segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

APRENDER ANTROPOLOGIA, FRANÇOIS LAPLANTINE

LAPLANTINE, François. Aprender Antropologia. Editora Brasiliense – 8ª Ed. Trad. Marie-Agnés chauvel. SP 1994.
O CAMPO E A ABORDAGEM ANTROPOLÓGICOS
“O projeto de fundar uma ciência do homem – uma antropologia – é, ao contrário, muito recente. De fato, apenas no final do século XVIII é que se começa a constituir um saber científico que toma o homem como objeto de conhecimento, e não mais a natureza, apenas nessa época é que o espírito científico pensa, pela primeira vez, em aplicar ao próprio homem os métodos até então utilizados na área física ou biológica”.                                                                                                               
“As sociedades estudadas pelos primeiros antropólogos são sociedades longínquas as quais são atribuídas as seguintes características: Sociedades de dimensões restritas, que tiveram poucos contatos com os grupos vizinhos; cuja tecnologia é pouco desenvolvida em relação a nossa; e nas quais há uma menor especialização das atividades e funções sociais. São também qualificadas de “simples”; em conseqüência, elas irão permitir a compreensão, como numa situação de laboratório, da organização “complexa” de nossas próprias sociedades”.                                                                                                                              
Por muito tempo acreditou-se que o objeto de estudo da antropologia eram as sociedades ditas primitivas, assim, com o rápido desenvolvimento das sociedades, o “selvagem”, está, por assim dizer, sujeito ao desaparecimento. Surge daí, uma crise na antropologia: Será que com o desaparecimento do selvagem também desaparecerá a antropologia?                                     
A resposta a essa pergunta passa por três estágios, o primeiro diz que se o objeto de estudo perder-se, poderá o antropólogo passar a estudar a “sociologia”, ele também pode estudar o camponês, como uma espécie de selvagem, e, por fim, o aspecto epistemológico, quiçá o mais viável.                                                                                                                                                          
“O objeto teórico da antropologia não está ligado, na perspectiva na qual começamos a nos situar a partir de agora, a um espaço geográfico, cultural ou histórico particular. Pois a antropologia não é senão um certo olhar, um certo enfoque que consiste em: 1 – O estudo do homem interior; 2 – O estudo do homem em todas as sociedades, sob todas as latitudes em todos os seus estados e em todas as épocas.” p 16.
In, O estudo do homem inteiro
Uma abordagem antropológica objetiva levar em consideração as múltiplas dimensões do ser humano em sociedade. Existem cinco áreas da antropologia que o pesquisador deve estudar ao trabalhar de maneira ampla:
1 – Antropologia Biológica – consiste no estudo das variações dos caracteres biológicos do homem no espaço e no tempo. Sua problemática é a das relações entre o patrimônio genético e o meio (geográfico, ecológico, social), ela analisa as particularidades morfológicas e fisiológicas ligadas a um meio ambiente, bem como a evolução destas particularidades. p 17.
2 – Antropologia Pré-Histórica – É o estudo do homem através dos vestígios materias enterrados no solo (ossadas, mas também quaisquer marcas da atividade humana). Seu projeto, que se liga a arqueologia, vida reconstruir as sociedades desaparecidas, tanto em suas técnicas e organizações sociais, quanto em suas produções culturais e artísticas. p 17.
3 – Antropologia Linguística – A linguagem é, com toda evidência, parte do patrimônio cultural de uma sociedade. É através dela que os indivíduos que compõem uma sociedade se expressam e expressam seus valores, suas preocupações, seus pensamentos. Só o estudo da língua permite: Compreender como os homens pensam o que vivem e o que sentem; como eles expressam o universo e o social; como, eles interpretam seus próprios saber e saber-fazer.
4 – Antropologia Psicológica – Consiste no estudo dos processos e do funcionamento do psiquismo humano. Somente através dos comportamentos – conscientes e inconscientes – dos seres humanos particulares podemos apreender essa totalidade sem a qual não é antropologia. É a razão pela qual a dimensão psicológica (e também psicopatológica) é absolutamente indissociável do campo do qual procuramos aqui dar conta. p 19.
5 – Antropologia Social e Cultural (ou etnologia) – Diz respeito a tudo quanto constitui sociedade: seus modos de produção econômica suas técnicas, sua organização política e jurídica, seus sistemas de parentesco, seus sistemas de conhecimento, suas crenças religiosas, sua língua.
In, O estudo do homem em sua diversidade
“Aquilo que, de fato caracteriza a “unidade” do homem, de que a antropologia como já o dissemos e voltaremos a dizer, faz tanta questão, é sua aptidão praticamente infinita para inventar modos de vida e formas de organização social extremamente diversos. E, a meu ver, apenas a nossa disciplina permite notar, com a maior proximidade possível, que essas formas de comportamento e de vida em sociedade que tomávamos todos espontaneamente por inatas (nossas maneiras de andar, dormir, vestir, encontrar, emocionar …) são, na realidade, o produto de escolhas culturais. Ou seja, aquilo que os seres humanos tem em comum é sua capacidade para se diferenciar uns dos outros, para elaborar costumes, línguas, modos de conhecimento, instituições, jogos profundamente diversos; assim, se há algo natural a espécie humana é a sua aptidão à variação cultural”. p 22.
In, Dificuldade
1 – A primeira dificuldade se manifesta, como sempre, ao nível das palavras. Etnologia ou Antropologia? A primeira (de origem francesa) estuda a pluralidade irredutível das etnias, isto é, das culturas. A segunda (anglo-saxônica), estuda a unidade do gênero humano. Optando-se por antropologia, deve-se falar em Antropologia Social – cujo objetivo privilegiado é o estudo das instituições – ou (com os autores americanos) de Antropologia Cultural – que consiste mais no estudo dos comportamentos. p 25.                                                                                                                                                                                            
2 – A segunda diz respeito ao gral de cientificidade que convém atribuir a antropologia. O homem está em condições de estudar cientificamente o homem, isto é, um objeto que é da mesma natureza que o sujeito? Para Radcliffe-Brown (1968), as sociedades são sistemas naturais e devem ser estudadas como tais. Para Evans-Pritchard (1969), as sociedades devem ser estudadas como sistemas simbólicos. p 26.                                                                                                                                                               
3 – Uma terceira dificuldade é a relação da antropologia com a história. Estreitamente vinculadas nos século XVIII e XIX, as duas práticas vão rapidamente se emancipar uma da outra no século XX. As rupturas, de fato, se devem em grande medida aos antropólogos. Evans-Pritchard “O conhecimento da história das sociedades não é de nenhuma utilidade quando se procura compreender o funcionamento das instituições”. Leach “A geração de antropólogos a qual pertenço tira seu orgulho de sempre ter-se recusado a tomar a história em consideração”. P 26.                                                                                                                   
4 – O antropólogo deve contribuir enquanto antropólogo, para a transformação das sociedades que ele estuda? Minha convicção é que o antropólogo, para ajudar os atores sociais a responder a essa questão, não deve, pelo menos enquanto antropólogo, trabalhar para transformação das sociedades que estuda. Auxiliar uma determinada cultura na explicitação para ela mesma de sua própria diferença é uma coisa; organizar política, econômica e socialmente é outra coisa. P 30.
PRIMEIRA PARTE
MARCOS PARA UMA HISTÓRIA DO PENSAMENTO ANTROPOLÓGICO
1 – A PRÉ-HISTÓRIA DA ANTROPOLOGIA:
A descoberta das diferenças pelos viajantes do século XVI e a dupla resposta ideológica dada daquela época até nossos dias.                                                                                                                                                                                                                           “A gênese da reflexão antropológica é contemporânea à descoberta do Novo Mundo. O renascimento explora espaços até então desconhecidos e começa a elaborar discursos sobre os habitantes que povoam aqueles espaços.”
In, A figura do mal selvagem e do bom civilizado.
“A extrema diversidade das sociedades humanas raramente apareceu aos homens como um fato, e sim como uma aberração exigindo uma justificação. A antiguidade grega designava sobre o nome de bárbaro tudo o que não participava da helenidade, o renascimento, os séculos XVII e XVIII falavam de naturais ou de selvagens, opondo assim a animalidade a humanidade. O termo primitivos é que triunfará no século XIX, enquanto optamos preferencialmente na época atual pelo subdesenvolvido”.
“Além da religião, outro critério para avaliação das sociedades ditas primitivas seria:
1 - A aparência física: Eles estão nus ou “vestidos de peles de animais”;
2 – Os comportamentos alimentares: Eles “comem carne crua”, e é todo o imaginário do canibalismo que irá aqui se elaborar;
3 – A inteligência tal como pode ser apreendida a partir da linguagem: eles falam “uma língua inteligível”.
De Pauw, nos propõe suas reflexões a respeito dos índios da América do Norte:
“Deve existir nos americanos, uma causa qualquer que embrutece sua sensibilidade e seu espírito. A qualidade do clima, a grosseria de seus humores, o vício radical do sangue, a constituição de seu temperamento excessivamente fleumático podem ter diminuído o tom e o saracoteio desses homens embrutecidos” p 43.                                                                                 
