quarta-feira, 22 de junho de 2011

MAIS UM FIM DE PERÍODO (2011.1)

Olá queridos teólogos, Graça e Paz!

Pois é amados, mais um período chegou ao fim; e com ele, uma série de expectativas. Fim de período é sem sombra de dúvida um período de "descobrimento". Alguns descobriram, para sua própria perplexidade, que não tinham o "chamado" que achavam ter recebido. Outros, descobriram surpresos, que fazer teologia não é tão fácil - como alguns asseveravam. E finalmente, mesmo que em menor número, alguns perceberam que fazer (estudar, produzir, pensar) teologia é a maior benesse intelecual/espiritual que um servo pode receber.

Para estes, que no pensar de Spurgeon são semelhantes a Sansões espirituais, teço algumas considerações. A princípio, gostaria de congratulá-los por mais esta conquista, de fato, nestes tempos pragmáticos, não é nada fácil abdicar de uma universidade ou seja lá de quê (desculpem os termos...), para ingressar num seminário teológico. Isto, por conta de alguns obstáculos que enumero como os percebo. Primeiro, tem-se que vencer os próprios familiares, os quais só querem o "nosso bem" e nos aconselham a primeiro se formar (em qualquer coisa, menos teologia), constituir família, estabilizar-se financeiramente, esperar os filhos se equilibrarem e só então assumir a cátedra. Segundo, tem-se que vencer a si mesmo, a falta de motivação, de concistência, os inúmeros "problemas pessoais" [...]. Terceiro, tem-se que vencer a terrível falta de recuros para quem se aventura nestas paragens - é impressionante como a igreja local sempre está com "outros projetos" em andamento. Em fim, aos que concluíram - parabéns!

Espero, em nome de Jesus, vê-los no próximo período. Oro por isso.

Que nestas férias, nada pareça mais valioso que a cruz ensanguentada - que eles não vejam nada além da cruz. Que para eles, o evangelho nunca perca o fulgor, que em qualquer lugar, seja onde for, que ele sempre se mostre supracultural.

Que eles possam continuar buscando a supremacia de Cristo sobre todas as coisas, para alegria de todos os povos. E que estejam dispostos a dar suas vidas por isso.

E que, em meio, talvez, aos mesmos problemas, o Senhor me conceda forças para no próximo período abrir a porta daquelas salas - uma vez mais, e dizer - então, são vocês?

Fim de período... parabéns a todos nós. Glória apenas a Deus.   

sexta-feira, 17 de junho de 2011

O MITO DO ETERNO RETORNO

De autoria do conspícuo historiador das religiões, Mircea Eliade (1907-1986), o livro O Mito do Eterno Retorno - Ed. Mercuryo; que, também, poderia se chamar Introdução a uma Filosofia da História; trata da complexidade que orbita o tempo cíclico (mitológico, sagrado) e o linear (atemporal, cristão). Toda a problemática do livro é de valor inestimável para a história e consequentemente para fenomenologia da religião.

A princípio, o autor se preocupa em dirimir de maneira sucinta qual o objeto de sua pesquisa, quiçá, o significado e função daquilo que chamamos de "arquétipos e repetições". Mircea procura demonstrar que a "história" é fomentada por meio de mitos que explicam a evolução do homem; ele diz "os mitos preservam e transmitem os paradigmas, os modelos exemplares, para todas as atividades responsáveis a que o homem se dedica. Em razão desses modelos paradigmáticos, revelados aos homens em tempos míticos, o cosmo e a sociedade são regenerados de maneira periódica", grosso modo, os mitos fazem com que o homem "pertença" a história - a qual, no pensamento de Eliade é em sua maioria cíclica.

Definido o entendimento de arquétipos (exemplos de início), temos o simbolismo do centro, que na perspectiva do autor denota ao homem a capacidade de fundar o mundo a partir da repetição do Ato Cosmogônico. Esta recriação remonta o homem ao ilud tempus, o tempo forte - mítico. Segundo Eliade, o tempo do começo, da criação, é o tempo que os rituais cosmogônicos procuram restaurar, por se tratar do tempo vivido pelos heróis ancetrais que fundaram o mundo, e, consequentemente as tribos e povos que o remontam. Ainda segundo Eliade, os mitos cosmogônicos iniciam ou aparelham os povos para a realidade temporal que os espera, amalgamando-os aos seus heróis. Para este corifeu da história da religião a história do homem é contada por sua forma de conceber o sagrado, o qual esta sempre se repetindo no "rememorar" do mito.

