quarta-feira, 17 de março de 2010

PERSPECTIVAS DO CULTO AFRO-BRASILEIRO


Não é nosso interesse comentar toda riqueza cultural do culto Afro-Brasileiro, uma vez que, seria praticamente impossível. Mas, como temos recebido dicas para escrever sobre o assunto, resolvemos tratar de pelo menos uma única “nação tribal”, por entendermos, que é a etnia que mais contribuiu, dentre as várias que se somaram, para formação do culto afro tal como o conhecemos nos dias de hoje. Por causa de sua imensidão e tendo em vista a pobre divisão do continente africano baseada (apenas no papel) em “raças” e “áreas culturais”, as quais são deveras insuficientes (como os conflitos tem demonstrado), achamos por bem nos determos numa única região geopolítica, a chamada África Ocidental, e nesta, trataremos do maior tronco tribal do continente, os Yorubas. Foram justamente os Yorubas que mais contribuíram, tendo em vista suas características, para formação do rito afro-brasileiro como o temos hoje.

Os cultos de origem afro surgiram no Brasil por volta de 1850. As origens federativas destes cultos são diversas, não se podendo detectar tamanha profusão sincrética. Para os historiadores da religião, este apêndice não possui maiores relevâncias, uma vez que, independentemente de seus países de origem, tais cultos apresentam em sua multiformidade nuances autenticamente “africanas”, as quais variam desde as exóticas possessões pelos orixás até as famosas danças extáticas dos terreiros. Por causa de tamanha elasticidade cultural, a cada nova região política, levando-se em consideração as proporções continentais que compreendem o Brasil, o culto afro recebe uma nomenclatura diferente. No Nordeste, por exemplo, o culto é chamado de Candomblé. Este rito tem por base a anima (alma) da natureza, sendo portanto chamada de anímica, fora desenvolvida no Brasil com o conhecimento dos sacerdotes africanos que foram escravizados e trazidos da África para o Brasil, juntamente com seus Orixás, sua cultura, e seu idioma. No Sudeste temos a Macumba. E por fim, sendo a mais popular, a Umbanda oriunda do Rio de Janeiro, a partir de meados de 1925 á 1930.

Estas práticas religiosas, a princípio veementemente proibidas no Brasil, hoje representam uma fatia considerável da vida religiosa do nosso povo. Isso se deve principalmente ao fato de que com a abolição dos escravos, os negros (seres humanos duramente humilhados pelo seu semelhante) obtiveram uma maior liberdade (há controvérsias) para aperfeiçoarem a adoração laica que até então era peremptoriamente secreta (esta oriunda de seus respectivos países de origem), tendo em vista a iminência de possíveis (sempre presentes) maus-tratos por parte de seus “senhores cristãos”. Por causa desta pseudo-liberade a proliferação do culto-afro ganhou as raias do país há uma velocidade vertiginosa e em menos de um século já despontava fulgurante como uma das religiões que mais cresciam nas terras de Santa Cruz. Some-se a isso, o fato da religião ter se tornado semi-independente em regiões diferentes do país. Esta parcela de liberade foi fundamental para o fortalecimento étnico do culto-afro, uma vez que, os escravizados do Brasil pertenciam a diversos grupos étnicos diferentes, como os yoruba, os ewe, os fon, e os bantu. Entre esses grupos étnicos diferentes evoluíram diversas "divisões" ou nações, as quais se distinguiam entre si principalmente pelo conjunto de divindades veneradas. Fato que não só multiplicou a presença afro no Brasil, como também contribuiu indelevelmente para disseminação de sua cultura religiosa, se bem que, em algumas regiões (tendo em vista as distâncias), com características bastante diferentes, todavia, não deixando de serem siamesas culturalmente.

Étnicamente um grupo em especial se destacou quando da proliferação do culto-afro no Brasil, o grupo dos yorubas. Foram estes que mais contribuiram para a religião em destaque (afro-brasileira) conforme a conhecemos. O rito dos yorubas entre os africanos é provavelmente o que possui maior número de adeptos (cerca de 15 milhões). Dai um dos motivos para sua épica propagação no Brasil (a quantidade de seguidores). Uma vez conhecedores do grupo étnico que mais contribui para propagação deste rito, passaremos, então, ao estudo de suas práticas, pois, elas nos esclareceram o desenrolar destes ritos. Segundo Mircea Eliade, ainda neste século, a coletividade yoruba era dominada por uma confraria secreta que nomeava o mais alto representante do poder público, “o rei”. Antes de sua nomeação, o rei de nada sabia, pois não era membro da confraria dos Ogbonis.

Ainda segundo Eliade, particiapr deste círculo fechado (confraria) significava falar uma língua inteligível aos profanos e praticar formas de arte hierática e monumental inacessíveis aos demais yorubas. O culto dos yorubas até hoje continua um mistério. Sabe-se, porém, que no centro encontra-se Onila, deusa mãe do ile, que é o “mundo no estado caótico”, antes de organiza-se. O ile opõe-se, por um lado, ao orum, que é o céu enquanto princípio organizado, e, por outro, ao aye o mundo habitado proveniente da ação do orum no ile. Enquanto todos conhecem os aspectos assumidos pelos habitantes do orum, dos orixás que são objeto de cultos exotéricos, e do deus otiosus Olorum, que não é cultuado, a presença do ile na vida dos yorubas é sempre misteriosa e carregada do inquietante subterfúgio da ambivalência feminina. Desta ambiguidade temos, a princípio a deusa Yemanjá que é fecundada pelo próprio filho Orungã, e cujos produtos do incesto constituem grande número de deuses e espíritos. Yemanjá é a mestra das feiticeiras yorubas, que a tomaram por modelo dado o desenrolar excepcional e atormentado de sua vida.

Há ainda uma outra situação, cuja feiticeira chama-se Vênus Yoruba, Oshum, protagonista de todos os divórcios e escândalos. Nesse corolário temos ainda Obatalá, o deus criador para os yorubas, é justamente com ele que Orum enviou para o aiyê o deus dos oráculos, ou seja, a capacidade de se adivinhar, conforme vemos praticamente em todos os ritos afros. Ato contínuo, outro orixá importante nesta cadeia yoruba é o Exu. Este têm por função provocar o riso, e por outro, a trapaça. E por fim, tem-se o padroeiro dos ferreiros yorubas, o deus guerreiro Ogum.