Acreditando que os povos que viviam abaixo da linha latitudinal que até então dividia o mundo, eram inferiores, um autor escreveu o seguinte: “A natureza tirou tudo de um hemisfério desse globo para dá-lo a outro, a diferença entre um hemisfério e o outro é total, tão grande quanto poderia ser e quanto podemos imaginá-la”. p 44.                                                   
“Os julgamentos que acabamos de relatar – que estão, notamos, em ruptura com a ideologia dominante do século XVIII, em especial com o “Discurso sobre a Desigualdade”, de Rousseau, publicado vinte anos antes – por excessivos que sejam apenas radicalizam ideias compartilhadas por muitas pessoas nessa mesma época. Ideias que serão retomadas e expressas nos mesmos termos em 1830 por Hegel, o qual, em sua “Introdução à Filosofia da História”, nos expõe o horror que ele ressente frente ao estado de natureza, que é o desses povos que jamais “ascenderão” à história e à “consciência de si”.p 45.               
Ainda segundo Hegel, na “Fenomenologia do Espírito” o “negro” nem mesmo se vê atribuir o estatuto de vegetal. “Ele cai”, escreve Hegel, “para o nível de uma coisa, de um objeto sem valor”.p 46.
In, A figura do bom salvagem e do mal civilizado.
“O caráter privativo dessas sociedades sem escrita, sem tecnologia, sem sacerdotes, sem religião organizada, sem clero, sem polícia, sem leis, sem estado – acrescentar-se-á no século XX sem complexo de Édipo – não constitui uma desvantagem. “O selvagem não é quem pensamos”. Entretanto, “a figura do bom selvagem só encontrará sua formulação mais sistemática e mais radical , dois séculos após o renascimento: no rousseauísmo do século XVIII, e, em seguida, no Romantismo”.                                                                                                                                                                                                      
Num elogio ao estado original de natureza. Léry, entre os Tupinambás, interroga-se sobre o que se passa “aquém”, isto é, na Europa. Ele escreve, a respeito de nossos grandes usuários: “eles são mais cruéis do que os selvagens dos quais estou falando”. E Montaigne, sobre esses últimos: “Podemos de fato chamá-los de bárbaros sobre as regras da razão, mas não quanto a nós mesmos que os superamos em toda a sorte de barbáries”.                                                                                                                          
Em resumo, “a partir da observação direta de um objeto distante (Léry) e da reflexão a distância sobre este objeto (Montaigne), tem-se a constituição progressiva, não de um saber antropológico, muito menos de uma ciência antropológica, mas sim de um saber pré-antropológico. p 53.
2 – O SÉCULO XVIII:
A invenção do conceito de homem
“Se durante o renascimento esboçou-se, com a exploração geográfica de continentes desconhecidos, a primeira interrogação sobre a existência múltipla do homem, essa interrogação fechou-se muito rapidamente no século seguinte, no qual a evidência do “COGITO”, fundador da ordem do pensamento clássico, exclui da razão o louco, a criança, o selvagem, enquanto figuras da anormalidade”.                                                                                                                                               
“Será preciso esperar o século XVIII para que se constitua o “projeto” de fundar uma “ciência de homem”, isto é, “positivo” sobre o homem. Enquanto encontramos no século XVI elementos que permitem compreender a pré-história da antropologia, enquanto o século XVII interrompe nitidamente essa evolução, apenas no século XVIII é que entramos verdadeiramente, como mostrou Foucault (1966), na modernidade. Apenas nessa época, e não antes, é que se pode apreender as condições históricas, culturais e epistemológicas da possibilidade daquilo que vai se tornar a antropologia”.
“O projeto antropológico (e não a realização da antropologia como a entendemos hoje) supõe:
1 - “A construção de um certo número de conceitos”, começando pelo próprio conceito de homem, não apenas enquanto sujeito, mas enquanto objeto do saber, abordagem totalmente inédita (sujeito observante e sujeito observável).                 
2 - “A constituição de um saber que não seja apenas de reflexão, e sim de observação”, começa a constituição dessa “positividade” de um saber “empírico” (e não mais transcendental) sobre o homem enquanto ser vivo (biologia), que trabalha (economia), pensa (psicologia) e fala (linguística). Bebendo de Montesquieu “O Espírito das Leis”, Saint-Simon foi o primeiro a falar em uma “ciência da sociedade”.p 55.                                                                                                                                                               
3 - “Uma problemática essencial”: a da diferença. “A sociedade do século XVIII vive uma crise da identidade do humanismo e da consciência europeia. Parte de suas elites busca suas referências em um confronto com o distante”.                          
4 - “Um método de observação e análise – o Método Indutivo”, os grupos sociais que começam a ser comparados a organismos vivos, podem ser considerados como sistemas “naturais” que devem ser estudados empiricamente, a partir da observação de fatos, a fim de extrair princípios gerais, que hoje chamaríamos de leis. Os principais pensadores foram Adam Smith, e, antes dele, David Hume.                                                                                                                                                                                   
A partir da “natureza dos objetos observados”, a perspectiva, antes cosmográfica (Séculos XVI e XVII), assume um viés etnográfico, e, apenas no século XVIII se traça o “primeiro esboço daquilo que se tornará uma antropologia social e cultural. Simultaneamente, o foco passa do “objeto de estudo” para a “atividade epistemológica”. “Não basta mais observar, é preciso processar a observação. Não basta mais interpretar o que é observado, é preciso interpretar interpretações”. É essa atividade de organização e elaboração que, em 1789, Chavane chamará de “ETNOLOGIA”.p 58.                                            
Mesmo o século XVIII sendo essencial a elaboração dos fundamentos de uma “ciência humana”, ainda existiam obstáculos que impediam o advento de uma antropologia cientifica, os quais são:
1 - “A distinção entre o saber cientifico e o filosófico”.                                                                                                                         
2 – A não separação do discurso antropológico do século XVIII da história natural.
3 – O TEMPO DOS PIONEIROS
Os pesquisadores-eruditos do século XIX                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                             “O século XVI descobre e explora espaços até então desconhecidos e tem um discurso selvagem sobre os habitantes que povoam esses espaços. Após um parêntese no século XVII, esse discurso se organiza no século XVIII: ele é “iluminado” a luz dos filósofos, e a viagem se torna viagem filosófica”. No século XVIII, […] é a época durante a qual verdadeiramente se constitui a antropologia enquanto disciplina autônoma: a ciência das sociedades primitivas em todas as dimensões (biológica, técnica, econômica, política, religiosa, linguística, psicológica...)” p. 63.                                                                                       
“Com a “Revolução Industrial Inglesa e a Revolução Política Francesa, percebe-se que a sociedade mudou e nunca mais voltará a ser o que era. No século XIX, o contexto geopolítico é totalmente novo: é o período da conquista colonial, que desembocará em especial na assinatura, em 1885, do Tratado de Berlim, que rege a partilha da África entre potências européias e poe um fim as soberanias africanas. É no movimento dessa conquista que se constitui a antropologia moderna, o antropólogo acompanhando de perto, como veremos, os passos dos colonos... É no pensamento teórico dessa antropologia que consiste a Teoria Evolucionsita.”                                                                                                                                                                                              
“O que é também muito característico dessa antropologia (evolucionista), que pretende ser cientifica, é a considerável atenção dada:
1 – A essas populações que aparecem como sendo as mais “arcaicas” do mundo: os aborígenes australianos;                     
2 – ao estudo do parentesco;                                                                                                                                                                   
3 – e ao da religião.
“Esmagados sob o peso dos materiais, os evolucionistas consideram os fenômenos recolhidos (o totemismo, a exogamia, a magia, o culto aos antepassados, a filiação matrilinear...) como costumes que servem para exemplificar cada estágio. E quando faltam documentos, alguns (Frazer) fazem por intuição a reconstituição dos elos ausentes, procedimento absolutamente oposto, como veremos mais adiante, ao da etnografia contemporânea, que procura, através da introdução de fatos minúsculos recolhidos em uma única sociedade, analisar a significação e a função das relações sociais.” p. 70.        
“Isso colocado, como é fácil – e até risório – desacreditar hoje todo o trabalho que foi realizado pelos pesquisadores – eruditos da época evolucionista.”.  “...mas como poderíamos criticá-los por isso, já que eles foram precisamente os fundadores de uma disciplina que não existia antes deles.”p.72.                                                                                                                                               