Destarte, esta regeneração do tempo, fruto da rememoração do ilud tempus, é concebida por meio do entendimento do ano, do ano novo e finalmente pela periodicidade da criação. Segundo Eliade, o tempo esta sempre se regenerando; sempre que qualquer ritual é celebrado, para que o mesmo venha ter relevância sagrada, ele precisa remontar ao princípio, ao tempo em que foi pensado pelo herói ou ancestral mitológico. São inúmeros os mitos que regeneram a criação, os quais, não serão objetos deste artigo por conta do formato (tamanho) pensado para o mesmo. Entretanto, por seu "infinito retorno" o entendimento de história, conforme pensado por nós (ocidentais principalmente), é prejudicado pela eterna recriação do tempo passado. Fato que fez com que Claude Levy-Strauss (1908-2009) asseverasse que não existia história (num outro contexto, lógico) e sim o reviver de um mesmo ocorrido.

Ato contínuo, toda esta problemática é degringolada no terceiro capítulo do livro; o qual desenvolve toda a poderosa relação que o irrupmento do sagrado (hierofania) amealha a vida dos indivíduos impingidos. A contagem do tempo inter-povos descreve a maneira como os mesmos concebem sua existência, a mesma varia desde uma simples referência lunar, até o mitológico ciclo cósmico que traduz a sede do imanente que caracteriza os povos de per si. Todo o argumento de Eliade ambiciona preparar os leitores para a caracterização cíclica que denotam o interesse dos povos de não deixaram a "fonte" que os tornam o que são - suas raízes mitológicas (axis mundi). A única exceção ao pensamento do autor no que tange ao mito hora exposto é o cristianismo. A religião cristã, em seu forte teor escatológico, "rompe" com a perspectiva cíclica dos povos pesquisados e cria uma dobra no pensamento de Eliade. Esta execeção à regra tem gérmen no próprio entendimento de Reino de Deus pensado por Jesus. O Reino pregado por Cristo estaria incontinente dentro de seus seguidores e se concretizaria no futuro próximo. Tal teologia perde toda a conotação cíclica que, até então, caracterizava o pensamento sagrado; e passa a se basear numa concepção "linear". O cristianismo, portanto, não se coaduna com o eterno retorno pensado por Mircea Eliade, e, grosso modo, torna-se o ponto alto de seu pensamento no livro em tela.

No quarto e último capítulo, Eliade reitera a concepção ahistórica do homem arcaico e assevera a postura que havia aventado no capítulo anterior sobre a reconstrução da história pelo homem moderno (cristão). Segundo ele, a singularidade do historicismo se arrima na capacidade que o homem moderno possui de agrilhoar um pensamento linear relevante a posteridade. Toda a liberalidade do pensamento moderno lhe valoriza o apego a verdades diuturnamente relativizadas por seus pares, fato que foi indistintamente trabalhado por Eliade no tomo "dificuldades do historicismo". Não obstante, tal apego ao cristianismo "liberta" o homem do eterno ciclo que lhe manieta, fato que nas palavras de Eliade "liberta o homem da história", o mesmo assevera, "a fé, neste contexto, assim como em muitos outros, significa a emancipação absoluta de qualquer tipo de "lei" natural, e, portanto, a mais elevada liberdade que o homem pode imaginar: a liberdade de poder intervir até mesmo na reconstrução ontológica do universo. Em consequência, trata-se de uma liberdade preeminentimente criativa. Em outras palavras, constitui uma nova fórmula para a colaboração do homem com a criação - a primeira, mas também a única fórmula a ele concedida desde que o tradicional horizonte dos arquétipos e repetição foi ultrapassado. Apenas uma tal liberdade é capaz de defender o homem moderno do terror da história - uma liberdade, em outras palavras, que tem sua fonte e encontra sua garantia e apoio em Deus". Nestes termos, Mircea Eliade valoriza a fé cristã, pois, sua peculiaridade em conceber uma nova realidade, liberta o homem do "eterno retorno" (história) que o aprisiona.