Para os yorubas, ancestrais diretos de boa parte dos ritos afro-brasileiros, na morte do homem as partes componentes do seu corpo retornam para os orixás que as redistribuem pelos “recém-nascidos” (fato que explica a crença das manifestações singulares, “em nome de”). Há, porém, componentes imortais, pois os espíritos podem voltar para terra e tomar posse, conforme sua vontade, de um dançarino Egungum (fato que explica a manifestação de entidades em terreiros e mesas), e estes, têm como função, transmitir as mensagens dos mortos para os vivos.

Uma vez compreendido o aparato histórico, não me deterei nas diversas relações entre a cultura afro e o culto brasileiro. Tão pouco vou procurar pontes culturais para uma possível comunicação. Mas, discorrerei por uma humilde e por hora única perspectiva.

Sendo assim, através desta premissa, temos um vislumbre de como é grande a necessidade espiritual por parte das pessoas que abraçam estas doutrinas, estes ritos. Observe, que para os adeptos destas religiões de reminiscências afro, Obatalá seu deus criador, não itervém de maneira pessoal na vida de seus adoradores (deus otiosus), mas, apenas lhes envia um “espírito de adivinhação” o qual lhes capacita a burlarem as situações difíceis da vida. Enquanto que sua esposa Onila, deusa mãe do caos, da desorganização e do amorfo, que na cultura supra é conhecido como o ile, o mundo em seu estado caótico, luta contra o Orum, o princípio organizado, o céu. E trava batalha também contra o aiyê, o mundo habitado pelos vivos. Desta batalha espiritual concebida desde o topo da pirâmide dos seres espirituais que compõem a cúpula do panteão yoruba, cuja líder é Onila, surge através de incesto, duas peças principais não só na cultura nativa, mas, também na brasileira, em parte fruto desta cultura, são elas Yemanjá e Oshum. A primeira mestra das feiticeiras e a segunda rainha de todos os divórcios e escândalos.

Há! se ao menos nossos queridos irmãos yorubas ouvissem falar a respeito de um Criador Pessoal, Onipotente, Onipresente e Onisciente. Que não se retira de nossas vidas em momento algum, que se compadesse de nossas falhas e angústias e que está conosco todos os dias até que os céus se restaurem. Que diferença enorme faria para nossos corajosos yorubas, se eles soubessem que não existe nenhum tipo de contenda no caráter inabalável deste Deus que é perfeito em tudo que faz. Que nos enviou seu Filho Unigênito não para ser Rei sobre a discóridia, a intriga ou a confusão. Mas, para instaurar um tempo de paz e alegria, fundamentado no mais perfeito de todo os solos, o do coração. Que grande abismo existe entre um caráter inabalável e um declaradamente dúbio? Como pode-se viver nos abismos quando devería-se estar nos píncaros verdejantes?

Há cruciantes questionamentos! Não sois válidos em vós mesmos, porque, se estes fossem esclarecidos outrora, “não precisariam de pau-oco”, e eles mesmos, hoje, seriam preenchidos!

Louvo ao Senhor pelo fato de que mais e mais irmãos afrodescendentes têm descortinado diante de si o triste véu da ignorância espiritual e concorrido para o esclarecimento e libertação dos demais através do Evangelho Supracultural. Concordo com o amado Bispo Nordestino, “Nem toda manifestação cultural africana é tida como demoníaca, ou intressecamente relacionada a macumba. O preconceito etnocêntrico, a ignorância antropológica e a deplorável falta de intercâmbio com as igrejas concorrem para o fortalecimento desse erro de visão”.

A cada dia mais e mais afrodescendentes tornam-se cristãos, todavia, oro para que eles não tornem repugnante sua belíssima cultura, mas que apenas, como todos os demais, façam uma assepsia naquilo que não louva a Deus. Pois, ser cristocêntrico não impede a beleza das roupas, dos gostos, da alegria e da musicalidade. Em meu orgulho inflamado, vou até mais longe, e creio veementemente que se evangelizados por africanos, com certeza, os bombos e atabaques por aqui tocariam para Jesus.

Mas uma vez, citando o amado Bispo, se é estado laico, então, que sejam bem vindos os genuínos e apostólicos “Terreiros de Jesus”.

terça-feira, 2 de março de 2010

A RELEVÂNCIA DO CONTEXTO.


O contexto é importantíssimo para perfeita comunicação do Evangelho, pois, conforme oficializou o Relatório da Reunião de Consulta para Evangelização Mundial, ocorrido em 1978, na Cidade de Somerset Bridge, Bermudas, patrocinado pelo grupo de Teologia e Educação de Lausanne, se retirarmos o homem de seu meio cultural abruptamente, uma ruptura ocorrerá em seu meio social, fato que para os eruditos que elaboraram o relatório seria uma catástrofe, pois, conforme afirmam, homens e mulheres precisam de uma existência unificada. Sua participação em uma cultura é um dos fatores que lhes proporciona pertencer a algo. A cultura da um sentido de segurança, de identidade, de dignidade, de ser parte de um todo maior e de partilhar a vida de gerações anteriores e também das expectativas da sociedade com respeito ao seu próprio futuro. Se privarmos o homem desta experiência prática, nem todo conhecimento do mundo o fará pertencer a algo novamente, pois, segundo uma das mais confiáveis teorias sobre a inteligência humana de que se tem notícia (inteligência multifocal), o conhecimento humano jamais é deletado e reescrito, e sim, reeditado.

Esta premissa aponta para a questão de que não funciona comunicar o “erro” (pecado em nosso caso) a partir da perspectiva cultural do comunicador da mensagem (missionário que se coloca numa posição de superioridade), mas, a partir da cultura do próprio indivíduo (através de parâmetros contextualizados), fato que fará com que o mesmo (nativo), compreenda a dimensão do que está ocorrendo com ele de maneira pertinente e significativa, recebendo, assim, uma mensagem estritamente fundamentada, sem, no entanto, ter que diluí-la para isso. Nesse processo, a ortodoxia é estritamente preservada, nenhum tipo de pressuposto sincrético, ou mesmo liberal, tem parte no processo evangelístico, antes, a sólida teologia apostólica é comunicada axiomáticamente. A contextualização consiste de um compromisso com a perfeita comunicação e não num desapego a genuína evangelização, este preceito, é sempre apodítico.

Com base nisso, um dos textos sagrados que fundamentam muito bem esta premissa é encontrado no Evangelho de João, capítulo 7, versículos de 37 a 44.