“O que é iminentemente característico desse período é a intensidade do trabalho que realizou, bem como sua imensa curiosidade. Durante o século XIX, assistimos a criação das sociedades cientificas de etnologia, das primeiras cadeiras universitárias, e, sobretudo, dos museus como o que foi fundado no palácio de Trocadero em 1879 e que se tornará o atual Museu do Homem.”                                                                                                                                                                                           
“Através dessa atividade extrema, esses homens do século passado colocavam o problema maior da antropologia: explicar a universalidade e a diversidade das técnicas, das instituições, dos comportamentos e das crenças, comparar as práticas sociais de populações infinitamente distantes uma das outras tanto no espaço como no tempo.” […] são eles que mostraram pela primeira vez que as disparidades culturais entre os grupos humanos não eram de foram alguma a consequência de predisposições congênitas, mas apenas o resultado das situações técnicas e econômicas. Assim, uma das características principais do evolucionismo é o seu “anti-racismo”.p. 73.                                                                                                                                            
“Não há, como mostrou Kuhn (1983), conhecimento cientifico possível sem que se constitua uma teoria servindo de “paradigma”, isto é, de modelo organizador do saber, e a teoria da evolução teve incontestavelmente, no caso, um papel decisivo. Foi ela que deu seu impulso a antropologia. O paradoxo (aparente porque o conhecimento cientifico se dá sempre mais por descontinuidade teóricas do que por acumulação), é que a antropologia só se tornará cientifica (no sentido que entendemos) introduzindo uma ruptura em relação a esse modo de pensamento que lhe havia no entanto aberto o caminho.” p.74.
4 – OS PAIS FUNDADORES DA ETNOGRAFIA
Boas e Malinowski
“A etnografia propriamente dita só começa a existir a a partir do momento no qual se percebe que o pesquisador deve ele mesmo efetuar no campo sua própria pesquisa, e que esse trabalho de observação direta é parte da pesquisa.”
BOAS (1858-1942)
“Com ele assistimos a uma verdadeira virada da prática antropológica. Boas era antes de tudo um homem de campo. Suas pesquisas totalmente pioneiras, iniciadas, a partir dos últimos anos do século XIX (em particular entre os Kwakiutl e os Chinook de Colúmbia Britânica), eram conduzidas de um ponto de vista que hoje qualificaríamos de microssociológico”p. 77.              “A partir de Boas, […] não se pode mais confiar nos investigadores […], apenas o antropólogo pode elaborar uma monografia. Pela primeira vez o teórico e o observador estão reunidos.”p. 78.                                                                                           
“Assistimos ao nascimento de uma verdadeira etnografia profissional que não se contenta mais em coletar materiais à maneira de antiquarios, mas procura detectar o que faaz a unidade da cultura que se expressa através desses diferentes materiais.”p. 78.                                                                                                                                                                                
“Finalmente, ele foi um dos primeiros a nos mostrar não apenas a importância, mas também a necessidade, para o etnólogo, do acesso a língua da cultura na qual trabalha. As tradições que estuda não poderiam ser-lhes traduzidas. Ele próprio deve reconhecê-las na língua de seus interlocutores”p. 78.
MALINOWSKI (1884-1942)
“Malinowski, dominou incontestavelmente a cena antropológica, de 1922, ano de publicação de sua primeira obra, Os Argonautas do pacífico Ocidental, até sua morte, em 1942.”
1 - “Ninguém antes dele tinha se esforçado em penetrar tanto, como ele fez no decorrer de sua estadias sucessivas nas ilhas Trombriand, na mentalidade dos outros, e em compreender de dentro, por uma verdadeira busca de despersonalização, o que sentem os homens e as mulheres que pertencem a uma cultura que não é a nossa.”p. 80.                                                               
2 - “Instaurando uma ruptura com a história conjetural (a reconstituição especulativa dos estágios), e também com a geografia especulativa (a teoria difusionista, que tende, no início do século, a ocupar o lugar do evolucionismo, e postula a existência de centros de difusão da cultura, a qual se transmite por empréstimo), Malinowski considera que uma sociedade deve ser estudada enquanto uma totalidade, tal como funciona no momento mesmo que observamos. Com Malinowski, a antropologia se torna uma “ciência” da alteridade que vira as costas ao empreendimento evolucionista de reconstituição das origens da civilização, e se dedica ao estudo das lógicas particulares características de cada cultura. Hoje todos os etnólogos estão convencidos de que as sociedades humanas tanto quanto a nossa são sociedades humanas tanto quanto a nossa, que os homens e mulheres que nelas vivem são adultos diferentemente de nós, e não “primitivos”, autômatos atrasados que pararam em uma época distante e vivem presos a tradições estúpidas. Mas nos anos 20 isso era propriamente revolucionário.”p 81.                              
3 - “ A fim de pensar essa coerência interna, Malinowski elabora uma teoria (O FUNCIONALISMO) que tira seu modelo das ciências da natureza: o indivíduo sente um certo número de necessidades, e cada cultura tem precisamente como função à de satisfazer a sua maneira essas necessidades fundamentais.”                                                                                                  
4 – O homem deve ser estudado através da tripla articulação do social, do psicológico e do biológico.” p. 82.        
“Compreendendo que o único modo de conhecimento em profundidade dos outros é a participação a sua existência, ele inventa literalmente e é o primeiro a pôr em prática a observação participante.” p. 84.
5 – OS PRIMEIROS TEÓRICOS DA ANTROPOLOGIA
Durkheim e Mauss
DURKHEIM
“Durkheim, nascido em 1858, o mesmo ano que Boas, mostrou em suas primeiras pesquisas preocupações muito distantes das da etnologia, e mais ainda da etnografia. Em “As Regras do Método Sociológico” (1894), ele opõe a “precisão” da história à “confusão” da etnografia, e se dá como objeto de estudo “as sociedades cujas crenças, tradições, hábitos, direitos, incorporam-se em movimentos escritos e autênticos. Mas, em As formas Elementares da Vida Religiosa (1912), ele revisa seu julgamento, considerando que não é apenas importante, mas também necessário estender o campo de investigação da sociologia dos materiais recolhidos pelos etnólogos nas sociedades primitivas.” p. 88.                                                                        
“Sua preocupação maior é mostrar que existe uma especificidade do social, e que convém consequentemente emancipar a sociologia, ciência dos fenômenos sociais, dos outros discursos sobre o homem, e, em especial, do da psicologia. […] a causa determinante de um fato social deve ser buscada nos fatos sociais anteriores e não nos estados da consciência individual.” p. 88.                                                                                                                                                                              
“Essa irredutibilidade do social tem para Durkheim a seguinte consequência: os fatos sociais são “COISAS” que só podem ser explicados sendo relacionados a outros fatos sociais.” p. 89.
MAUSS
“Marcel Mauss (1872-1950), nasceu como Durkheim, em Epinal, quatorze anos após este, de quem é sobrinho. Suas contribuições teóricas respectivas na constituição da antropologia moderna são ao mesmo tempo muito próximas e muito diferentes. Se Maus, faz tanto quanto Durkheim, questão de fundar a autonomia do social, separam-se muito rapidamente a respeito de dois pontos fundamentais: o estatuto que convém atribuir a antropologia, e uma exigência epistemológica que hoje qualificaríamos de pluridisciplinar.” p. 89.                                                                                                                                                   
“Um dos conceitos principais formado por Mauss é o do “FENÔMENO SOCIAL TOTAL”, constituindo na integração dos diferentes aspectos (biológico, econômico, jurídico, histórico, religioso, estético...) constitutivos de uma dada realidade social que convém apreender a sua integralidade.” p. 90.                                                                                                             
“Assim, essa “totalidade folhada”, segundo a palavra de Lévi-Strauss, comentador de Mauss (1960), isto é, “formada de uma multitude de planos distintos”, só pode ser apreendida na experiência dos indivíduos”. Devemos, escreve Mauss, “observar os comportamentos dos seres totais, e não divididos em faculdades”. E a única garantia que podemos ter de que um fenômeno social corresponde a realidade da qual procuramos dar conta é que possa ser apreendido na experiência concreta de um ser humano, naquilo que tem de único: “O que é verdadeiro, não é a oração ou o direito, e sim o melanésio de tal ou tal ilha”.                                                                                                                                                                                                               
“Ora, o que caracteriza o modo de conhecimento próprio das ciências do homem, é que o observador-sujeito, para compreender seu objeto, esforça-se para viver nele mesmo a experiência deste, o que só é possível porque esse objeto é, tanto quanto ele, sujeito”. p. 91.
OBS.:Este fichamente compreende apenas a 1ª parte do livro, a qual vai da página 1-91.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

