um poderoso exemplo do que entendemos por "exultação expositiva".

Creio que muitos dos congressistas ali presentes, bem como um sem número de pessoas que assistiram o evento do conforto de suas residências, graças a visão de Reindo da Ed. Fiel que o transmitiu ao vivo; foram impactados por sólida exposição bíblica.

Precisávamos de um bom evento em que a pregação fosse o norte. E o tivemos!

Estamos agora equipados com uma motivação oriunda da própria Palavra de Deus que creio nos comissionar ao desfrute prático de cada um dos tomos ventilados por seus respectivos pregadores. Percebemos missiologia em ação ao destilar teológico de pontos em tudo relevantes. Glória a Deus.

Oro para que o Senhor da ceara, como fora tão profícuamente mencionado, glorifique a Ele mesmo em resposta a sua oração de enviar mais ceifeiros. E que a nossa geração tome mais este evento como um alavancar de vocacionados, de fato, apaixonados pela promoção da Glória de Deus para alegria das nações.

Obrigado Senhor, por mais este deleite propciado, e, por todas as benesses agora dele recorrentes.

Que o Senhro seja louvado. Amém!

domingo, 21 de agosto de 2011

MINHA ORDENAÇÃO, O CUMPRIMENTO DE UMA PROMESSA!

Hoje, gostaria de escrever sobre algo diferente. Nada de fenomenologia da religião.

Ao contrário, aproveito para compartilhar com os amados irmãos um dos momentos mais especiais de toda minha vida - minha ordenação ao ministério pastoral.

Desde que me vi completamente absorto na obra de nosso Senhor Jesus Cristo, entrementes minha conversão - momento em que fui irresistivelmente alcançado pela graça salvífica - sempre sonhei com o dia em que me tornaria (ou seria tornado) um Ministro do Evangelho.

Não obstante, o primeiro contato que tive com esse sonho foi através das folhas pontilhadas de teologia pastoral escritas pelo Rev. C.H. Spurgeon. Conheci este homem de Deus através de uma referência que mencionava o mesmo como "o Príncipe dos Pregadores". Ao ter contato com este singelo "pronome de tratamento", não tive dúvidas, tinha que ler o mesmo. De posse desta premissa, parti em direção a uma das duas únicas livrarias evangélicas de que minha cidade dispunha. Ao chegar lá, de pronto, percebi o quão "caro" é procurar conhecimento através de literatura evangélica. Percorri os corredores da livraria sabendo o que tinha de procurar - um livro do senhor Spurgeon. Se ele era o príncipe dos pregadores e eu queria me tornar um (pregador), então, seria com ele que eu iria ter que começar. Após alguns minutos de procura, enfim, a descoberta, lá estava, meio amarelado pelo tempo (penso que não eram muitos os irmãos que conheciam o senhor Spurgeon na minha cidade) o livro tão desejado. Peguei o mesmo e não me preocupei em ler a sinopse, podia tratar do tema que fosse, se era do Spurgeon, para mim estava ótimo. Desta forma, qual não foi minha surpresa quando percebi que não possuia nem mesmo metade do valor estipulado pela loja, decepção. Entretanto, escondi o mais que pude o livro na prateleira que achei menos vasculhada e sai daquela loja disposto a conseguir o dinheiro o quanto antes.

Cerca de um mês depois, lá estava eu. Com várias moedas no bolso, um monte de notas surradas (as de menor valor são as que mais circulam, daí o motivo de tamanho disgaste) e pelo menos uma nota de maior valor (uma benção recebida do papai). Altaneiramente saltei de um pulo no ônibus e parti em busca de minha jornada épica, a procura daquilo que inevitavelmente seria o motivo de tanto deleite futuramente, livros. Mas, não se tratava de um livro qualquer, era o meu primeiro livro!

Lembro de ter corrido o máximo que pude para rever o objeto de dias de trabalho árduo. Temia que algum teólogo de plantão o tivesse achado para somar a sua, talvez, robusta biblioteca, enquanto eu ainda não possuía nenhum exemplar. Contudo, graças a Deus, o meu "O melhor de C.H. Spurgeon" ainda estava lá. Abracei-me com o mesmo e parti, na mesma rapidez com que vim, de volta para minha casa. Tomei o livro nas mãos, trancado no meu quarto e rasguei demoradamente o plástico que o revolvia, - não ousei assiná-lo, hábito que sigo até os dias atuais. Lembro-me que o li demoradamente, afinal, não sabia quando encontraria, e, teria condições, de comprar outro.

Foi com Spurgeon que aprendi que um verdadeiro homem de Deus deve amar o conhecimento, se dedicar a leitura, a piedade, a comunhão, a comunicação axiomática das doutrinas inalienáveis da reforma. Entretanto, o que mais me chamou atenção, foi o fato do velho pregador considerar a comunicação do evangelho genuíno a maior honra que um homem pode receber, isso, e nada mais. Creio que vocês devem imaginar o que aconteceu depois. Lá estava eu, nas palavras de Martin Lloyd-Jones, "sonhando com a plataforma superior". Tornei-me, decididamente, irremediavelmente apaixonado pelo conhecimento e deleite deste Deus Todo Poderoso.