Trata-se, resumidamente, da passagem de Jesus em Jerusalém por volta da comemoração de uma das três festas mais importantes para todo judeu, A Festa dos Tabernáculos. Conforme lemos, decorria-se o último dia da festa, deveras, o mais importante, pois, necessariamente neste dia, numa tradição que permeava as raias culturais em tela desde tempos outros, cada cidadão, num cortejo devidamente orquestrado, empunhava ramos de oliveira nas mãos, ao mesmo tempo em que orava por sete vezes ao redor do Altar das Ofertas Queimadas. Todavia, culturalmente falando, o fato que nos chama atenção é que durante os dias que antecediam este em questão, um sacerdote trazia um pouco de água em um vaso de ouro, água esta que, por sua vez, havia sido tirada do Tanque Siloé. Assim, sendo acompanhado pelo cortejo supra, o sacerdote seguia até o Templo, onde, diante do Altar, despejava a água, juntamente com vinho, ao mesmo tempo em que toda cerimônia era regada ao som da Halel (Salmos 113-118).

Para o devoto judeu, esta metódica cerimônia simbolizava, ou melhor, comemorava a provisão de água, fomentada por Deus, quando outrora, a rocha fora ferida por Moisés. Ato contínuo, também tinha como alvo buscar a benesse de Deus em favor de um ano bem servido por chuvas caudalosas, que, providencialmente, contribuiriam para um ano de colheitas fartas.

Ora, não é de admirar que neste contexto um pouco de água detivesse tamanho poder sobe as atenções do povo, pois, em se tratando de reservas hídricas, estamos falando de uma das regiões mais áridas do mundo. Depreende-se, desta nuance geográfica, que a água possuía um valor importantíssimo na vida dos judeus, e que, a simples menção há um ano desprovido sequer de poucos milímetros desta dádiva celeste, fomentava, obviamente, uma altercação no zelo de qualquer destes.

Sabendo disto, conforme percebemos, Jesus, sempre poderoso em palavras, numa profícua demonstração da importância do contexto para comunicação do Evangelho,talvez, procurando uma posição que o destacasse da multidão, gritava : “Se alguém tem sede, venha a mim e beba!”. Que mensagem! Isto sim é o que chamo de comunicar na linguagem do povo! Ora, todo aquele rito girava em torno do aprovisionamento de água, pois, conforme o povo compreedia ela era a "Fonte da Vida". Assim, através desta ponte cultural, Jesus, categoricamente afirmava: Eu Sou a fonte da Vida!

Pertinência, significância, esclarecimento, que mais poderia eu acrescentar a tão breves palavras que até hoje ressoam tão poderosamente. A verdade é que as pessoas procuravam suprir suas necessidades através de uma adoração vazia, pelo viés de uma cerimônia que exalava tradição por seus poros, mas, que não as conduzia ao encontro daquele que controla não só a chuva, mas, o Rio da Vida. Jesus demonstrava ao povo que eles não precisavam se desesperar, rasgar as vestes, chorar as cargas, ao simples fato de um tropeço do sacerdote que, inevitavelmente, derramava um pouco daquela riqueza tão cara e rara em suas debilidades. Ele dizia, em palavras assimiláveis, quem tiver sede, venha a mim e beba! Eu posso, dizia, agora mesmo, lhes transmitir a vida que a água vos transmite, e não apenas isso, mas, lhes proporcionar um advento de vida tal, que de seus ventres, fluirão rios de água da vida (V38).

Perceba, toda aquela multidão, implorando a plenos pulmões, hosana, hosana, hosana, tão somente procurando o auxílio do Deus Todo Poderoso, dizendo: Ó Senhor ajuda-nos! E Jesus, em resposta ao clamor do povo, respondendo de maneira que todo judeu (literalmente, pois, se tratava de santa convocação) lhe compreenderia prontamente, salvíficamente. Pois, em maior medida, a mensagem de Cristo lhes impulsionava não apenas a um novo direcionamento hídrico, mas, sobretudo, a uma novidade de vida que extrapolava a da simples água mineral, e saciava-os pela espiritual.

A profusão de um único rio talvez já bastasse, entretanto, Ele usa rios (plural), o que subtende o abastecer não só de uma única vida em especial, mas, de quem estiver disposto a recebê-lo.

Logicamente, conforme citado no verso (39), Jesus falava-lhes simbolicamente em referência ao Espírito Santo que haveria de receber todo aquele que n’Ele cresse. Mas, que não poderia ainda ser concedido, uma vez que, o próprio Jesus ainda não tinha sido glorificado, fato que inegavelmente apontava para o “derramar” do Espírito Santo, que ocorrera, posteriormente, no Pentecostes. O fato, é que este derramar, outrora prometido, hoje, é uma realidade “perene”, e disponível a todo aquele que, com sede, luta por suprir a cruciante necessidade da manutenção da vida, e esta, física e espiritual.

Hodiernamente, conforme bem dizia Dostoievski, as pessoas estão sim preocupadas em suprir suas necessidades, todavia, a semelhança dos antigos judeus, através de práticas que jamais conseguirão, pois, nas palavras do célebre escritor russo:

DENTRO DE CADA HOMEM EXSITE UM VAZIO DO TAMANHO DE DEUS.

Enfim, o que jesus estava procurando dizer era:

Preencha-se!

domingo, 7 de fevereiro de 2010

OBELISCOS, APENAS ARTE?


Símbolo de beleza e ostentação, ou apenas uma cicatriz no rosto de algumas cidades? Essas são algumas das perguntas que elaboramos ao contemplarmos os famosos Obeliscos.

Do latim obeliscus, trata-se de um monumento comemorativo, típico do Antigo Egito (ou da Babilônia?), constituído de um pilar de pedra em forma quadrangular alongada e sutil, que se afunila ligeiramente em direção a sua parte mais alta, podendo (ou não) ser decorado com inscrições hieroglíficas gravadas nos quatro lados, terminando com um ponto piramidal (fálico).

Os mais antigos obeliscos eram feitos a partir de apenas uma única peça de pedra monólitos. Todavia, tem-se relatos de outras culturas que mesmo separadas por dezenas de quilometros dos egipcios (como os povos do oriente com seus zigurates), também tinham como costume a prática de se construir tais “monumentos”. Entretanto, devido as diferenças históricas no decurso do desenvolvimento de cada cultura, essas peças, embora possuissem o mesmo objetivo (para uns um meio para o céu, para outros um observatório), não eram elaboradas a quiescência egipcia. O que se percebe, é que mesmo diferindo uns dos outros no que diz respeito ao material de que foram produzidos, tais elevações influênciaram indelevelmente as cultras a que pertenceram. Mas, porque? É está pergunta que vamos procurar responder.