ALISTER McGRATH, UMA APOLOGIA A CONTEXTUALIZAÇÃO

Estive lendo "Apologética Cristã no Século XXI, ciência e arte com integridade", editora Vida, do emérito teólogo de orientação anglicana Alister McGrath. A leitura, mesmo conspicuamente esclarecedora, não foi fruto de meu feeling teológico e sim, o pré-requisito para obtenção da bibliografia básica de uma pós-graduação. Ademais, motivos a parte, o que de fato me chamou atenção - condição sine qua non - foi a importância investida a comunicação da mensagem por parte do autor.

A semelhança do Don Richardson (O Fator Melquisedeque), que trata da importância das "pontes culturais" para comunicação do evangelho, McGrath assevera a existência de pontos de contato, os quais, segundo o mesmo, funcionam como "pontos de apoio dados por Deus para a auto-revelação divina". Ainda segundo o autor, tais pontos seriam como catalizadores que concorreriam poderosamente para a comunicação de Deus com o homem e não um substituto do mesmo (animismo). Os pontos de contato seriam "linhas de batedores de um exército, que prepara terreno para a linha maior que a segue".

O ponto de McGrath é a assertiva de que Deus oferece de si mesmo, através da revelação, insights que apontam ininterruptamente para sua pessoa, de modo que o mesmo se torna categoricamente perceptível através do "teatro maravilhoso que criou" (Calvino).

Contudo, após a queda do homem a capacidade do mesmo de perceber a pessoa do criador através da manifestação da natureza foi tolhida pela completa depravação que grassou o mesmo e o lançou num mar de escuridão e desassossego. Isso ocorre por que a natureza humana que percebemos hodiernamente não é a natureza que Deus planejou. Hoje, os seres humanos que não foram alcançados pela obra redentora de Cristo continuam caídos (Vide Gênesis 3.1-24), perdidos como que em um dos self's da mitologia indu. A imagem do Criador Unipotente não passa de um lapso distorcido, um sonho.

Atualmente, mais do que nunca, a humanidade espalhada por todo o hemisfério terrestre se encontra sob o vaticínio engendrado por Agostinho a tantos séculos atrás, "Porque nos criaste para vós, o nosso coração vive inquieto enquanto não repousa em vós". A depravação aniquilou a bússola que conduzia o homem a Deus e o lançou à um mundo disforme sem qualquer parâmetro que lhe reconduzisse ao seu antigo estado. Com isso em mente, McGrath traz a lume um ponto vital para a apologética cristã que verdadeiramente possui um compromisso sério com a comunicação da verdade: "Como fazer para que alguém alheio a fé cristã conceba a Deus, uma vez que a idéia de Deus parece tão abstrata e disforme?". A resposta é categórica e possui fulcro indescutivelmente na Palavra inspirada de Deus, ou seja, está nas obras que Ele criou, as quais funcionam como letreiros que sinalizam o início do caminho outrora perdido por causa do pecado. Mas, se o homem encontra-se num estado de morte (Ef 2.1-3), como isso seria possível? Como encontrar o início desse caminho, compreendê-lo e segui-lo? (John Bunyan). Ora, a única forma de se reencontrar com Deus é por meio da morte vicária de Jesus Cristo, o qual descortina para nós o teatro maravilhoso que se encontra por trás da "cortina do espetáculo", o pecado. Cristo retira de nós o véu que nos impede de compreender a beleza que está por trás do universo e nos reconduz de volta pra casa. Nas palavras de C. S. Lewis:

"O Filho de Deus criou o mundo [...] para comunicar-se por meio de uma imagem que retrata sua excelência pessoal [...]. Ele transmite uma espécie de sombra [...] de seus atributos mais excelentes [...] de modo que quando nos sentimos encantados com os prados floridos e com a brisa suave [...] tomemos aquilo que vemos tão-somente como emanação da doce benevolência de Jesus Cristo"

A partir do encontro que o ser outrora caído e contaminado pelo desafeiçoamento do pecado tem com Jesus, sua mente passa a ser como um jardim plantado por Deus capaz de capturar, ainda que breve e superficialmente, o puro prazer da beleza do Senhor. Entretanto, tudo isso só se torna possível, graças ao fato de que a revelação encarnada por Deus é baseada na capacidade do próprio possui de se comunicar em linguagem humana. É esta poderosa verdade que torna o evangelho imprescindível para a apologética cristã.

A cerca do que estamos tratando, Calvino diz que, na revelação, Deus se ajusta as capacidades da mente humana e do coração humanos. Deus pinta um retrato de si mesmo que podemos entender. Segundo ele, as parábolas de Jesus ilustram perfeitamente este ponto, já que recorrem à palavras e ilustratções que se ajustam perfeitamente ao público. Em suma, Deus tinha que descer ao nosso nível para que pudesse se revelar a nós e satisfazer nossas necessidades.