Dois anos depois, mesmo fazendo parte de uma igreja de orientação pentecostal (tipo a "letra mata"), decidi matricular-me num seminário, e o fiz. Descobri o mundo maravilhoso da Plenitude dos Tempos; encantei-me com os ensinamentos de Cristo, empolguei-me com a realidade austera da igreja apostólica, surpriendi-me com a velocidade com que os pais apostólicos atearam fogo no mundo de então, decepcionei-me com a estatização da fé, com o negrume das cruzadas; com o relaxamento do credo e com a venda das indulgências. Entretanto, ganhei ânimo novo com a reforma protestante, expandi meus horizontes com o estudo das línguas clássicas, empolguei-me com as missões modernas, vibrei com a teologia do século XVIII (até hoje recorro a este século mavioso), e acentei em continuar um legado que percebi pertinente, em finalmente, encontrar-me com o já conhecido senhor Spurgeon e a geração maravilhosa daqueles que continuaram o seu legado.

Em todo este tempo, o púlpito e a glória que dele emanava me encantavam. Deixei as salas como aluno, retornei como prefessor. Entretanto, sem nunca deixar de aprender, ou de concordar com o "título" hora recebido. Neste íterim, descobri o reverendo Hernandes, e, no mesmo período, o reverendo John Piper. Encontrei-me com a teologia da alegria, e identifiquei-me de pronto. Deste contato me sobreveio outros tão maravilhosos quanto. Não tenho palavras.

Com o amadurecimento teológico veio também o físico. Fui achado pelo amor e casei-me com a moça mais bela que já tinha visto em toda a minha vida, sendo esta, também, fruto dos meus dias como seminarista, foi lá, nos corredores do seminário qua a vi pelo primeira vez, como esquecer? - o Senhor preparou todas as coisas. Rayssa foi o melhor presente que Deus poderia me dar. Mas, como em Deus as coisas ainda podem melhorar, quatro meses após o nosso enlace matrimonial, o Senhor nos abençoou com a notícia de que Rayssa havia acabado de engravidar de nossa"pequena notável", Yasmim. Que nasceu nove meses depois para coroar nossa dileta relação. Sendo estas, as duas mulheres da minha vida - o meu legado.

Após o casamento e o término do seminário, o púlpito se tornou um lugar cada vez mais frequente, mas, jamais, acostumado - jamais! Sempre que tenho oportunidade de enfrentá-lo; o faço com temor e tremor. E jamais, em todos estes poucos anos, desci do mesmo com a certeza de um "dever cumprido", sempre me pego esquecendo do principal[...].

Desta forma, faltando pouco mais de dois meses para completar dez anos de busca incessante por mais da Glória de Deus, mais um convite. Desta vez, irresistível. O tempo havia finalmente chegado! No dia 20 de Agosto de 2011, para a Glória sempiterna de meu Deus, fui ordenado Ministro do Evangelho. Creio não ter assimilado ainda o que estou vivendo. Não sei se um dia conseguirei, mas, de uma coisa eu sei, esta promessa gloriosa enfim se cumpriu, e eu estou como os que sonham[...] não tenho palavras para descrever tamanha alegria, tamanha honra, meu Deus, que momento fantástico, que o Senhor seja louvado!

Jamais esquecerei este dia. Da palavra proferida pelo reverendo Pedro da Juvep, que foi poderosamente usado por Deus e me fez, ao longo de sua ministração, reviver intensamente e em detalhes, tudo o que acabo de compartilhar com vocês. Como esquecer todas as "confirmações" deste momento, de todos os familiares que compareceram, dos alunos que estavam presentes, da palavras de força e ânimo, do amigo que fora instrumentalizado pelo próprio Deus e que, quebrando o "protocolo", sentou-se ao meu lado, em meio aos demais oficiais da igreja, e declamou-me, enquanto esperava o momento de subir a plataforma, trechos dos livros do Pr. Spurgeon que se tornaram tão caros ao meu sofrível coração, que me fez em poucos segundos lembrar-me do princípio de minha caminhada, e reviver todas as promessas (frutos daquele primeiro livro, lembram?). Nos meus sonhos mais altaneiros eu jamais houvera pensado que o tão esperado grande dia seria assim[...], obrigado meu Deus!

Finalmente, queridos. Se eu detalhasse melhor cada pequeno momento (tão grande), creio que iria escrever por um bom tempo. O fato, é que amo poderosamente este Deus maravilhoso que enviou o seu Único Filho para morrer expiatóriamente por mim, amo cada palavra, cada vírgula, cada sentença de sua Palavra maravilhosa, a qual me causa um prazer e um deleite que são tão profundos e tão especiais que jamais ousarei defini-los. Amo fazer parte do seleto grupo de pessoas separadas por ele para repartir o pão e celebrar o vinho, creio não ter nascido para outra coisa.

Por tudo,

Obrigado, meu Deus!

P.S. O caráter precede a habilidade e uma alma vale mais que o mundo inteiro.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

MORRE O PASTOR JOHN STOTT, UM SERVO DE DEUS

Um dos maiores expositores bíblicos do século XX. Assim definiria John Robert Walmsley Stott (27 de Abril de 1921 - 27 de Julho de 2011), este corifeu da fé  morreu aos 90 anos, vítima de complicações de saúde se agravaram nas últimas semanas de sua vida.