In Ilo tempore, fixar uma Cruz num território conquistado equivalia a consagração da região (abordagem a partir da história da religião), e de certo modo, a um novo nascimento, pois, com esta atitude, a terra conquistada recentemente era “renovada”, “recriada” pela Cruz (fenomenologicamente). Este processo religioso encerrava em si um Ato Cosmológico, uma vez que, o sagrado possui a característica de revelar a realidade absoluta e ao mesmo tempo, torna possível a orientação – portanto, funda o mundo, no sentido de que fixa os limites e, assim, estabelece a ordem cósmica. Todo local que ainda se encontra desconhecido, estrangeiro, ou desocupado (muitas vezes desocupado por “um dos nossos”) ainda encontra-se no caos.

É justamente a premissa de solucionar a instauração do caos que funda o mundo, o surgimento do espaço organizado, Cosmos, implica sempre uma irrupção do sagrado que tem como resultado dastacar um território do meio amorfo que o envole e o torna qualitativamente diferente. É a presença do sagrado que traz pertinência a existência e transforma o Caos em Cosmos.

Geralmente, o espaço habitado que hoje é ocupado por boa parte das culturas ao redor do mundo, foi instaurado num tempo mítico, pelos ancestrais de cada povo respectivamente. Desta forma (conforme as tradiçoções), para se manter na presença sagrada que foi instituida por este ancestral e que delimita o limiar entre o espaço sagrado (ocupado pelo povo) e o profano (onde ainda impera o caos) é necessário algo que delimite exatamente esta esfera de atuação, e que faça uma plena distinção (limiar) entre o mundo fundado e o desorganizado.

Estar no local exato é vital para manutenção da vida, pois, uma vez perdido o contato com o mundo criado, perde-se também o contato com o deus protetor, o que acarretaria (espiritualmente/culturalmente dependendo-se da crença) o fim do mundo. Cada hierofania representa o centro do mundo ontologicamente, assim, perder-se deste território acarretaria, portanto, uma total falta de orientação, o ressurgimento do caos, da relatividade e do amorfo. Com a perda do “Ponto Fixo” absoluto, o homem deixaria de viver no “Centro do Mundo”, onde deus habita e assim estaria sozinho.

Para impedir que tal desgraça aconteça (para estas culturas), é que entra em cena o Obelisco. Pois, ele possui a finalidade de funcionar como o limiar (ponto-base), é ele quem demarca o local e propcia a continuidade do espaço, pois tudo o que está a sua volta torna-se consagrado, daí sua grande importancia religiosa, pois, ele é o simbolo e ao mesmo tempo o veículo de passagem para o mundo dos deuses. Para os povos destas culturas, é o obelisco quem propicia o contato entre os homens e o céu.

Esta característica cultural fica bastante clara quando se avalia circunspecticamente seus povos. Por exemplo, observando-se as tradiçoes dos Achilpa, uma tribo Arunta, percebemos que o ser divino Numbakula (seu ancestral mítico), cosmizou nos tempos míticos as terras por eles acupadas e fundou, com este rito, o seus territórios. Os Arunta acreditam que de uma “árvore da goma”, Numbakula moldou o poste sagrado (espécie de Obelísco de madeira), e despois de tê-lo ungido com sangue, trepou nele e desapareceu no céu. Desde então, este poste representa o eixo cósmico que delimita o espaço dos Achilpa, pois, foi à volta dele que o território se tornou habitável. Por causa disso, durante suas peregrinações, os Achilpa transportam-no sempre consigo e escolhem a direçõa que devem seguir em suas peregrinações de acordo com a inclinação do poste. Isto permite que os Achilpa estejam sempre no “seu mundo” e, ao mesmo tempo, em comunicação com o céu, onde Numbakula desapareceu. Se o poste se quebra, é uma catastrofe, é de certa forma, o “fim do mundo”.

Para os Kwakiutl, seu “Poste de Cobre” atravessa os três níveis cósmicos (o mundo de baixo, a terra, e o céu), no ponto onde o poste toca o céu, encontra-se a porta do mundo do alto. O Axis mundi que se vê no céu (Via Láctea), torna-se presente na vida (culto) do povo, pela obra dos deuses na forma de um “poste sagrado”. Na cultura Kwakiutl, este monumento é composto por um tronco de cedro de dez a doze metros de comprimento. Esse pilar desempenha um papel capital nas cerimônias, pois, para este povo, é ele que confere uma estrutura cósmica ao rito (casa). A casa dos Kwakiutl, pela intervenção cultual do poste, torna-se o centro do mundo.

Depreende-se, através deste breve esplanação, que para estas culturas os três níveis cósmicos (inferno, terra e céu) interagem através desta “Coluna Universal”, Axis Mundi, que sustenta o Céu e a Terra, e cuja base se encontra cravada no mundo de baixo, inferos. Esta coluna cósmica só pode situar-se no próprio centro do universo, pois a totalidade do mundo habitável espalha-se a volta dela. É a presença do Obelísco (poste sagrado) que organiza o espaço a sua volta e define o comportamente religioso destes povos. Perceba, que é este ínfimo objeto que culturalmente faz a ligação (simbolicamente) entre o homem (nativo) e o seu deus (mítico). Oxalá, eles ao menos ouvissem a respeito do Verdadeiro Caminho, expressado pela mais poderosa Verdade que inevitavelmente produz a mais abundante Vida. Mas, como ouvirão se não há quem pregue? Enfim...

Deixando o contexto cultural de lado, uma vez compreendido insofismavelmente a forma como estes objetos são edificados, é de causar um imenso pesar o fato de se refletir a cerca de culturas tão piedosas, que procuram incesantemente uma solução para o caos em que vivem, e que se “contentam” (por falta de alternativas?)em habitar uma área pseudo-santificada por um poste-monumento, quando na realidade, eles ainda não sabem de onde vieram, onde estão, e nem para onde vão. Como podem viver assim a deriva?

Acredito que é tempo de saltarmos no meio destes povos, vestes rasgadas, gritando a plenos pulmões:

Varões, por que fazeis essas coisas? Nós, também, somos homens como vós, sujeitos às mesmas paixões, e vos anunciamos que vos convertais dessas vaidades, ao Deus vivo, que fez o céu, e a terra, e o mar, e tudo quanto há neles;
O qual, nos tempos passados, deixou andar todas as gentes em seus próprios caminhos.
E, contudo, não se deixou a si mesmo sem testemunho, beneficiando-vos lá do céu, dando-vos chuvas e tempos frutíferos, enchendo de mantimento e de alegria os vossos corações.

Trazendo em fim a verdadeira“Solução para o Caos!

Mas, para alguns, obeliscos continuaram sendo apenas arte...

sábado, 23 de janeiro de 2010

A IMPORTÂNCIA DO CONHECIMENTO CULTURAL.