Destarte, foi justamente esta intenção de McGrath de aventar a importância da comunicação através de símbolos pertinentes aos níveis intelectuais da assistência local que se tornou o zênite do texto em destaque. A meu ver a maneira como o teólogo anglicano expõe a importância da comunicação faz coro ao pensamento citado pelo mesmo e que parte mais uma vez da mente super aguçada de Lewis:

"Temos de aprender a linguagem de nosso público. Desde o início, é preciso que fique claro que nada vale formular a priori o que o 'homem comum' entende ou não entende. É preciso descobrir isso pela experiência [...]. Devemos traduzir toda porção mínima de teologia em linguagem corriqueira. Isso não é fácil [...], mas é indispensável. É também o maior serviço que se pode prestar ao nosso próprio pensamento. Cheguei a conclusão de que, se não for possível traduzir nossos pensamentos em linguajar não técnico, isso significa que  eles são confusos. A possibilidade de traduzir é o teste por meio do qual saberemos se fomos capazes de entender o significado daquilo que dissemos".

Entender o significado daquilo que dizemos... É a bandeira que missiólogos comprometidos com a missio dei estão levantando nos quatro cantos da Terra. Não é sem lutas que tal empreitada tem sido pleiteada, entretanto, tal qual o exemplo que encontramos em Cristo, avançamos altaneiramente para nosso alvo - o fulgurar da glória de Deus até os confins da Terra - mesmo que isso nos custe a própria vida, que ao meu ver já não possui valor que me impeça de oferecê-la por um bem maior.

Portanto, tendo em vista a pertinência da contextualização bíblica auspiciosamente inserida num contexto de informações rápidas e globalizadas que encontramos hoje, o livro Apologética Cristã no Século XXI de Alister McGrath, tem servido como chuva serôdia numa terra árida. Livro verdadeiramente relevante para o entendimento da missão, recomendo.             

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

AS VIGÍLIAS DA NOITE

“Havia, naquela mesma região, pastores que viviam nos campos e guardavam o seu rebanho durante as vigílias da noite” Lc 2.8

Poucas são as pessoas dispostas a viverem os bastidores da vida. Neste frenético ativismo ditado pela ditadura do consumo não resta mais espaços à vida simples.

Exercícios em tudo salutares como momentos com a família, períodos de reflexão e de contemplação são avessos a sempre malgrada agenda de tarefas “urgentes” que possuímos todos os dias.

Ademais, aqueles que, mormente o caos instaurado por um mundo que jaz no maligno possuem a função de servir como contracultura ao que expomos, em sua imensa maioria se percebem imersos nas águas do Lete, completamente esquecidos de sua verdadeira função, quiçá, lutar por aliviar o sofrimento impingido àqueles que não têm como se defender dos sempre atraentes caprichos do mundo.

Entretanto, há muito tempo atrás, “Havia, [...] pastores que vivam nos campos e guardavam o seu rebanho nas vigílias da noite”. Eram homens sábios e experimentados, dispostos a agarrarem leões e ursos pelas barbas para defender uma ovenlhinha indefesa. Homens que sorviam despretensiosamente o orvalho da noite, e que regavam conversas sóbrias ao sempre presente frio do deserto. A estes, coube à graça de numa noite de contemplação, de solilóquios e assossegos, serem banhados não pelo luar, mas pela glória do Senhor Todo Poderoso – que minutos antes havia entregue seu único Filho à humanidade, deitando-o por meio de uma mulher no conforto de uma manjedoura.

Esta história me faz perceber que a luta por relevância não se trava nos tablados da ribalta, tão pouco sob os olhares auspiciosos dos críticos sempre de plantão, ou dos que procuram a todo o custo visibilidade social, não. A relevância se dá no dia-a-dia. No regaço confortável da família, no aprisco aveludado dos amigos, na presença afeiçoada dos irmãos, e, também, nos momentos de vigília, reflexão e contemplação.

O problema, a meu ver, é que tais iniciativas não encontram guarida na vida super ativista das pessoas de nossa geração. Pior. Também não encontram na vida daqueles que foram abençoados por Deus com esta ditosa função, os pastores. Onde estão aqueles que deveriam vigiar nas madrugadas solitárias da noite? Penso que não são muitos que estão a contemplar o balido de suas ovelhas em meio ao doce orvalho que deveria lhes servir de lenitivo.

Neste período de reflexão que se aproxima – O Natal – experimentemos a nostalgia que lhe é própria para sopesarmos nossa vida. Por que os anjos já não nos visitam? Por que as madrugadas não mais nos convidam? Quem está a vigiar nossas ovelhas?

Lembremos que o nosso Supremo Pastor se serviu de nos usar como despenseiros de sua vida simples, mas em tudo feliz. Que a lembrança de seu nascimento nos embale a uma vida que tenha um propósito. Que a sedução do discurso não nos roube de nossa verdadeira missão – aproveitar e fazer com que as pessoas aproveitem a vida.

Vivamos nosso Natal hoje como o viveram nossos amigos pastores ontem:

“Glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto, como lhes fora anunciado” Lc 2.20

Já vimos o suficiente, vimos o bastante. Nossa experiência é mais que suficiente para um milhão de vidas. É tempo de começarmos a vivermos de acordo com aquilo que já alcançamos. Ò, “Protetores do Rebanho”. Que nossa vida exale o Natal continuamente! Jesus nasceu. É mais que suficiente. Tal relato é “exultação expositiva”.

Um Feliz Natal a todos quantos Ele quer bem!

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

A RELEVÂNCIA CULTURAL DO CALVINISMO HOLANDÊS NA AMÉRICA

Indubitável a indelével participação de João Calvino para formação dos estados americanos e para o conseqüente surgimento do estado de direito, diga-se, Neo-Liberal que encontramos hodiernamente por estas paragens. Nesta perspectiva estaremos analisando uma variação do calvinismo que teve gérmen na mais perfeita escola de Cristo – para utilizar um termo do John Knox – mais que possui sua gênese também neste. Trata-se, portanto, do calvinismo produzido nos países baixos, mas precisamente na Holanda.
Os escritos de Calvino chegaram a Amsterdã e demais cidades holandesas por vezes do contrabando que, a revelia das auspiciosas barreiras impostas pela inquisição, não conseguiram parar seu fluxo para esta região do globo. O maior número de escritos e da conseqüente teologia esboçada por Calvino desembocava nesta região nas malas e nas mentes de estudantes de teologia hávidos por uma transformação que viesse a colmatar os espaços hora deixados pela então esquálida religião católica.
Alhures a falta de estrutura que tais estudantes possuíam, em bem pouco tempo o calvinismo se espalhou por toda Holanda como que um rastro de pólvora. Se podia ver sermões de orientação calvinista em praticamente todas as igrejas sérias da Holanda, algo que naquela época traria como rastro conseqüências peculiares tendo em vista tamanha perseguição por parte da igreja católica que, inconformada com o espaço perdido em tais regiões e, tendo em vista a questão estratégica que a Holanda possuía para expansão de seus interesses, procurava combater de todas as formas tal propagação. Todavia, sem produzir, in loquo, tal atuação.
Eram comuns em centros públicos holandeses o encontrar de huguenotes – reformados franceses – e de homens da estirpe do compositor Datheus e de teólogos como Bogerman, este último famoso por sua atuação no Sínodo de Dort. Mesmo sendo precedido por luteranismo, zwinglinismo e anabatismo fora o calvinismo quem ditou as regras do pensamento teológico holandês dos idos de 1500, isto por conta de seu espírito organizado e de sua notória devoção a liberdade política e espiritual, os quais o levaram inevitavelmente a uma posição de primazia.
O calvinismo propiciou o tipo de religião evangélica capaz de robustecer os nervos de um povo perseguido e caçado. Sua ênfase a soberania absoluta de Deus e a realização de sua vontade a todo custo, era exatamente o que esta terrível hora dos países baixos requeria.
Por conta de sua maciça atuação no combate por igualdade racial, a “Hervormed Kerk” se tornou a igreja estatal. E o calvinismo a região oficial dos países baixos. Como se sabe, este crescimento espiritual fora acompanhado por não menos proeminência material. No campo político este fora o apogeu dos países baixos, mas precisamente da Holanda. Após herdar um vasto império colonial outrora pertencente a portugueses e espanhóis, a Holanda veio a ser reconhecida como uma potência econômica e política.
Culturalmente falando a situação era excelente. No campo das artes tínhamos homens tais como Hals, Vermeer, Van Leeuwenhoek, Boerhaave e Swammerdam. Na filosofia, Espinoza; e no direito Hugo Grotius, conhecido como o pai do direito internacional. Foi justamente na primeira fase desta época dourada que o calvinismo holandês despontou fulgurante em solo americano.