Com uma mente hábil e uma pena que poucas vezes ao ano não espalhava letras poderosas sobre nossas mentes, John Stott, ao longo de sua vida profícua, escreveu nada menos que cerca de 50 livros, dos quais, Cristianismo Básico foi o mais conhecido; vindo a ser traduzido para mais de 60 países, chegando a vender pelo menos 2 milhões de cópias.

Stott era o pastor emérito da All Souls Church, desde 1945, mesmo ano de sua ordenação, vindo a aposentar-se com todo o vigor intelectual em meados de 2007 - pastoreando a mesma igreja por toda a sua vida.

Símbolo de dileta erudição e estimada humildade, Stott era um daqueles "Homens de Deus" que encantava com sua singeleza e ousadia. Não é a toa que homens como Mauro Meister, ao discorrer sobre o mesmo, asseverou "Lembro-me de ter vertido lágrimas diante da clareza, simplicidade e autoridade com que (Stott) expôs a Escritura". Sobre seu grande amigo, Billy Graham, dicorreu "Eu perdi um de meus amigos pessoais e assessores. Estou ansioso para vê-lo novamente quando eu for para o céu" Da mesma forma, o reverendo Renato Vargens, ao pronunciar-se sobre a morte de Stott, nos descreveu nitidamente o que sentia pelo emérito escritor, "Particularmente eu devo muito a este grande homem de Deus. Seus livros contribuiram significativamente para a minha formação teológica". Um dos seus maiores amigos no Brasil, o Bispo Anglicando Dom Robinson Cavalcante (ose), ao referir-se a Stott no sítio da Igreja Anglicana do Brasil disse: "Como expositor bíblico ele era fantástico". 

Particularmente, fui providencialmente influenciado por John Stott, lembro-me de quão importante foi para minha vida a leitura de Ouça o Espírito, ouça o mundo e a Cruz de Cristo. Dias bons, em que me sentava preguiçosamente e "gastava tempo" com estes escritos, virando sua páginas sem muita pressa - isto foi no ano que antecedeu minha ida ao seminário.

O Pr. John, desde então, tornou-se, naturalmente, um referencial para mim! Dessarte, foi com alegria que tomei conhecimento que este homem de Deus morreu em tenra idade, cercado por seus melhores amigos, lendo as Sagradas Escrituras e ouvindo O Messias, de Handel. 

Portanto, pela doce contribuição de Stott para manifestação do conhecimento de Cristo sobre a face da terra, e pelo  legado alvissareiro com que este servo de Deus será lembrado[...] faço minhas as palavras de Davi, "não sabeis que, hoje, caiu em Israel um príncipe e um grande homem?" II Sm 3.38b.

Para glória de Deus, sinto-me honrado, por ter pertencido a geração de homens como o Pr. John Stott.

Que possamos nos encontrar no céu, amém!

terça-feira, 19 de julho de 2011

A MEDIAÇÃO CULTURAL COMO LOCUS METODOLÓGICO

Há algum tempo (eu) não era, de fato, persuadido por um livro que trata-se de teologia (pura). Não que os escritos não fossem excelentes, eles eram. No entanto, sempre me via entrementes a uma leitura, no mínimo, redundante. Todos sabemos que diuturnamente livros de "teologia sistemática" fluem aos borbotões nos prelos das editoras. Não obstante, os mesmos brotarem maiêuticos, regados a idéias originais e temas "relevantes", a tônica, sinceramente, é repetitiva.

Dias atrás, revirando alguns escritos que constavam na minha "insistente" lista de leitura, deparei-me, não euforicamente, com mais uma sistemática. Como o alfarrábio tinha surgido como presente de um amigo por demais estimado, resolvi, folheá-lo. Tratava-se da "Teologia Sistemática no Horizonte Pós-Moderno", um novo lugar para a linguagem teológica. O autor, Alessandro Rocha, o meio Editora Vida.

Sendo assim, amiúde tantos "só menos", imaginem qual não foi minha surpresa ao me deparar, ainda na introdução, com um pensamento desta natureza, "... a teologia sistemática manualística vive um momento de esgotamento de sentido, em que a fé cristã se restringe a repetição dogmática de reflexões histórico-sociais do passado, vimos a necessidade de abordar criticamente a "gestação" dos métodos e situá-los como construtos sociais". Resultado, enfim uma leitura sitemático/teológica sobejamente original - que benção, havia ganhado um livro genial!

Desta forma, em se considerando a proposta deste espaço, compartilho um trecho do livro, em que o Reverendo Alessandro discorre sobre "A mediação cultural como locus metodológico". Mas, o que vem a ser isto?

Alessandro pressupõe que em se tratando de cognoscibilidade a fórmula que sobresta experimentalmente nossa apreensão mística seria: Experiência de Fé --> Mediação Cultural --> Discurso Sistemático. Destarte, uma vez dirimida a fórmula, a "Mediação Cultural" - que é a parte que nos interessa - seria o meio inteligível em que aquilo que está no campo das idéias (metafísico/lógico) a "Experiência de Fé" seria posto de maneira cognoscível, através de símbolos conhecidos (sistema linguístico), fazendo com que tal experiência - sendo depreendida pelo receptor e posteriormente repassada - se tornasse um "Discurso Sistemático" (oragnizado culturalmente).