Para fundamentar nossa premissa de que para que haja uma perfeita comunicação intercultural é preciso que haja conhecimento cultural prévio, tomaremos como base a inesquecível abordagem do Apóstolo Paulo à intrigante cidade de Atenas.

Culturalmente falando a “Fina Flor do Velho Mundo” sempre esteve um passo a frente das demais. Segundo Bruce, as esculturas, a literatura e a oratória de Atenas nos séculos quinto a quarto a.C. nunca foram superadas; na filosofia, ela sempre ocupara lugar de liderança, pois era a cidade de origem de Sócrates e Platão e adotiva de Aristóteles, Epicuro e Zenom. Sua influência cultural também pode ser facilmente percebida na era helenista, pois foi o dialeto ático do grego, falado a princípio apenas em uma região muito restrita, em comparação com o jônico e o dórico, a base principal do koine.

Em se tratando de religião, Atenas era uma cidade idólatra. Em toda parte havia sinais de idolatria. Numa única rua podiam-se encontrar os templos de Atena, Artêmis e Afrodite. Ao lado deles havia altares dedicados à guerra, fama, piedade e modéstia. Segundo Ball, “em toda cidade havia três mil estátuas e altares onde os atenienses ofereciam sua adoração vazia”. Lucas conta que Paulo via os templos, altares e imagens de Atenas com os olhos de alguém que foi criado no espírito do monoteísmo judaico e do princípio de não fazer imagens, do segundo mandamento do decálogo. Ou seja, com o coração ávido por uma grande mudança.

Por causa de tamanha idolatria e do enorme número de deuses, não faltavam cidadãos atenienses ao pé da Acrópole, na ágora, trocando as últimas notícias, ou esperando que novos comunicadores aparecessem para discutir com eles a natureza do ser divino. Segundo Bruce, “alguns deles professavam ser adeptos das escolas de filosofia dos estóicos ou dos epicureus”. Quando estes comunicadores apareciam e se destacavam em sua eloqüência (caso de Paulo), eles eram convidados a se expressar no Areópago. Acredita-se que as circunstâncias que norteavam o dia a dia do Areópago eram semelhantes à de um Tribunal. Assim, pelo fato de Paulo estar recomendando os cidadãos atenienses a divindades estrangeiras, digamos que ele se colocava sob a jurisdição do “Tribunal do Areópago”.

Paulo entendia a importância do momento que vivia, e sabia exatamente a responsabilidade de pregar num lugar que expressava tamanha importância e que remontava enorme eloqüência e sabedoria. Mas, ele não podia ficar calado mediante tamanha afronta ao Deus Vivo.

Segundo Richardson, a idolatria, por sua própria natureza, possui um fator inflacionário embutido. Uma vez que os homens rejeitem o Deus Único, onisciente, onipotente e onipresente, preferindo divindades menores, eles finalmente descobrem – para sua frustração – que um número infinito de divindades inferiores é necessário para preencher o espaço deixado pelo Deus verdadeiro.

Essa, na visão do apóstolo, era a resposta para o enorme panteão que lotava a “Capital da Democracia” e o motivo pelo qual ele se colocaria à frente de homens culturalmente avançados para expor sua maravilhosa mensagem, mesmo que estes, em seu histórico tribunal, o ultrajassem.

Percebe-se, pela autoridade dos eruditos que avaliavam as mensagens no Areópago, que Atenas era a cidade mais desenvolvida da Europa, no que diz respeito à filosofia, democracia, artes e retórica. Todavia, no que tange a religião, Atenas estava mergulhada num contexto idólatra, o que a transformava numa cidade espiritualmente néscia, fato que a conduzia a uma adoração vazia. Em Atenas, os “deuses” que eram reverenciados em nada somavam ao cotidiano das pessoas, uma vez que, por causa de tamanha quantidade, os mesmos eram inevitavelmente impessoais (mesmo porque não eram divinos). Mensagens que se diziam “metafísicas” eram assunto de esquina na Atenas daquela época, por isso, praticamente todos os habitantes tinham algo a dizer a respeito de uma enorme variedade de deuses diferentes.

Foi neste contexto sincrético e pagão que o “Apóstolo aos Gentios” se propôs a pregar a única mensagem verdadeiramente investida de autoridade divina. Mas, como comunicá-la de maneira singular? Como torná-la diferente no que diz respeito à divindade? Como diferenciá-la da grande quantidade de mensagens espiritualmente vazias que eram pregadas a todos os momentos? A forma que Paulo encontrou para comunicar a mensagem atendendo a cada uma destas prerrogativas foi fazê-la de maneira contextualizada.

Mas, onde encontrar uma ponte, um “abre olhos”, para que os atenienses compreendessem em parâmetros culturais locais o que ele estaria dizendo? De que forma ele explicaria sua mensagem sem utilizar termos contaminados pelo sincretismo que grassavam aquela cidade? Para isso, Paulo tinha que conhecer muito bem a cultura ateniense. Tinha que compreender o vocabulário utilizado pelo povo e quais as suas raízes históricas e etimológicas. Ou seja, para que Paulo tivesse plenas condições de comunicar a mensagem de maneira pertinente e significativa, transmitindo todos os valores do Reino de Deus, sem, no entanto, diluir a mensagem para compreensão dos atenienses, ele precisava de conhecimento cultural prévio, precisava se comunicar de maneira que o povo o compreendesse. Felizmente, Paulo possuía este conhecimento, fato que é comprovado (por exemplo) através das várias citações de poetas locais encontradas em suas narrativas.

Tais citações, embora originalmente se referissem a Zeus, o chefe dos deuses gregos, foram aplicadas por Paulo no proclamar ao Deus de Israel. Os poetas mencionados foram Epimênides (600 a.C.), Cleanto (331-233 a.C.) e Arato (c. 315-240 a.C.).

Com base nisso, o que precisa ficar patente é que mesmo com tamanha identificação, os parâmetros culturais utilizados pelo missionário estavam livres de todo e qualquer tipo de associação a questões sincréticas que divergissem da Bíblia Sagrada, e só contribuíram para o forte esclarecimento da mensagem, cooperando indelevelmente para o sucesso da empreitada missionária.

Desta forma, podemos concluir que comunicar o Evangelho de maneira contextualizada não requer necessariamente um empobrecimento da mensagem ou um desapego à ortodoxia, mas, uma sólida certeza de que ao término da empreitada as pessoas em uníssono saberão diferenciar, Jesus de Genésio.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

TERESA... E UM MITO.


A primeira vez que vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna

Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)

Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.