FASE EXPANSIONISTA
            O veiculo utilizado pelos holandeses para dar vazão a sua saga expansionista fora a então conhecida Companhia Holandesa das Índias Orientais a qual fora criada para servir como uma espécie de concorrência para a Companhia das Índias de foro espanhol. Já em meados de 1609 holandeses eram vistos pontilhando solo americano por via dos rios, tais como o Hudson. O centro desta maciça atividade econômica era a então conhecida Nova Amsterdã que após a ocupação inglesa ficou conhecida como Nova Iorque, 1664. Embora a ambição dos holandeses fosse eminentemente comercial, inevitável era a participação da teologia calvinista em suas empreitadas, tendo em vista a grande proporção de adeptos que nesse período era suma maioria em terreno holandês.
            Para tanto, em 1623 era possível encontrar artigos nestes termos:
“Dentro de seu território só será permitido cultuar segundo a verdadeira Religião Reformada... e através de uma boa vida cristã devem tentar atrair os índios e outras pessoas de coração obscurecido ao Reino de Deus e à sua Palavra, sem, contudo, cometer qualquer perseguição religiosa...”  
            O que se extrai de afirmações como estas é que os cultos eram produzidos e levados a termo por vezes reformadas, no entanto, na intimidade de suas casas, os americanos possuíam liberdade para seguiram outras facções teológicas tais como luteranos, católicos, anabatistas e puritanos ingleses.
            Após uma total participação leiga no ministério. O primeiro pregador ordenado na América fora Dominie Jonas Michaelius, da Universidade de Leiden, o qual já possuía experiência missionária e de capelania. O mesmo fundou a Igreja Reformada Holandesa e estabeleceu uma forma presbiteriana de governo eclesiástico.
            Como regras de condutas básicas o grupo adotou ipsis literis os três padrões doutrinários dos Cânones de Dort – a Confissão Belga, o Catecismo de Heidelberg e os Decretos de Dort. As igrejas holandesas americanas eram ligadas ao Presbitério de Amsterdã, um dos presbitérios do sínodo da Holanda do Norte.
            Ao contrário do ocorrido com os puritanos em sua colônia, que experimentaram um vasto crescimento populacional, provavelmente por conta da ênfase dada a pregação da Palavra, uma vez que os mesmos respiravam ares eminentemente espirituais. A colônia da Nova Holanda cresceu vagarosamente. Um dos problemas era a tensão existente entre a igreja e o estado. Por causa de sua orientação calvinista os holandeses procuravam fazer com que a igreja servisse como consciência do estado, enquanto que o estado deveria promover a verdadeira religião. Desta forma fora tamanha a intromissão da igreja nos negócios do estado.
            Um segundo problema fora a má distribuição dos colonos. Em meados de 1626 Nova Amsterdã contava apenas com 200 habitantes e, em 1628 com apenas 270. A população total de colonos americanos, os quais não ofereceram qualquer resistência aos holandeses, era de aproximadamente 8000 pessoas espalhadas por cerca de 33 cidades  e vilas. Tão pequeno crescimento demográfico era atribuído ao total comprometimento da colônia com o comércio e o contínuo medo de represálias por parte da maciça população indígena que, diga-se, era poderosamente hostil naquele período.
            Um terceiro problema para expansão da igreja reformada holandesa na America fora a crônica falta de pregadores. Do período compreendido entre 1631 e 1645 houve tão somente um único pregador residente, Dominie Bogardus. Em 1664 com a tomada da colônia pelos ingleses, havia treze igrejas com seis pastores, mas logo que tal fato ocorreu três destes retornaram para a Holanda, restando apenas três pregadores idosos com idades entre – 62, 70 e 72 anos – os quais ficaram responsáveis pelo cuidado espiritual das igrejas holandesas. Umas das principais razões desta carência era a dependência da Holanda para prover pastores e para treinar e ordenar candidatos ao ministério. Os ministros holandeses, com raríssimas exceções, não estavam muito desejosos de servirem em colônias americanas.
            Uma solução plausível para esta celeuma seria a criação de um presbitério americano. Como a prorposição política de tal empreitada mostrava-se difícil, a solução encontrada para tentar remediar aquela situação fora criar um Coetus (assembléia ou união) de anciãos e ministros que se reunisse periodicamente.
“Para considerar, determinar, dar sentença e estabelecer todos os assuntos e dissensões que possam ocorrer, ou que sejam trazidos diante de nós para ação, pois estando (aqui) no país estamos em melhor posição para julgá-los e para detectá-los e suprimi-los logo no seu início”
            A função precípua desse Coetius era a manutenção da ordem na igreja, muito embora a igreja da holandesa americana se mantivesse plenamente fiel ao presbitério da Holanda. Ao longo de sua história, o Coetus chegou a ordenar de 9 a 10 ministros e manteve a postura de lhes propiciar um treinamento doméstico com vistas ao ministério, através de cadeiras dispostas no King’s College ou Princeton, ou num seminário próprio.
            Os que não concordaram com o Coetus formaram o Conferentie – composto de elementos altamente conservadores e doutrinariamente orientados, homens que insistiam no uso exclusivo da língua holandesa para preservar a ortodoxia e que desejavam manter fortes laços com a igreja mãe. Com isso, a igreja veio a dividir-se em 1755 e só veio a reunificar-se em 1772.
            Um quarto problema fora a ameaça do estabelecimento do episcopado na colônia. Após a assunção inglesa em 1664, fato que fez com que Nova Amsterdã se torna-se Nova Iorque, os ingleses, conforme a Lei dos Duques, permitiram que os holandeses continuassem com sua própria religião,uma vez que os mesmos eram maioria na colônia. Contudo, após um lapso de pequena reconquista holandesa, os ingleses tornaram-se mais hostis a referida causa. Ademais, em 1686, a igreja episcopal propôs o Test Act, o qual exigia que toda pessoa da colônia fizesse menção juramental a coroa inglesa e recebesse conseqüentemente os sacramentos conforme os ritos da Igreja Anglicana, fato que suscitou a suspeita de se estar querendo estabelecer a Igreja Anglicana na colônia, motivo pelo qual os holandeses protestaram veementemente. Por isso receberam publicamente, com vistas a menos conflitos, liberdade para o funcionamento de sua religião, diga-se calvinista.
              Um quinto, e sem sombra de dúvida, mais poderoso problema era a ortodoxia morta e um declínio do fervor religioso. Além da avassaladora influencia da ciência e da filosofia, um intelectualismo formalista invadiu a igreja no final do século XVII e início do XVIII. O que fora sanado graças a uma onda de avivamento que balançol as estruturas da igreja nos idos de 1700. Tal avivamento acabou de vez com o sequitarismo imposto pela univocização da língua holandesa e atraiu um grande número de jovens de fala inglesa ao seio da igreja. Por causa do reavivamento, a igreja experimentou um crescimento que chegou a pelo menos um terço, desta forma, por volta da irrupção da revolução, as igrejas reformadas holandesas contavam com cem igrejas, quarenta e um ministros e setenta mil membros. Ela era a sétima maior denominação da America.
            Ainda assim, a postura outrora assumida pela igreja holandesa, e seu caráter isolacionista em muito contribui para um crescimento aquém do esperado, tanto no caráter religioso como na produção de um meio melhor para seus adeptos. A situação poderia ser resumida da seguinte forma:
Deve-se esperar que o longo período de isolamento étnico promovido pela manutenção da língua holandesa e pela dependência eclesiástica da Holanda tenha ajudado muito pouco a capacitar os holandeses reformados a progredirem na realização do ideal calvinista de Cristo transformando a cultura.
            Desta forma, por cerca de cento e oitenta anos a imigração de holandeses para a Inglaterra esteve paralisada, vindo e ser super aquecida no século XX, quando ocorreu o que passou a ser conhecida nos anais da história como Grande Migração. Entre os idos de 1840 e a irrupção da Guerra Civil, cerca de 20.000 novos holandeses chegaram a America. E após a guerra este número subiu para 55.000.
            Tempo depois, os reflexos da revolução francesa alardearam duramente, bem como o racionalismo, o humanismo e o misticismo; os quais abalaram fortemente a igreja em sua fé ortodoxa. Os calvinistas foram paulatinamente reduzidos ao que chamamos de “remanescente fiel” – que influenciados por pregadores que não se venderam no altar da crítica – encontravam-se em pequenos grupos de oração, num esforça colossal para manterem sua fé incólume.
            O principal acontecimento após este período negro da Igreja Reformada Holandesa da America só veio ocorrer nos idos de 1816. O Rei William I, recebido de volta do exílio, reorganizou a igreja estatal holandesa. Os sínodos, presbitérios e consistórios foram colocados sob a jurisdição do Ministério de Assuntos Internos. A igreja passara a ser dominada pelo estado. A reação a esta tomada de poder e a teologia liberal que a esta altura já colocava suas garras de fora foi a premente manifestação dos pregadores calvinistas sérios que se mantiveram fieis ao ditames da reforma e, acima de tudo, do próprio evangelho. A conseqüência foi a triste separação entre as igrejas calvinistas estatais e as calvinistas dissidentes. Após esta separação, a imigração holandesa a America experimentou mais um boom.