Ademais, sem a mediação cultural seria inevitável uma "polarização entre experiência de fé e discurso sistemático, uma incomunicabilidade que inviabilizaria qualquer discurso minimamente relevante. Sem mediação cultural, a experiência da fé não transmitiria nenhum sentido existencial, e o discurso sistemático não passaria de peça literária cristalizada". Sendo esta, portanto, a relevância contextual da mediação cultural.

Indubitável a importância da elaboração de um método de acesso a experiência da fé, para apropriação do discurso sitemático/teológico. Seria este o zênite do pensamento de Alessandro Rocha. Em sua palavras, "a mediação cultural é a parteira que arranca das entranhas da experiência da fé aquilo que virá a ser discurso sistemático". Percebam, que tal mediação não pode ser outra, se não, nossa própria língua local. Em nosso caso, a "última flor do lácio". Ademais, a língua, com toda sua relevância cultural, fulcrada na imarcessível característica supracultural do evangelho; funciona como uma espécie de chave hermenêutica para compreensão da experiência da fé, ou seja, para comunicação do evangelho de maneira contextualizada.

O autor, chama atenção para o fato de que a comunicação não pode ser relegada a segundo plano, uma vez que a mesma resume o que seria compreendido inteligivelmente por pessoa - homem/mulher - apontando para sua concretude, enquanto ser (figura epistemológica). Segundo Alessandro, "o grande desafio que se propoẽ à teologia e ao discurso que a quer comunicar é o de anunciar a homens e mulheres concretos, não à humanidade como categoria universal e genérica, aquilo que se mostra de forma hierofânica e indizível". Ainda segundo Rocha, no que tange ao discurso teológico, "o desafio não consiste apenas em comunicar esse fato (incogniscível), o que já seria complexo, mas comunicá-lo na dimensão do horizonte existencial daquele e daquela que constituem sujeitos históricos desse processo, dos que habitam um mundo particular".

Por tudo isso, a contextualização é de fundamental importância, uma vez que ela coloca em termos perceptíveis e concretos - culturalmente falando - uma verdade até então completamente desconhecida. Nas palavras de Libânio, "a comunidade na pessoa do teólogo (comunicador) cria a teologia, e a teologia, por sua vez, cria a comunidade com sua linguagem".

Portanto, conforme o autor, "pode-se afirmar que é no espaço da mediação cultural que os métodos são criados - andaimes ou pontes que possibilitam falar o indizível da experiência da fé para atender ao imperativo da necessidade/desafio que dela se deriva". Assim, é pacífico o entendimento que estabelece a contextualização bíblica como fundamental para perfeita comunicação do evangelho. No caso em questão, a sentença utilizada para rememorar a conotação da mesma foi "Meio Cultural", contudo, nada que desabone as caracteríticas fundamentais do ditame - absolutamente.

Finalmente, como mencionei à princípio, me encontrei felizmente surpreendido com a relevância da pena do Reverendo Alessandro Rocha. Se bem que o âmago do texto é uma crítica a maneira cristalizada com que pensamos/fazemos teologia com arrimo na cultura helênica clássica - fato que nos impede aprioristicamente de pensarmos nossa própria teologia pelos motivos exposados no texto - recomendo a leitura do mesmo como farol que nos ilumina a uma crítica sóbria no que tange a necessidade premente de "um novo lugar para a linguagem teológica".

Em se tratando da relevância dos aspectos contextuais e fenomenológicos para comunicação do evangelho, diria:

Enfim um "grande livro", fundado numa bela tese, relevante. Recomendo!


Rocha, Alessandro Rodrigues
Teologia Sistemática no horizonte pós-moderno: um novo lugar para a linguagem teológica - São Paulo: Editora Vida, 2007.   

domingo, 10 de julho de 2011

MINHAS IMPRESSÕES SOBRE JAMES O. FRASER

Acabei de ler o livro "Chuva na Montanha, uma nova biografia de James O. Fraser", cujo estilo desenvolto se atribui a pena de Eileen Crossman - filha de James -, o texto foi impresso no Brasil sob a égide da Missões Horizontes, 1999.

James O. Fraser é sem sombra de dúvida um marco indelével na história de missões. De compleição física forte e gentil presença, o jovem James aparentava ser apenas mais um jovem inglês que o mundo haveria de ver numa geração conhecida por somenos apatia espiritual. Ademais, em sua abastada infância de gérmen pós-aristocrática, James jamais cogitara a possibilidade de fazer de sua vida um farol que fulguraria a glória de Deus de maneira tão premente. Entretanto, após um profundo processo de entrega total a Deus, James, com apenas vinte e dois anos, deixou os regalados concertos de piano que tanto admiravam seus compatriotas ingleses e partiu numa missão além mar para o sudoeste da China.

Profundamente influenciado pelo brilhante missionário Hudson Taylor (Uma Vida pela China), James assentou em seu coração o desejo de desbravar a China até então intocada - mais precisamente a parte oeste. Quando chegou a China, o país que tanto queria ganhar para Cristo, o jovem missionário logo percebeu um povo que se destacava dentre os demais - os lisus do oeste, habitantes da luxuriosa província do Yunnan. Ato contínuo, com o coração hávido por subir as inóspitas e exóticas montanhas habitadas pelos lisus, James se comunicou com o então diretor da CIM (Missão para o Interior da China), o austero Sr. Hoste; pedindo ao mesmo permissão para iniciar sua intentona, pelo que recebeu tão gloriosa permissão.