Estamos falando do saudoso poeta que faz parte do seleto grupo dos 22 que compõem a geração da literatura modernista brasileira, Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho, ou como ficou largamente conhecido nos círculos acadêmicos das terras de Santa Cruz, Manoel Bandeira. Este, de estilo simples e direto, que marca indelevelmente o quadro de poetas pernambucanos, juntamente com escritores tais como João Cabral de Melo Neto, Paulo Freire, Gilberto Freyre, Nelson Rodrigues, Carlos Pena Filho e José Condé, é o autor do poema livre citado acima, que sabiamente recebeu a graça, Teresa.

Através da análise literária, percebemos que Teresa é um poema sem preocupação estética, o que fica óbvio pela falta de divisão em estrofes. É um poema curto, de nove versos livres. Quanto à temática, percebemos que o autor faz uma crítica à chamada “primeira impressão”. Nota-se que a primeira vista, o eu - lírico acha a personagem, Teresa, um ser estúpido e inadmirável. Em uma segunda visão, Teresa já não é um ser tão repulsivo, apenas destacam-se os olhos. Já na terceira visão de Teresa, os versos indicam que a mesma tornou-se tão surpreendente e encantadora que faz o eu - lírico perder a noção do espaço. O poema apresenta uma mensagem implícita de desapego às aparências – uma pessoa pode ser esteticamente feia e encantadoramente linda, num mesmo tempo físico, se a conhecermos.

Por falar em tempo físico, apesar da suspeita, gostaria de deixar um pouco a beleza poética de lado e analisar este píncaro da literatura brasileira por outro prisma, o da fenomenologia.

Assim como na poesia, a religião também não está restrita a tempora. Habita num plano onde o físico é um lapso imperfeito do metafísico pouco afeito as suas sublimes manifestações, mas que não se dilui para interpretação dos mortais, é sempre sublime, genuína, viva. A diferença entre as duas é que a primeira fomenta prazer, enquanto que a segunda, gera vida.

Chamou-me atenção o fato de Bandeira se utilizar do Ato Cosmogônico para expressar, ou melhor, eternizar, o Tempo Físico que estava vivendo. Apesar de exótico (poeticamente falando), esta prática não é nada inovadora. Praticamente em todas as culturas nós encontramos Mitos Cosmogônicos, semelhantes ao relato bíblico (que é concreto, real), os quais narram circunspecticamente uma história sagrada, um acontecimento ocorrido num tempo ímpar, fabuloso, mítico.

Tanto nas religiões primitivas, quanto no sentimento do poeta em tela, a idéia ao se relatar, invocar ou revivenciar um acontecimento ocorrido no princípio, Tempo Mítico, serve para fundamentar, fortificar, o tempo físico presente, torná-lo prodigioso a semelhança do primeiro (ato da criação), imortalizá-lo.

Em alguns ritos de iniciação tribal, como no da chegada da puberdade ou no do casamento, é sempre recitado como tudo foi criado (ato cosmogônico), e como este rito (de iniciação) teve origem “naquele tempo”, onde os ancestrais (entes espirituais ou heróis imortalizados) reinavam absolutos e idealizavam o ato (rito) que agora se perpetua, pois, é através destas rememorações, que os ritos de iniciação passam a ter sentido, a existir.

Depreende-se, através da observação destas culturas, que recitar (rememorar) o tempo mítico, faz com que o iniciado reintegre-se aquele tempo fabuloso e torne-se conseqüentemente, contemporâneo, de certo modo, dos eventos evocados, compartilhando da presença dos deuses ou de seus heróis, fato que tanto torna o evento sagrado, como a pessoa iniciada. Por causa de crenças como esta, o Mito, ao longo dos anos, tornou-se um ingrediente vital para a civilização humana; pois, longe de ser uma fabulação vã (idéia fortemente difundida durante o iluminismo por motivos apologéticos), ele é uma realidade viva, a qual se recorre incessantemente, não é absolutamente uma teoria abstrata ou uma fantasia artística (principalmente após o século XX, tendo em vista a contextualização), mas uma verdadeira codificação da religião primitiva e da sabedoria prática (idéia largamente utilizada pelos antropólogos como um veículo de contato), onde nesta última, a poesia tem parte.

Perceba, que culturalmente falando, é através da experiência do sagrado (no caso desta poesia a menção à criação), que fulguram as idéias de realidade, de pertinência, de existência, e de significação. O valor simbólico amalgamado ao rito cosmogônico (neste caso) demonstra a importância que o acontecimento está recebendo no tempo presente e porque ele é necessário (pertinente) desde épocas remotas. É a ligação com o sagrado que faz com que o homem viva uma realidade plena. Também nesse caso (para minha alegria), o Mito pode funcionar como um “abre olhos” que têm como ambição uma ponte para genuína comunicação de uma verdade superior (como a do evangelho por exemplo) através de uma crítica contextualização.

Portanto, tanto no pensamento do polêmico Manuel Bandeira, como na profícua manifestação cultural de boa parte dos povos ao redor do mundo, o fato de se relacionar um momento singular do tempo presente, com um ato metafísico de relevância plena in illo tempore, faz com que este último receba a importância necessária para continuar vivo nas mentes dos homens ao longo dos tempos, traz o fato a existência, da razão a sua criação, imortaliza-o.

Assim, conforme vejo na elucubração de Bandeira, rememorar Teresa significa sentir a importância do acontecimento na pessoa do próprio poeta, através da intensidade da vida que nele passou a existir, tornando o fato vívido no sentimento daquele que se dispõe a ler, revitalizando-o. Em escala infinitamente superior (pois trata-se de um fato real), a rememoração da criação divina imortaliza o estado outrora sentido, permite um sentimento de reflexão pela perda, e propicia a expectativa da volta através do poder daquele que faz novas todas as coisas (Jesus).

Em suma, relembrar uma época mítica (culturalmente falando) gera no indivíduo a sensação de uma vida outrora vivida, num tempo saudável, épico, tudo quanto o velho poeta precisava, mas, a simples sensação não é vida, a vida é (Jo 11.25).

Entretanto, (que pena) a sempre a possibilidade de ir embora para Parságada.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

A CIDADE DOS MORTOS.

Na cidade do Cairo, capital do Egito, cerca de um milhão de pessoas se aglomeram num complexo habitacional pouco ortodoxo. Este conjunto de residências em muito difere do que estamos acostumados a ver, ou mesmo, a habitar. Trata-se do conglomerando de vários cemitérios que ocupam uma boa parte da cidade (cerca de 7 Km) e que por suas características tem recebido o exótico nome de “A Cidade dos Mortos”.