A IMIGRAÇÃO DEPOIS DA SEPARAÇÃO
            A secessão ou separação experimentada em 1834, fora seguida de um forte avivamento experimentado em Genebra. Reavivamento este que graças a estudantes e escritos reformados espalhou-se até a Holanda. Tal momento foi um período de fortalecimento da igreja da Holanda e de seus ideais. Em 1836 a igreja reformada da “velha Holanda” celebrou seu primeiro sínodo. Vindo a adotar os padrões doutrinários dos Cânones de Dort. Aqui, mais uma vez, houve uma grande migração.
            O movimento de migração era necessariamente uma recuperação do calvinismo teológico ou doutrinário. Conforme indicam um sem número de sermões oriundos desse período da história. Foi nesse momento que surgiu na historia da Holanda aquele que talvez tenha sido se maior teólogo, Abraham Kuyper.
            A maioria dos colonos da America, mais precisamente os de Michigan, filiou-se ao partido dos Democratas, um vez que, por estes era bem mais fácil de se conseguir a cidadania americana.
            Neste período as duas principais questões sociais que agitavam a America eram a proibição e a escravidão. No entanto, os holandeses da America, salvo raríssimas exceções, eram anti-proibicionistas. Com relação a escravidão, os reformados holandeses eram unânimes em que era um mal absoluto.
            Enquanto isso na Holanda a igreja havia se tornado terrivelmente liberal. Havia uma negação aberta da divindade de Cristo, de seus milagres, de sua expiação substitutiva, de sua ressurreição física e de sua morte. A igreja estatal perdera completamente o seu caráter doutrinário e ainda assim os interessados no ministério tinham de prometer “promover os interesses do Reindo de Deus”. Figurava indelével neste momento fora Abraham Kuyper, um verdadeiro gigante espiritual. Ele fora um excelente teólogo e um jornalista talentoso, vindo a ser Primeiro Ministro da Holanda, de 1901 a 1905. O ideal de Cristo como revitalizador da cultura o dominou e ele empreendeu a tarefa árdua de revitalizar o calvinismo. Como Kuyper não viu seus apelos de retorno a verdadeira fé reformada atendidos, deixou a igreja estatal e fundou a Doleantie, fato que ocasionou a segunda secessão da igreja reformada da Holanda.  A nova igreja dissidente passaria a se chamar De Nederduits Gereformeerds Kerken.

A IMIGRAÇÃO PÓS-DOLEANTIE
            “Não existe uma polegada da realidade da qual Cristo não diga: é minha”. Frase dita por Kuyper ao tomar posse como reitor da Universidade Livre de Amsterdã, a qual ela havia ajudado a fundar em 1882. Para Kuyper o cristão tinha a responsabilidade de entrar em todas as áreas da vida e reivindicar o senhorio de Cristo sobre elas. Ele procurava julgar o princípio que achava ser central nas Escrituras – a soberania de Deus.
            Sob a égide Abraham Kuyper na produção de teologia, após 1870 a imigração para America começou a renovar-se. A perseguição religiosa já não possuía tamanhos tentáculos, fato com que fez que o novo fator surgisse de causas eminentemente econômicas. Por conta da crise cerca de 53.000 pessoas deixaram a Holanda em direção a America. Fato que só foi mais uma vez experimentado após a Segunda Grande Guerra.
            Estas novas ondas de imigração trouxeram uma nova abordagem ao cristianismo, diga-se bastante salutar, propiciando ao mesmo não apenas um olhar soteriológico sobre o mundo, mas também um cosmológico. Um calvinismo mais integral que buscava reivindicar o Senhorio de Cristo sobre todas as áreas da vida. O calvinismo voltava a ser de fato uma força religiosa.
            O que se seguiu após este ressurgir do calvinismo foi um embate poderoso entre a antiga Igreja Reformada Holandesa e a nova Igreja Reformada Holandesa, ambas caldeando-se para formar a una Igreja Reformada Holandesa. A questão em volta desta aglutinação gerou novos embates teológicos e a questão ao que parece jamais se resolveu.
            Entretanto, deve ficar bastante claro, que a influência da última onda de calvinismo histórico oriunda da Holanda sob a égide de Abraham Kuyper sem sombra de dúvida ainda perdura sob os auspiciosos olhos intelectuais do evangelicalismo de então. Todo o denodo de devoção de Kuyper estão impressos nas mais sólidas instituições americanas e sem sombra de dúvida contribuíram para forjar o estado democrático americano de que temos ciência. Indubitável a participação das demais alas, contudo, seria ingenuidade de nossa parte colmatar a contribuição das duas igrejas holandesas reformadas anteriores e a última a ser trabalhada como faces idênticas da mesma moeda. A história esta ai para nos mostrar claramente que a America, bem como suas fortes e solidas instituições, devem muito a pena de João Calvino e a devoção de homens como Abraham Kuyper.
            Finalmente, é verdade dizer que a influência da Igreja Reformada Holandesa não se restringiu apenas ao solo norte americano. Absolutamente! É notório a poderosa influência que o calvinista de orientação alemã e cidadania holandesa João Maurício, Conde de Nassau, impingiu as Terras de Santa Cruz, mas precisamente a Capitania Real de Pernambuco.
            Tal assunto não é objeto de nossa atual pesquisa, conquanto, não poderíamos deixar de frisar a poderosa administração que este visionário implantou a este amado estado. Não há que se discutir o Pernambuco de antes e de depois da administração dos portugueses, e isto se levarmos em consideração apenas as benesses materiais, as quais, não hão que se comparar as espirituais. Algumas destas obras matérias, imbricadas a história do Recife, seriam:
Convocação da primeira assembléia para decretação da liberdade de culto.                                                                                                                                        Produção da primeira documentação das terras brasileiras. O mesmo documentou toda a paisagem, que retratavam animais, frutas da região.                       
Fez um jardim botânico, um zoológico e ainda ergueu um observatório astronômico.                                                                                                            
Drenou os pântanos, transformando-os em jardins à moda holandesa.           Construiu não um, mas dois palácios na cidade.                               
Construiu a primeira ponte das Américas. Foi feita em madeira e media 318 metros de comprimento. Um prodígio para engenharia do Século XII.  Abriu os portos, construiu um teatro, construiu escolas.                          
Foi ele que inventou a ecologia. Foi decretado por ele que era proibido derrubar cajueiros.                                                                                               
Remodelou e organizou Recife.
Sendo estas apena algumas das contribuições deste Conde reformado ao solo brasileiro. Destarte, é indubitável o caráter mercantilístico da empreitada holandesa no Brasil. Entretanto, é verdade dizer que aquele momento da história era comum, infelizmente, a exploração de terras erroneamente tidas como dominadas – desapropriadas –, contudo, mesmo quase cinco séculos depois, não tem sido essa a política das grandes potências mundiais de orientação reformada/evangélica?