Logo em uma de suas primeiras viagens, Fraser teve uma das mais traumáticas experiências de sua vida. Um Kachi, nativo que vive nas imediações do território dos lisus, de posse de um facão, tentou furtivamente matar o inexperiente desbravador inglês, vindo a persegui-lo por quase uma hora por entre as trilhas emperdenidas das montanhas sombrias do Yunnan. Se o Kachin tivesse logrado êxito em seu intento funesto, uma das empreitadas missionárias mais bem sucedidas de todos os tempos teria se frustrado ainda em gérmen. Contudo, por uma intervenção miraculosa de Deus este "contra-tempo" não veio a consumar-se; de modo que se iniciou um trabalho árduo que perduraria pelo restante da vida de James Fraser.

No que se refere a evangelização propriamente dita, o povo lisu era de difícil contextualização. Situações normais de pano de fundo ocidental eram inconsebíveis em território lisu, diga-se o "simples" uso de medicamentos de primeira necessidade, saneamento básico, noções de higiene pessoal etc. Tais medidas simples, na ótica de James, não se tratava de uma ocidentalização dos Lisus, mas, de um conjunto de melhorias que, grosso modo, acabaria com um índice terrível de mortalidade que grassava principalmente as crianças. Destarte, mesmo estas necessidades sendo prementes, não foram de pronto aventadas por James - era a vida eterna dos lisus que o preocupava.

Desta forma, de posse de um coração hávido por almas, se iniciou o trabalho próprio de desbravamento evangelístico da província de Yunnam. Todavia, não demorou muito para que as primeiras dificuldades viessem a acontecer. O povo lisu, absorto por séculos de engodo satânico - para usar as palavras de Fraser - pouco se importou com as novas do evangelho, vindo até a desdenhá-lo. Só com uma insistência quase que sobrenatural por parte do jovem missionário é que alguns nativos lisus vieram a dar ouvidos a mensagem da cruz. Entretanto, tão logo James viajava a outra vila, os jovens convertidos se viam, mais uma vez, envoltos nas trevas do engano. A inconsistência, a princípio, era a maior adversária de James.

Destarte, uma fato que chama atenção nesta profícua história de missões, foi a capacidade de contextualizar-se que james herdou de Hudson. O jovem se vestia, comia e vivia como um típico nativo lisu - em nada deixando a desejar. Outro ponto de suma importância, era o fato de que James jamais pagava por qualquer ajuda que recebia, visando, desde cedo, fomentar no neófito coração dos lisus uma perfeita motivação em relação a obra. Desta forma, regado a alguns legumes amargos, arroz cozido e uma vista exuberante, James percorria centenas de quilômetros por montanhas e vales inóspitos munido apenas de uma mochila e literatura para distribuir entre os lisus. Por pelos menos 9 anos, James se encontrou (quase) sozinho num dos locais mais ostis ao evangelho de então, sendo ajudado esporadicamente por missionários que cruzavam (providencialmente) seu caminho e por um grupo de oração que o mesmo incitou sua mãe a levantar na Inglaterra, justo por conta da tamanha solidão que o assaltava no campo.

Desta forma, após muitos anos de trabalho árduo e quase que sem frutos (aparentemente), quando já contava com 42 anos de idade, James conheceu aquela que dividiria com ele as benesses e as agrúrias do campo missionário - sua esposa Roxie. Foi ao seu lado que finalmente Fraser sentiu - que havia chovido na montanha - e que as moções advindas do céu, enfim, estavam chegando. Foi só após 20 anos que o Senhor permitiu que as redes fossem alçadas e o povo lisu fosse finalmente alcançado pela mensagem de Cristo. Nos conta a filha de Fraser que famílias inteiras se converteram naquilo que ficou marcado como um grande acontecimento na hitória de missões.

Não obstante, foram marcas indeléveis do ministério de James O. Fraser que até hoje influenciam poderosamente o trabalho de missões transculturais: trabalho auto-sustentado, aperfeiçoamento de liderança local, forte ensino teológico de base, pregação onde Cristo ainda não fora conhecido, e, acima de tudo, completa dependência da atuação do Espírito Santo. Como costumavam dizer seus amigos: James era 50 anos a frente de seu tempo.

James, que havia se tornado superintendente da CIM pouco antes de se casar com Roxie, veio a falecer de malária cerebral maligna a contar com cerca de 54 anos de idade; deixando mulher, duas filhas e um legado poderoso para todos quantos amam o Reino de Deus e sua justiça.

Recomendo a leitura de Chuva na Montanha.       

sábado, 2 de julho de 2011

AMY CARMICHAEL, UM EXEMPLO DE CONTEXTUALIZAÇÃO MISSIONÁRIA

Amy Carmichael (1868-1951), foi uma missionária de ascêndencia européia que marcou indelevelmente a história das missões cristãs em solo asiático. Nascida numa pequena vila na Irlanda no Norte, Amy era a filha mais velha do casal David e Catherine Carmichael, um casal de cristãos presbiterianos.