Esta fantástica “necrópole” abriga, além de pessoas e sepulturas, mesquitas, escolas, butiques, vendedores ambulantes, polícia, água, eletricidade e alguns outros utensílios que transformaram esta necrópole num bairro vivo. Segundo a repórter Ángeles Espinosa, que visitou o local, os desabrigados vivem em meio às tumbas (que nada lembram as nossas por causa da tradicional pompa egipcía oriunda dos tempos dos faraós), único alojamento disponível dessa capital superpovoada.

Apesar de não ser nada pragmático, o conviver com os mortos não é algo novo, remonta a muitos anos em nossa “jornada” e passou por vários estágios. A princípio as pessoas que eram acometidos pelo “Único Mal Irremediável” (para citar um dos nossos), eram depositadas em Catacumbas, as quais posteriormente também serviram para cultos cristãos em meio as perseguições. Estas perseguições, por sua vez, geravam várias mortes de cristãos que se negavam a renunciar sua fé e transformavam-se em mártires. As pessoas que iam morrendo posteriormente, tendo em mente a “promessa do ressurgimento” quando da parousia, eram enterrados próximas a estes mártires, pois, no pensamento dos que empreendiam o velório, esta proximidade lhes garantiria uma “maior proteção” (e dava origem aos primeiros cemitérios).

Com o passar dos anos, este conglomerado de sepulturas recebeu também um local de culto, as posteriormente conhecidas Basílicas, que além de sua função religiosa também serviam para sepultar os mortos. Dentre estas, a mais conhecida de todas é sem dúvida alguma a Basílica de São Pedro, situada no Vaticano e que também possui sua conhecidíssima Necrópole.

Esta prática de se enterrar cadáveres em “solo sagrado” expandiu-se a ponto de as pessoas não mais enterrar os mortos em espaços comuns, mas, em cemitérios (agora firmados) que estivessem próximos a locais de culto. Todavia, só quem possuia acesso a esse tipo de “serviço” eram os ad sanctum (na tradução do meu pobre latim frustrado) os mais ricos. Esta prática tomou proporções inimagináveis na alta idade média, a ponto das igrejas abrigarem mais e mais cadáveres confundindo-se adoração e sepultamento. Por causa da demanda, os túmulos individuais foram se tornando cada vez mais escassos, pois, nas igrejas, tendo em vista o espaço, as pessoas eram esterradas num mesmo local sem especificação alguma. Esta coletividade se acentuou ainda mais Com o advento da peste negra, pois, os cemitérios (igrejas) ficaram sobremaneira abarrotados (não de adoradores em busca de salvação, mais de defuntos em busca de um pedaço de chão), fato que forçou a criação de sepulturas também nos espaços anexos aos templos (os chamados passos). A solução para este abarrotamento apenas surgiu com o passar dos anos, pois, com a proliferação dos fiéis os atos funebres se tornaram cada vez mais religiosos, o que necessariamente diminuia a obrigatoriedade de um túmulo in loco. Assim, os cemitérios passaram a existir também em locais onde antes não haviam igrejas, embora, elas fossem construídas depois (fato que ocorre até hoje só que em proporções menores, capelas).

Também contribuiu para pluralização dos locais de sepultamento a secularização cada vez mais presente no cotidiano das pessoas (rastro do iluminismo), bem como as profícuas preocupações médicas por causa do alto contato com os mortos (principalmente em meados do século XVIII na Alemanha e na França), as quais modificaram drasticamente a forma como os velórios ocorriam (agora restritos aos familiares), transformando também os locais de sepultamento, os quais passaram a ser mais isolados e higiênicos (eu sei, também não concordo, mas é a história, fazer o quê?) moldando a forma dos cemitérios e aproximando-os dos modelos que possuimos atualmente.

Com isso em mente, perceba que não só culturalmente como acabamos de ver ao longo da história e atualmente com “A Cidade dos Mortos” situada Egito, mas, em todo o tempo (agora falo espiritualmente), conforme relato bíblico, vivos e mortos (crentes e descrentes) dividem o mesmo espaço, com a única premissa de que estes últimos (descrentes) ainda podem mudar sua situação.

Observe!

Quando da escolha dos seus seguidores, Jesus empreendeu o seguinte diálogo visando por à prova aqueles que realmente tinham o interesse de segui-lo:

A outro disse Jesus: Segue-me! Ele, porém, respondeu: Permite-me ir primeiro sepultar o meu pai. Mas Jesus insistiu: Deixa aos mortos o sepultar os seus próprios mortos (Lc 9.59-60a).

A Bíblia sempre foi clara ao associar o pecado com a morte (Rm 6.23). Mas, com o diálogo acima, Jesus tornou ainda mais óbvio que todo aquele que ainda não o recebeu como Salvador (dom gratuito da vida eterna), está morto em seus delitos, uma vez que todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus (Rm 3.23) e a recompença para isso (pecado) é a morte. Perceba que o discípulo pedia para apenas começar a servir a Jesus quando o seu pai falecesse, mas Jesus, o aconselhara a deixar para os mortos o sepultar os seus próprios. O que se percebe é que todo o homem que ainda não recebeu a Jesus é um cadáver ambulante, que tem aspecto de quem vive, mas está morto (porque vivo, vive uma ilusão, e morto, habitará num caldeirão).

Depreende-se, portanto, que todos nós habitamos numa imensa necrópole.

Porque, assim como os egipcíos do Cairo (não literalmente, mas espiritualmente) convivemos com mortos no ônibus a caminho da escola, no cinema quando assistimos a algum filme, no restaurante quando tomamos as refeições, no trabalho, nas ruas, nas casas, enfim... Covivemos com os mortos!

Esta terrível premissa fenomenológica provoca uma insegurança inquietante e facilmente apreciada na seguinte indagação: Eu estou vivo, ou estou morto?

Ora, a resposta é fácil.

Se você, que acabou de ler este artigo, concordou comigo, parabéns! Você está vivo. Mas não apenas vivo, também com a sublime missão de trazer outros a vida (Jo 10.10).

Todavia, se você não concordou (porque ainda não têm Jesus), tenha bastante cuidado, pois, a Palavra é clara:

Os vivos, somente os vivos, esses te louvam como hoje eu faço(Is 38.19a).

Assim...

Meu querido defunto, se você quer viver (?), Aceite a Jesus e tenha vida em abundância nessa imensa necrópole, só que, fora da tumba!

Nas célebres palavras de Horácio...

Carpe diem!

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

ALÉM DO VÉU DE MAYA.