Finalmente, percebo neste ditoso livro a mais profunda definição do pensamento deste que, na opinião de boa parte da academia, é uma das maiores autorides em mitologia de todos os tempos. Integrante do Círculo de Eranos e um dos mais renomados professores de história da religião, Eliade é indispensável para leitura hodierna do fenômeno religioso. No meu entender, o Mito do Eterno Retorno é a principal obra deste homem brilhante. Indico a leitura deste manual de história da religião a todos quanto almejem entender os bastidores do pensamento religioso arcaico e moderno. Trata-se de um clássico!

ELIADE, Mircea O Mito do Eterno Retorno, Ed. Mercuryo - São Paulo, 1992.

domingo, 29 de maio de 2011

DEUS ENCONTRA O HOMEM

In ilo tempore o homem busca se encontrar com Deus (Eliade, 2001). É de fato o grande anseio da humanidade; um encontro com aquilo que pode nos satisfazer, saciando esta nossa "fome" de poder (Nietzsche). Esta ansiedade por algo que o preencha é inata ao homem, todos precisam de algo. Desde o mais abastado dos homens até o mais sôfrego dos miseráveis, paira uma espécie de insatisfação sobre todos. O fato é que o homem, de per si, nunca está satisfeito - ele sempre quer mais. Grosso modo - mesmo correndo o risco de uma abordagem simplista - esta é a grande resposta dos mais variados viciados nas mais variadas modalidades de vícios. Quiçá, eu preciso, é uma necessidade!

Ademais, percorrendo os corredores dos antídotos humanos a nossa carência de ser, deparamo-nos com as mais diletas narrativas mitológicas, com as mais laboriosas poesias e as mais abstratas filosofias. Tudo, para conduzir o homem a suficiência. Neste íterim - a glória. Segundo Joseph Campbell (1986), os heróis surgem desta paixão pela glória, pelo encontro do ser (suficiência). Segundo ele, todos quantos foram encontrados por uma grande aventura (épica), se depararam com esta fórmula, a saber: irrupção de um problema - desafio mitológico pela resolução - frustração pela excentricidade da glória. De acordo com Campbell, reside aí a sobeja diversidade das histórias mitológicas e a conspícua produção de novos heróis, a saber, do anseio do homem pelo ser (suficiência, glória).

Nesta perspectiva, surge no seio da humanidade uma odisséia pela satisfação. São muitos os que pensam, como os mais conhecidos heróis mitológicos, que podem encontrar esta satisfação por suas próprias forças. Desta forma, levando em consideração o "tamanho" da ambição humana; deste ponto em diante aos nos referirmos a satisfação, suficiência ou glória, entenderemos que estas apontaram sempre a Deus - como diria Dostoievski. Com base nisso, chegamos ao âmago de nossa discussão, a saber: Pode o homem encontrar a Deus?

São muitos os que dizem que sim! Que você poder encontar a Deus no final de uma "penitência", por exemplo. Outros dizem que você pode encontar a Deus quando sua mente estiver eminentemente vazia. Outros ainda que você precisa tão somente "abrir" o coração. E os argumentos se multiplicam aos borbotões. A meu ver, temos aqui um bom exemplo da velha maneira grega de conceber a relação do homem com Deus, a qual é deveras simples, encontre-o!

Entretanto, creio veementemente que as coisas não são tão simples. Primeiro, não existem vários deuses, como se concebe até os dias de hoje, mas, apenas um - O Deus Todo Poderoso, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, nosso Redentor. Segundo, mesmo que fosse possível divisá-lo (pois é Espírito), onde encontrá-lo? Após o Aqueronte? No coração de algum dragão? No fundo de alguma lagoa mágia ou no degustar de alguma bebida xamântica? Onde? Temos, então, dois grandes problemas, os maiores problemas da humanidade. Os quais seriam: a total dependência de um Deus intangível (humanamente falando), e a total falta de um instrumento que nos conduzisse a Ele. Explico.