Em tenra infância a pequena Amy sonhava em ter "olhos azuis", assim como os demais membros de sua família. Ela não conseguia acreditar no fato de não possuir os tão desejados olhos azuis. Certo dia, em sua inocência de criança, Amy se recostou em sua cama e proferiu uma singela oração a Deus - "Senhor, quando eu acordar pela amanhã, faça com que tenha olhos azuis... amém!". Todavia, quando em fim o sol libertou os primeiros raios do dia que se avizinhava, a surpresa - Amy continuava com seus meigos olhinhos castanhos.

A menina, a princípio, não conseguiu conter a resignação que instava em sua mente juvenil. A pergunta que grassava seu coração era: Por que Deus não atendeu ao meu pedido, por que Ele não atendeu minha oração - eu pedi com tanta fé? A garotinha de olhos escuros compartilhou com sua mãe o sentimento que lhe combalia a alma e pesava a mente. Qual não foi sua supresa ao ouvir a resposta advinda de sua querida mãe: Minha filha, Deus também atua através de um não.

Alguns anos depois, Amy contraiu um sério problema de saúde. A enfermidade foi diagnosticada como neuralgia, segundo se sabe, tal enfermidade lhe impingia fortes dores pelo corpo a ponto de lhe fazer convalescer por semanas a fio. Destarte, por suas características físicas, Amy jamais seria aceita por qualquer agência missionária, as quais, no período em questão, possuíam um rígido programa de seleção de candidatos ao campo. Entretanto, mesmo que com uma compleição física tão frágil, Deus tinha grandes planos para vida de Amy.

Desta forma, o ano em que o Senhor começou a mudar as coisas foi o de 1887. O grande desbravador do "interior da China", Hudson Taylor, se recuperava fisicamente na europa para retornar ao seu amado campo missionário; quando fora convidado para falar sobre "Como é a vida missionária" no programa que ficou onhecido nos anais da história como  a Convenção de Keswick (1887). A palestra deixou a jovem Amy sensilvelmente impactada, de modo que a partir dali, ela resolveu se entregar completamente nos braços de Cristo e servir como missionária.

O Senhor abençoou o desejo que fruía do coração de Amy e lhe deu forças para o programa missionário, de modo que ela veio a ser cosiderada apta. O primeiro campo em que Amy fora designada era asiático, embora não fosse especificamente a parte da Ásia em que Deus queria que ela estivesse - se tratava do Japão. Ela ficara cerca de quinze meses na terra do sol nascente, contudo, sentia que aquele ainda não era o "seu local", e, ao fim deste período, se transferiu para o que seria a terra em que lutaria e consumaria sua vida pela causa de Cristo - sua amada Índia.

Uma vez lá, ela se filiou a missão "Zenana da igreja da Inglaterra" e passou a trabalhar com crianças descendentes de pais pobres (miseráveis), os quais, tinham como costume, "vender" seus filhos (dálits) no local conhecido funestamente como "Mercado de Crianças". Em se chegando neste tosco mercado, as crianças tinham os mais variados destinos. As mesmas podiam ser vendidas como mercadoria para troca, para serviços forçados em lavouras ou comércios, para trabalhos domésticos, e, principalmente, em se tratando de meninas, para exploração sexual. Amy ficou profundamente tocada com esta terrível situação enfrentada pelas crianças, de modo que resolveu fundar a "Dohnavur Fellowship". O trabalho desta mulher virtuosa era notável; Amy "comprava" as crianças e as conduzia carinhosamente a seu orfanato (que também funcionava como hospital) transformando através da Palavra de Deus o triste destino dessas crianças, lhes propiciando uma chance de ter uma vida feliz.

Neste ponto, adentramos no assunto que deixou esta grande missionária tão conhecida. Para ter acesso as crianças e finalmente comprá-las, Amy tinha que contextualizar-se. A mesme era européia, tinha pele clara e o comportamento natural de seu país. Não obstante, para conseguir vencer as barreiras culturais que lhe separavam de suas amadas crianças, Amy se vestia como as demais mulheres indianas, se comportava como tal, e, pintava sua pele clara com "pó de café", o qual lhe garantia a cor que precisava para passar desapercebida como indiana no Mercado de Crianças. Segundo consta, Amy chegava a viajar centenas de quilômetros nas estradas inóspitas da Índia para comprar uma criança. O ponto é que se Deus tivesse lhe dado os olhos azuis que ela tanto desejava, Amy estaria completamente impedida de se passar por uma mulher local e finalmente salvar seus amados pequeninos. Ademais, como sua mãe bem lhe ensinou, Deus também trabalha através de um não.

Desta forma, gostaria de lhes chamar atenção para o comportamento de Amy. Como missionária, ela sabia que tinha de transmitir o evangelho de maneira pertinente e significativa, através de símbolos culturais que fossem próximos a realidade indiana, mas que não tivessem qualquer associação a parâmetros sincréticos, de modo que a mensagem do evangelho não viesse a ser comprometida nem diluída pelos mesmos. Talvez o contato que Amy teve com Hudson Taylor tenha contribuído muito para isso, uma vez que, ele ficou muito conhecido nos círculos da época por viver contextualizadamente como chinês (ficamos devendo algo mais específico sobre Hudson) revolucionando, por assim dizer, o comportamento evangelical de sua época.