Na Mitologia Hindu (Dighanikaya), o neófito (não iniciado), está sujeito ao self (uma espécie de sono, ignorância, prisão ou véu), até que é esclarecido por alguém que conhece o verdadeiro ser, “Brahma”, que simpaticamente o ensina acerca do conhecimento do mundo e da vaidade, desta forma, o homem é livre de suas próprias ilusões e conhece então o seu verdadeiro ser, encontrando enfim a orientação necessária para romper o “Véu de Maya”.

O Véu de Maya seria uma distração sensorial que impede o homem de ver o mundo da forma como ele é. Imagine uma imensa fila indiana a vagar pelo deserto, e imagine que existam inúmeras possibilidades de se empreender uma nova direção, todavia, todos os homens, por causa de um “tapa olhos”, não conseguem vislumbrar o que acontece a sua volta, sujeitando-se a tão somente olhar a nuca daquele que vai a sua frente. Romper o Véu de Maya seria deixar esta fila indiana através do conhecimento de que se é possível percorrer um outro caminho, um caminho não percebido até então pelos demais pelo fato do véu que os engana. Por causa do Véu, os homens pensam que estão orientados e no caminho certo, e por vezes não conseguem divisar o mal que vos espreita, o qual seja o caminhar para lugar algum e esquecer de seu lugar de origem.

Segundo Mircea Eliade, nos ensinamentos hindus os deuses caem do céu quando lhes falha a memória e seu pensamento se confunde; paradoxalmente, os deuses que não se esquecem são imutáveis, sublimes, eternos, de modo que não reconhecem qualquer tipo de mudança. O esquecimento equivale ao “sono”, ao acaso, a perda de si mesmo, à desorientação, à “cegueira” (a venda nos olhos).

Diz um velho texto hindu, o Chandogya-Upanishad que certo homem foi seqüestrado por salteadores com os olhos vendados, e após ser liberto num local ignorado passou a bradar: “Fui conduzido pra cá com os olhos vendados, fui abandonado por aqui com os olhos vendados!”. Após algum tempo alguém lhe remove a venda, e o homem passa a indagar o seu caminho de aldeia em aldeia, até que enfim consegue retornar para casa. Fato interessante, é que este mesmo texto diz que aquele que tem um mestre competente (que o ensina o caminho) consegue livrar-se das vendas da ignorância e atingir finalmente a perfeição.

Um certo sábio hindu comentou que este homem tolhido pelos salteadores foi levado para longe do “Ser” (seu lugar de origem) e se vê preso na armadilha do seu corpo (na fila indiana). Os ladrões representam as falsas idéias, sua vida transitória (o medo de romper a fila). Seus olhos estão vendados com a venda da ilusão (o véu de maya), a qual provoca um frenesi de incertezas, “sou o filho de fulano, sou feliz ou infeliz, sou inteligente ou estúpido, sou piedoso, etc. Como devo viver? Onde existe uma via de evasão? Onde está minha salvação? É neste estado nefasto e recheado de dúvidas que ele se encontra até que alguém “esclarecido” lhe retira a venda que o impede de ver a realidade concreta, o que está além do véu da ilusão e o coloca na direção correta.

A idéia de um estado de ilusão que se nos revela foi de certa forma ensejada a cultura ocidental de maneira mais ampla através dos escritos de J.J. Benitez (Operação Cavalo de Tróia), os quais tem colocado deveras caraminholas nas mentes do menos esclarecidos, bem como através da Trilogia Matrix, produção cinematográfica que de maneira direta exemplifica o estado de alguém que não ciente de uma realidade patente, se torna mero coadjuvante de uma realidade que o envolve drasticamente excluindo-o de participar de um acontecimento real. Ambas as idéias não apontando para o sentido real de que se poderia derivar o conceito de uma ilusão que acomete o homem e o torna escravo de uma teia de incertezas.

Todavia, o Apóstolo Paulo, muito antes que qualquer destes, já nos advertia a respeito de um véu que nos impedia de ver uma profunda e urgente realidade tão patente aos nossos olhos, mas, camuflada por um “tapa olhos” que nos impedia de divisar sua importância. Ele disse: “Mas, quando se converterem ao Senhor, então o véu se tirará” (II Co 3.16).

Paulo procurava nos alertar, através da Palavra de Deus, que o homem que não é esclarecido pelo Espírito Santo por meio da pregação do evangelho (paro o hindu seria o Brahma), encontra-se envolto numa bruma (na mitologia hindu o véu de maya) que o impele a caminhar distante em busca de um futuro longe de casa (nos lugares baixos, ínferos), distante de seu Criador. Todo homem que não conhece a salvação fomentada pelo Espírito de Deus, que só pode ser concedida através da morte de Jesus (Jo 16.7) na Cruz do Calvário, encontra-se escravo deste mundo de ilusões transitórias que se esvaem sem prédicas de tempo ao simples fluxo do viver. Mas, com o revelar da Palavra que é compreendida por meio da fé, o homem tem diante de si descortinado o “Véu da Criação” e passa a compreender a verdade perene que o envolve desde a fundação do mundo, entendendo o plano de ação do Criador de todas as coisas para restauração de sua vida. Quando a revelação do Deus Todo Poderoso irrompe na mente do que crê, o Espírito o liberta desta realidade transitória e lhe responde as dúvidas crucias que o infligiam tamanha angústia, fazendo-o perceber de onde ele veio, para onde ele vai, o quê o espera, e o que há além do caos disfarçado pelo véu.

Paulo, no mesmo texto, também fez menção à tristeza que o acometia pelo fato de alguns não se aperceberam da existência do véu, pois estes, mesmo sendo ensinados, continuavam sem compreender (II Co 3.14-15). Muitos, ainda hoje, talvez não acreditem na realidade do véu, pois, esta é a função do “tapa olhos”, ele existe para isso, não permitir a visão, a rememoração, a libertação, a salvação. Para essas pessoas, a única coisa a fazer é rogar a Deus que os liberte da efêmera ilusão da vida, dessa teia de vaidades que os envolve e os permita ver a realidade da vida, a qual está bem ali, “Além do Véu de Maya”.

Nas sábias palavras de Fauzi Beydoun:

Você vê o meu corpo e pensa que sou eu
Ele não é eu ele não é meu
É só uma dádiva dada emprestada
Deus foi quem me deu por breve temporada
É só uma roupagem, densa embalagem
Que não me pertence
Aliás, nada me pertence nesse mundo
Tudo é transitório, tudo é ilusório
Ainda que se pense que o que se vê é pura realidade
Na verdade, o que se está a ver
Não é mais que um lapso
Distorcido da eternidade

LIBERTE-SE!