Quando assevero nossa total dependência, falo no que tange a auto-suficiência de Deus. Dizer que Ele é auto-suficiente é o mesmo que pensar em termos absolutos - Ele não precisa de nós para ser Deus. Logo, nós precisamos deseperadamente d'Ele para sermos, pelo menos, servos. Ato contínuo, sendo Deus absoluto - estando muito bem servido de si - e resgatando a doutrina fulcral do "Pecado Original", que nos separa inexoravelmente de seu Ser perfeito, amealhado a premissa que pelo pecado Deus se encontra "irado" com a humanidade e necessita, em sua santidade, de algo que aplaque esta ira, eu pergunto: O que oferecer a Deus? Melhor, como chegar até Ele para oferecer-lhe algo? Mais, sendo Ele perfeito, onde encontar perfeição numa terra completamente depravada (pecado original), para, a partir daí, oferecer-lhe?

Leitor, nós não tínhamos forças e muito menos meios. Estávamos de "mãos", literalmente, atadas. 
Só havendo, portanto, uma solução: Por não podermos encontrar a Deus, teríamos que ser encontrados por Ele. Logo, pasme, foi o que ocorreu!

Em nossa luta tosca (como cegos espirituais procurando um caminho espiritual) por satifação (Deus), mais parecíamos "ovelhas que não possuíam pastor" (Mc 6.34) cada um de nós se "desviava por seus próprios caminhos" (Is 53.6). Era uma visão lastimósa, muito triste. Então "Deus - a revelia do percebido nas mitologias - sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos (o que prova a falta de forças e meios) em nossos delitos (pecado original), nos deu vida juntamente com Cristo, - pela graça sois salvos (Ef 2.4-5). Deus parte em nossa direção, se compadesse de nós, "nos ama primeiro", e de uma maneira extritamente sobrenatural "cancela o escrito de dívida, que era contra nós e que constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removendo-o inteiramente, encravando-o na cruz" (Cl 2.14). Ele, serve como autoridade em si e resolve o primeiro de nossos problemas (falta de forças) utilizando um meio que jamais nos serviria - a cruz, resolvendo, assim, o segundo de nossos problemas (a falta de meios).

Em seu eterno propósito, Deus, finalmente, nos encontra!

Finalmente, acredito que o homem jamais encontrará, por tudo que foi asseverado, a "satisfação" que busca, por suas próprias forças - porque o homem está morto (sem forças e sem meios para isso). Ele precisa de algo que lhe manifeste e supra esta sensação de vázio, algo que finalmente o faça descansar. Esse algo, Deus.

Mas, você pode não concordar com nada do que eu falei, e pode deliberadamente continuar sua jornada por satisfação. Creio que você pode estar sentindo o mesmo vazio sentido por Dostoievski, que disse, "Dentro de casa ser humano existe um vazio do tamanho de Deus". Então, sabendo agora o que tens que procurar, BOA SORTE!

sábado, 21 de maio de 2011

AMAZING GRACE


Esta música, escrita por um dos mais piedosos ministros do evangelho de que tenho ciência, John Nilton, é uma das mais belas declarações de amor que um homem poderia oferecer a Deus. Sei que o meu Senhor é digno de muito mais, entretanto, não tenho como não me orgulhar de ouvir tão dileto pensamento, fruto de tão "surpreendente graça"!.

A música, bem como a história que emerge de seu pano de fundo "Jornada pela Graça", pode ser assistida em português num filme que trás o mesmo nome. Trata-se da história de William Wilberforce (Ioan Gruffudd), brilhante cristão e emérito abolicionista britânico. O filme, um clássico regado a perseverança e fé, trata-se de uma daquelas histórias capazes de mudar o mundo, como mudou!

Fico devendo algo sobre o Rev John e sobre seu grande amigo William Wilberforce, os quais deveras admiro. Por hora, compartilho a letra da música (tradução livre) e um dos mais belos vídeos que já tive o prazer de ver.

AMAZING GRACE (Tradução Livre, Graça Maravilhosa)

Graça magnífica, tão doce o som
Que salvou um naufrago como eu
Uma vez eu estava perdido, mas agora fui encontrado
Estava cego, mas agora eu vejo

Foi a graça que ensinou o meu coração a temer
E a graça alivou os meus medos
Tão preciosamente apareceu aquela graça
Acreditei no primeiro momento

Graça magnífica, tão doce o som
Que salvou um naufrago como eu
Uma vez eu estava perdido, mas agora fui encontrado
Estava cego, mas agora eu vejo

quarta-feira, 18 de maio de 2011

RESSOCIALIZE

O BICHO

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.



O bicho, meu Deus, era um homem.