Portanto, mesmo com seu caráter supracultural, o evangelho precisa ser apregoado através de ferramentas que lhe propiciem os meios necessários para sua compreensão. Boa parte das empreitadas missionárias que foram frustradas ao longo dos anos possuem forte tendência a má contextualização. A bem da verdade, sabemos que o maior incentivador e mantenedor de missões é o próprio Espírito de Deus, no entanto, o próprio Deus "não teve como usurpação o ser igual"; e a si mesmo se esvaziou para nos comunicar sua mensagem da maneira mais perceptível possível - contextualizada. Por esvaziar, entendemos a capacidade que Deus possui de se fazer compreendido e não diminuído. Sendo esta a bandeira que as missões modernas têm levantado.

Finalmente, louvo a Deus por exemplos como o de Amy Carmichael, uma mulher piedosa que fez de sua vida um farol que conduzia e protegia as crianças indefesas da Índia. Um legado poderoso e um exmplo formidável para nossa geração. Amy veio a falecer na Índia - o país que ela amava e pelo qual deu sua vida - com cerca de 83 anos de idade. Após complicações oriundas de uma queda sofrida. Ela chegou a escrever 35 livros cristãos, sendo uma escritora prolífica. Uma vez indagada por uma jovem sobre como era ser uma missionária, asseverou: "A vida missionária é simplesmente uma forma de morrer". Ainda em vida, Amy pediu a seus amigos para não colocarem nada em sua lápide, ao invés disso, suas crianças escreveram "Amma" que em dialeto Tamil significa mãe.

Por tudo isso, muito obrigado - olhos azuis.

 

quarta-feira, 22 de junho de 2011

MAIS UM FIM DE PERÍODO (2011.1)

Olá queridos teólogos, Graça e Paz!

Pois é amados, mais um período chegou ao fim; e com ele, uma série de expectativas. Fim de período é sem sombra de dúvida um período de "descobrimento". Alguns descobriram, para sua própria perplexidade, que não tinham o "chamado" que achavam ter recebido. Outros, descobriram surpresos, que fazer teologia não é tão fácil - como alguns asseveravam. E finalmente, mesmo que em menor número, alguns perceberam que fazer (estudar, produzir, pensar) teologia é a maior benesse intelecual/espiritual que um servo pode receber.

Para estes, que no pensar de Spurgeon são semelhantes a Sansões espirituais, teço algumas considerações. A princípio, gostaria de congratulá-los por mais esta conquista, de fato, nestes tempos pragmáticos, não é nada fácil abdicar de uma universidade ou seja lá de quê (desculpem os termos...), para ingressar num seminário teológico. Isto, por conta de alguns obstáculos que enumero como os percebo. Primeiro, tem-se que vencer os próprios familiares, os quais só querem o "nosso bem" e nos aconselham a primeiro se formar (em qualquer coisa, menos teologia), constituir família, estabilizar-se financeiramente, esperar os filhos se equilibrarem e só então assumir a cátedra. Segundo, tem-se que vencer a si mesmo, a falta de motivação, de concistência, os inúmeros "problemas pessoais" [...]. Terceiro, tem-se que vencer a terrível falta de recuros para quem se aventura nestas paragens - é impressionante como a igreja local sempre está com "outros projetos" em andamento. Em fim, aos que concluíram - parabéns!

Espero, em nome de Jesus, vê-los no próximo período. Oro por isso.

Que nestas férias, nada pareça mais valioso que a cruz ensanguentada - que eles não vejam nada além da cruz. Que para eles, o evangelho nunca perca o fulgor, que em qualquer lugar, seja onde for, que ele sempre se mostre supracultural.

Que eles possam continuar buscando a supremacia de Cristo sobre todas as coisas, para alegria de todos os povos. E que estejam dispostos a dar suas vidas por isso.

E que, em meio, talvez, aos mesmos problemas, o Senhor me conceda forças para no próximo período abrir a porta daquelas salas - uma vez mais, e dizer - então, são vocês?

Fim de período... parabéns a todos nós. Glória apenas a Deus.   

sexta-feira, 17 de junho de 2011

O MITO DO ETERNO RETORNO

De autoria do conspícuo historiador das religiões, Mircea Eliade (1907-1986), o livro O Mito do Eterno Retorno - Ed. Mercuryo; que, também, poderia se chamar Introdução a uma Filosofia da História; trata da complexidade que orbita o tempo cíclico (mitológico, sagrado) e o linear (atemporal, cristão). Toda a problemática do livro é de valor inestimável para a história e consequentemente para fenomenologia da religião.

A princípio, o autor se preocupa em dirimir de maneira sucinta qual o objeto de sua pesquisa, quiçá, o significado e função daquilo que chamamos de "arquétipos e repetições". Mircea procura demonstrar que a "história" é fomentada por meio de mitos que explicam a evolução do homem; ele diz "os mitos preservam e transmitem os paradigmas, os modelos exemplares, para todas as atividades responsáveis a que o homem se dedica. Em razão desses modelos paradigmáticos, revelados aos homens em tempos míticos, o cosmo e a sociedade são regenerados de maneira periódica", grosso modo, os mitos fazem com que o homem "pertença" a história - a qual, no pensamento de Eliade é em sua maioria cíclica.