Não me deterei em elogios a peculiar percepção de Bandeira porque tenho falado sobre ele há algum tempo nesse espaço - Se bem que é pacífico a todos o apreço que tenho por este corifeu do pensamento modernista brasileiro. Entrementes, levando em consideração a poesia que, grosso modo, é um de meus mais diletos prazeres, confesso, a revelia do que caracteriza o homem médio que; imiscuído em minhas leituras (das mais variadas) e, acima de tudo, em minha vida devocional com Deus, encontro um conforto que dificilmente poderia definir em palavras. Conforto esse que sobrepuja qualquer prazer hodierno.

Desta forma, se estivesse em mim escolher - e graças a Deus que não está - com certeza não sairia de meu escritório. Continuaria por horas a fio naquela comunhão íntima com Deus e, como de costume, me deleitando nas páginas que demoradamente ouso virar sempre que posso.

Não me culpo por isso, essa era a vida que muitos de meus referencias queriam para si, vide Lutero, Calvino, Edwards e outros. O fato é que o conhecimento de Deus e toda a sua ternura que emerge dos escritos dos seus servos, deixam qualquer dos mortais inexoravelmente absorto.

No entanto, se consseguíssemos sorte neste mister, seríamos, preponderantemente, os mais mesquinhos de todos os homens. Isto porque roubaríamos esta mesma alegria - que flui de Deus - dos demais seres humanos. Algo que com certeza Ele jamais permitiria. Assim, plenamente convencido desta verdade, a qual é o âmago do evangelho, tenho lutado contra meus próprios interesses e tenho tentado viver não para mim mesmo, mas para a Glória d'Ele (Gl 5.20).

Destarte, resolvi me dedicar academicamente a maneiras plausíveis de comunicar estas "Boas Novas de grande alegria" de maneira que todos pudessem compreende-la, não importando o contexto em que se encontrassem. Me entreguei completamente a esta causa e mergulhei, tanto quanto pude, nas literaturas que me ajudassem neste sentido.

Ato contínuo, sempre sob a égide de que precisava comunicar o "Reino de Deus conforme o Evangelho de Cristo" (integralmente), e amalgamando esta premissa a paixão que nutro pela antropologia e pela fenomenologia, parti numa viagem maravilhosa pelo campo apaixonante da contextualização, me dedicando, quase que exclusivamente, a culturas alheias e a perspectivas mitológicas. E isto por um tempo considerável.

Ademais, não penso ter errado, absolutamente. Entretanto, creio que amealhado a esta paixão por fenômenos e histórias épicas, eu poderia ter apinçado um pouco da cultura e do momento histórico que me cerca. Digo isto, porque mesmo envolvido em projetos de cunho social e sendo um dos defensores do adimplamento da missão integral no contexto local, me vi surpreendido com o fato de que a realidade que hora vivo, em certa medida, suplanta as dificuldades de muitas das narrativas que aprendi a amar.

Meu ponto é que a reflexão teológica e/ou missiológica, deve ser regada a horizontalidade. Não a teórica, a qual estou acostumado, mas a prática. Sem querer me esconder sobre um verniz de "bom samaritano", me encontro numa espécie de contraproducência no que tange a relação: produção teórica x resposta prática. Talvez, alguém mais próximo de mim, pense ser esta reflexão um tanto dura, contudo, temo que mesmo numa jornada singela, iniciada a muito tempo, não tenha saído ainda de minha "zona de conforto".

Desta forma, resolvi - para usar um termo de Edwards - aplainar verticalidade e horizontalidade, não porduzir uma em detrimento da outra. Resolvi ser "relevante" de fato, como creio serem relevantes as pessoas que buscam esta postura. Quero produzir uma teologia ortodoxa que tenha o aroma de minha geração, a originalidade que requer o momento. Tal postura sempre esteve em meu coração, e, de fato, eu pensava vivê-la, mas, se a vivi, não foi com a intesidade com a qual quero ser lembrado.

Portanto, enquanto estiver em mim, quero me instrumentalizar na ambição de produzir e/ou executar uma teologia que dirima a quantidade de "bichos" a semelhança do percebido por Bandeira no texto supra. Quero ser uma resposta "real" a necessidade aguda de uma sociedade materialista que não sabe a diferença entre dignidade e miserabilidade, ou que se sabe, simplesmente não se importa.

Quero lutar para não sentir esta mesma morbidez da próxima vez que vir uma foto como a que estampa este texto. Quero ser de fato sal e luz. Quero ser uma resposta. Quero ser relevante. Quero contribuir com tudo o que sou para o fim de tanto sofrimento.

Oh Senhor! Ajuda-me, ele não é um bicho, é um homem!!! Que mundo é esse? 

 

domingo, 15 de maio de 2011

O CÍRCULO DE ERANOS

O Círculo de Eranos é um marco na história do pensamento humano no que tange a produção científica de textos fenomenológicos e antropológicos. Este seleto grupo de eméritos pesquisadores das áreas da ciência da religião, psicologia, história da religião, mitologia e fenomenologia; se reunia num dos mais aprazíveis cenários mundiais, o Lago Maggiore, em Ascona, Suiça.

O círculo teve seu gérmem através da paixão quee Olga Froebe-Kapteyn (1881-1962), grande erudita de ascendência inglesa, nutria pela manifestação do sagrado e consequentemente por seu estudo. A primeira reunião ocorreu num momento de crasso anacronismo político no cenário mundial. Não obstante uma série de avanços nas áreas das ciencias humanas, a sociedade amargava um período de intensa inconsistência bélica, a saber, o nacionalismo facista e o marxismo comunista. Foi neste clima funesto de intrigas políticas que em 1933 o círculo se reuniu pela primeira vez.

A palavra "eranos", de origem grega, significa "comida em comum". A própria etimologia da palavra aponta para o motivo de tão conspícua reunião, quiçá, uma reflexão pungente no campo dos conflitos ideológicos que grassavam a sociedade de então. Ademais, o pano de fundo teórico também não dispensava o arquétipo supracultural que a hermeneutica de então trazia a tona, fruto da discussão que emergia dos citados campos de estudo que emblemavam os componentes do círculo.

Destarte, o círculo também tinha como meta a aproximação epistemológica dos vários ramos do estudo do sagrado, fato que legitimava o símbolo escolhido por seus componentes, a saber, o deus pagão Hermes, o qual significa a conjunção de caminhos opostos. Tal conjunção de caminhos ambicionava a manifestação de um sentido para as irrupções arquétipas por meio de uma hermeneutica simbólica. Sendo esta a principal atuação do círculo.

Após 1933, as reuniões cotinuaram a acontecer uma vez por ano sempre no mês de Agosto e perduraram por, pelo menos; 70 anos, quando vieram a se extinguir. A cada ano um novo tema era proposto e cada participante tinha oportunidade de se manifestar e expor suas idéias, contribuindo, desta forma, para o "banquete de idéias".

O Círculo de Eranos é seguramente o mais notável dos grupos que já surgiu nestes moldes, a revelia de meu interesse pelo tema, tenho neste seleto grupo boa parte de meus teóricos favoritos, e, não obstante o fato deles estarem sendo lembrados neste texto in memorian, ressalto a relevância que cada um deles, em seus respectivos campos de pesquisa, trouxeram para o desenvolvimento da humanidade em geral.

O Círculo de Eranos, com mais algumas peças (que infelizmente não foram contemporaneas dos fatos), seria, a meu ver, uma espécie real do que chamaria de "Banquete".

O grupo original era formado por:
Henry Corbin,
Mircea Eliade,
Gilbert Durand,
Joseph Campbell,
Haya Kawai,
Karl Kerenyi,
Laurens Van Der Post,
Gershom Sholer,
D. T. Suzuki,
Victor Zukerkandl,
Heinrich Zimmer.

Fontes:

Revista Anthropos, nº 154.

Enciclopédia Livre,

www.adepac.org

sexta-feira, 13 de maio de 2011

MINHAS IMPRESSÕES SOBRE JOSEPH CAMPBELL, E O PODER DO MITO

Sendo uma das maiores autoridades do mundo em mitologia, Joseph Campbell nos legou um exemplo insofismável de que mente e coração podem, perfeitamente, andarem juntos. Novaiorquino de nascimento (1904), Campbell cresceu numa cidade interiorana e teve acesso a todas as benesses oriundas do poder aquisitivo da então emergente classe média. Desde tenra idade, o frágil Campbell sempre se mostrou suscetível a história e ao conhecimento popular de sua época, se interessando por contos folclóricos e, sobretudo, pela história dos índios que antecederam os primeiros ingleses a aportar no "Novo Mundo".