Definido o entendimento de arquétipos (exemplos de início), temos o simbolismo do centro, que na perspectiva do autor denota ao homem a capacidade de fundar o mundo a partir da repetição do Ato Cosmogônico. Esta recriação remonta o homem ao ilud tempus, o tempo forte - mítico. Segundo Eliade, o tempo do começo, da criação, é o tempo que os rituais cosmogônicos procuram restaurar, por se tratar do tempo vivido pelos heróis ancetrais que fundaram o mundo, e, consequentemente as tribos e povos que o remontam. Ainda segundo Eliade, os mitos cosmogônicos iniciam ou aparelham os povos para a realidade temporal que os espera, amalgamando-os aos seus heróis. Para este corifeu da história da religião a história do homem é contada por sua forma de conceber o sagrado, o qual esta sempre se repetindo no "rememorar" do mito.

Destarte, esta regeneração do tempo, fruto da rememoração do ilud tempus, é concebida por meio do entendimento do ano, do ano novo e finalmente pela periodicidade da criação. Segundo Eliade, o tempo esta sempre se regenerando; sempre que qualquer ritual é celebrado, para que o mesmo venha ter relevância sagrada, ele precisa remontar ao princípio, ao tempo em que foi pensado pelo herói ou ancestral mitológico. São inúmeros os mitos que regeneram a criação, os quais, não serão objetos deste artigo por conta do formato (tamanho) pensado para o mesmo. Entretanto, por seu "infinito retorno" o entendimento de história, conforme pensado por nós (ocidentais principalmente), é prejudicado pela eterna recriação do tempo passado. Fato que fez com que Claude Levy-Strauss (1908-2009) asseverasse que não existia história (num outro contexto, lógico) e sim o reviver de um mesmo ocorrido.

Ato contínuo, toda esta problemática é degringolada no terceiro capítulo do livro; o qual desenvolve toda a poderosa relação que o irrupmento do sagrado (hierofania) amealha a vida dos indivíduos impingidos. A contagem do tempo inter-povos descreve a maneira como os mesmos concebem sua existência, a mesma varia desde uma simples referência lunar, até o mitológico ciclo cósmico que traduz a sede do imanente que caracteriza os povos de per si. Todo o argumento de Eliade ambiciona preparar os leitores para a caracterização cíclica que denotam o interesse dos povos de não deixaram a "fonte" que os tornam o que são - suas raízes mitológicas (axis mundi). A única exceção ao pensamento do autor no que tange ao mito hora exposto é o cristianismo. A religião cristã, em seu forte teor escatológico, "rompe" com a perspectiva cíclica dos povos pesquisados e cria uma dobra no pensamento de Eliade. Esta execeção à regra tem gérmen no próprio entendimento de Reino de Deus pensado por Jesus. O Reino pregado por Cristo estaria incontinente dentro de seus seguidores e se concretizaria no futuro próximo. Tal teologia perde toda a conotação cíclica que, até então, caracterizava o pensamento sagrado; e passa a se basear numa concepção "linear". O cristianismo, portanto, não se coaduna com o eterno retorno pensado por Mircea Eliade, e, grosso modo, torna-se o ponto alto de seu pensamento no livro em tela.

No quarto e último capítulo, Eliade reitera a concepção ahistórica do homem arcaico e assevera a postura que havia aventado no capítulo anterior sobre a reconstrução da história pelo homem moderno (cristão). Segundo ele, a singularidade do historicismo se arrima na capacidade que o homem moderno possui de agrilhoar um pensamento linear relevante a posteridade. Toda a liberalidade do pensamento moderno lhe valoriza o apego a verdades diuturnamente relativizadas por seus pares, fato que foi indistintamente trabalhado por Eliade no tomo "dificuldades do historicismo". Não obstante, tal apego ao cristianismo "liberta" o homem do eterno ciclo que lhe manieta, fato que nas palavras de Eliade "liberta o homem da história", o mesmo assevera, "a fé, neste contexto, assim como em muitos outros, significa a emancipação absoluta de qualquer tipo de "lei" natural, e, portanto, a mais elevada liberdade que o homem pode imaginar: a liberdade de poder intervir até mesmo na reconstrução ontológica do universo. Em consequência, trata-se de uma liberdade preeminentimente criativa. Em outras palavras, constitui uma nova fórmula para a colaboração do homem com a criação - a primeira, mas também a única fórmula a ele concedida desde que o tradicional horizonte dos arquétipos e repetição foi ultrapassado. Apenas uma tal liberdade é capaz de defender o homem moderno do terror da história - uma liberdade, em outras palavras, que tem sua fonte e encontra sua garantia e apoio em Deus". Nestes termos, Mircea Eliade valoriza a fé cristã, pois, sua peculiaridade em conceber uma nova realidade, liberta o homem do "eterno retorno" (história) que o aprisiona.

Finalmente, percebo neste ditoso livro a mais profunda definição do pensamento deste que, na opinião de boa parte da academia, é uma das maiores autorides em mitologia de todos os tempos. Integrante do Círculo de Eranos e um dos mais renomados professores de história da religião, Eliade é indispensável para leitura hodierna do fenômeno religioso. No meu entender, o Mito do Eterno Retorno é a principal obra deste homem brilhante. Indico a leitura deste manual de história da religião a todos quanto almejem entender os bastidores do pensamento religioso arcaico e moderno. Trata-se de um clássico!

ELIADE, Mircea O Mito do Eterno Retorno, Ed. Mercuryo - São Paulo, 1992.