A partir de então, o mito e todas as suas implicações se amalgamaram de maneira tão pungente a vida do jovem Campbell que, não mais o deixaram até o dia de sua morte (1987). Para ele, mitologia não era um tatalar de histórias fictícias e incongruentes, não era a apelação objetiva de uma "ciência" emergente e, até então, aparentemente sem objeto, mas, o descobrir de uma "épica aventura".

Para Campbell, mitos deveriam ser estudados por pessoas apaixonadas e altruítas, pessoas que tivessem sensibilidade para sentir a brisa que emanava do Egeu durante as viagens de Odisseu, que sentíssem o respirar ofegante de Hércules em meio a seus exóticos "trabalhos", que perdessem o fôlego na fúria de Posseidon, que sentíssem o cheiro das matas intocadas dos muitos mitos nativos dos índios espalhados pelas américas, que preferissem sede excruciante a se dobrar ao Ente, que se deleitassem nas doces águas de Emnemosine, e que jamais perdessem o gosto por uma nova aventura [...]. Esse, em minha humilde opinião, seria, na perspectiva de Joseph Campbell, o perfil de alguém que gostasse de mitologia.

Destarte, em seu opúsculo "O Herói de Mil Faces", Campbell nos conduz aos sonhos que jazem nas mentes daqueles que se recusam a perder de vista a natureza lúdica da vida. Daqueles que insistem em não se render perante o secularismo ceticista que impimge nas mentes de nossos jovens a equivocada idéia de que mito e falácia são sinônimos. Nas páginas deste ditoso livro ovacionado pelo campo da fenomenologia, é possivle se ouvir um grito latente que se manifesta nos dizeres: "Fora com um pensamento assim tão pobre de espírito; tão vazio de vida". Não obstante serem os mitos, culturalmente falando, os balizadores do desenvolvimento social de todas as culturas hodiernas.

Ademais, falar de mito para Campbell era falar de vocação, dizia ele:

 "Vá em frente, viva a sua vida, é uma boa vida - Você não precisa de mitologia. Acredito que se possa ter interesse por um assunto só porque alguém diz que isso é importante. Acredito sem ser capturado pelo assunto, de uma maneira ou de outra. Mas, você poderá descobrir que, com uma introdução apropriada, o mito é capaz de capturá-lo. E então, o que ele poderá fazer por você, caso o capture de fato?"

 Resposta, melhorará a sua vida! Lhe dará novos óculos para ver o mundo! Este é o poder do mito.


Não obstante, amiúde a idéia de "história fictícia" a que estamos acostumados e, corroborando a posição de Campbell, Mircea Eliade (1907-1986), acredita que o mito precisa ser estudado como uma "verdade". Não a sua verdade necessariamente, ou mesmo a verdade de sua cultura, mas, sobretudo, uma verdade que você precisa alcançar, compreender e respeitar. Opino que este posicionamento de Eliade, em pleno despertar do pensamento contextualizado do século XX, revolucionou a academia.

Ato contínuo, analisando conjuntamente as perspectivas destes diletos autores, percebo um "divisor de águas" no campo da contextualização bíblica. É indubitável a mudança de foco que estes argumentos produzem em nosso entendimento de comunicação cultural. Neste íterim, o missionário (comunicador) deixa de ser um espécie de destruidor cultural das sociedades que deseja alcançar, e passa a ser um estudioso de verdades que, se bem aplicadas, produziram uma ponte sólida para que o evangelho possa transformar sem, necessariamente, mutilar. Nas palavras de Campbell, "mitos são pistas para as potencialidades espirituais da vida humana". 

A bem da verdade, é cedo para percebermos porosamente as mudanças que tenho objetado. Entretanto, o momento é alvissareiro. 

Finalmente, num mundo em que os novos heróis estão morrendo de inanição, que fique claro a todos as culturas a laboriosa contribuição de Joseph Campbell ao estudo do homem e suas implicações culturais e metafísicas. São pessoas da estirpe de Campbell, que nos asseguram que a beleza dos contos jamais se perderão, enquanto jovens idealistas houver. Eu creio em heróis! 


Enciclopédia Livre
O Poder do Mito, Joseph Campbell
O Herói de Mil Faces, Joseph Campbell