sábado, 19 de novembro de 2011

O SIGNIFICADO DE ALIANÇA E SUA RELEVÂNCIA FENOMENOLÓGICA

Em todas as culturas se tem um entendimento, ainda que tácito, do que venha a significar uma aliança. In illo tempore povos de ascendência nômade demarcavam sua linha de circunscrição a partir de elementos que acreditavam sagrados e apercebidos da realidade advinda destas hierofanias organizavam um espaço que até bem pouco tempo era desprovido de sentido, amorfo.


Com vistas ao aperfeiçoamento deste espaço agora organizado – cosmos – os povos que viveram esta experiência no illud tempus, na iminência de aplacar a ira de possíveis espíritos anteriores a esta organização, os quais se mostravam irados com o novo status quo alcançado pela presença do item sagrado – um totem, um poste sagrado, uma tenda mística, um altar de holocaustos – impingiam as mais variadas formas de castigo aos povos que abitavam seus respectivos “domínios”. Destarte, fora a tentativa de apaziguar estes espíritos que dominavam o espaço habitado por estas tribos que fomentaram a necessidade de “alianças”.

A questão era basicamente esta. Os seres míticos acreditavam que momentos de escassez, mortes por doenças diversas, supremacia de povos/tribos inimigas, catástrofes naturais e coisas do tipo eram produtos da excentricidade dos deuses. Por vezes, na falta de uma maior devoção por parte destes povos (?) os deuses permitiam tais coisas na iminência de fazer com que tais povos lhes conferissem a atenção devida outrora negligenciada – fato típico da mitologia grega.

Com base no exposto é que entendemos ter surgido no seio da humanidade o conceito de alianças conforme depreendemos hoje. Com vistas a dirimir o máximo possível a sempre instável “longanimidade” dos deuses, os povos comumente antecipavam os momentos de calamidades com ritos de adoração que ambicionavam antecipar a sempre presente “cólera” dos mesmos. Desta forma, periodicamente estes povos – na pessoa de seus respectivos xamãs – firmavam compromissos de antecipada devoção – alianças – com seus respectivos deuses. A tônica de tais ritos de adoração era basicamente esta: eles se comprometiam a não negligenciar suas responsabilidades enquanto dominados, desde que os deuses cumprissem com suas responsabilidades de mantenedores da ordem necessária a vida da comunidade na qualidade de dominadores. A questão era simples; os povos faziam compromisso de manterem tenra devoção aos deuses que supostamente os dominavam e com isso se eximiam de amargar as intempéries provocadas pelos mesmos.

Tal tentativa de convívio mútuo envolvendo adoradores e adorados seria uma fórmula certa para o sucesso. Contudo, não é assim que percebemos tal convívio. São inúmeros os casos de catástrofes naturais e massacres de povos inteiros ao longo da história das civilizações. Fatos que nos impõem a obrigação intelectual de nos perguntarmos: em que sentido estes povos que se fizerem tão subservientes em relação aos seus deuses erraram? Porque estes deuses sendo tão apetecidos de adoração não cumpriram com sua parte no acordo firmado por meio das alianças? Simples!

A aliança só possui valor metafísico se partir dos deuses em relação aos homens e nunca se partir dos homens em relação aos deuses.

Sendo assim, onde encontrarmos uma aliança que tenha valor verdadeiramente sagrado? Onde encontrar em meio à história da humanidade uma aliança que possua de fato e de direito a aquiescência de um ser superior?

Ora, o único exemplo de uma aliança com estas características encontramos tão somente no que conhecemos por CRISTIANISMO.

Apenas no cristianismo a aliança parte de Deus em relação ao homem e não do contrário. Aqui é Deus quem cria o homem e o estabelece em seus domínios, fomentando-lhe o essencial a preservação da vida e com Ele firmando uma aliança. Interessante notar que nesta aliança todo o interesse é de Deus em manter o homem na sua presença livrando-lhe com isso de todo o tipo de mal que por ventura lhe pudesse ocorrer. Não há na história da raça humana Deus qualquer que se submeta a satisfação de sua criação sem que com isso a dignidade da mesma venha a ser depreciada. Nesta economia Deus é glorificado por sua suficiência e o homem é preservado pela suprema misericórdia de Deus.

Interessante ainda é perceber que alhures a crassa rebeldia do homem em não reconhecer a misericórdia de Deus e contra ela romper com Ele os laços ora firmados por meio da desobediência (vide Gn 3.1-17), Deus ainda assim prova o seu amor despretensioso para com o homem punindo-lhe com justa medida sua insensatez, mais ao mesmo tempo firmando com Ele um compromisso de restauração que daria sentido ao que chamamos de história da humanidade (Gn 3.15).

Não é objeto “deste” discorrer sobre a sucessão de alianças que O Ser Todo Poderoso firmou com sua criatura. Entretanto, se faz necessário frisar que tal iniciativa da Pessoa Divina em tudo denota a verdade de que é Deus quem encontra o homem e transforma-lhe a vida. Apenas a aliança vindicada na perspectiva cristã produziu resultados positivos para humanidade. Dado seu caráter sagrado por ter origem imanente.

A verdadeira aliança é a que parte Deus.

“Porque esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o Senhor: na sua mente imprimirei as minhas leis, também sobre o seu coração as inscreverei; e eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo” Hb 8.10

O homem por suas próprias forças jamais conseguiria uma aliança com um Deus grandioso assim. Por isso coube ao mesmo agraciar ao homem com sua maravilhosa presença.

A relevância desta aliança aponta para o fato de que sendo Deus o autor e consumador do contato com o homem, este se vê livre pela palavra de um ser que não pode mentir da mais variadas agrúrias que um reles mortal estaria sujeito. Aqui não é o homem que se vê as voltas para livrar-se da excentricidade de um deus, e sim um Deus que promete para sua própria satisfação que protegeria o homem mesmo que esse não merecesse. Esta postura sui generis do Deus de Israel causa uma “dobra” no estudo da fenomenologia da religião por que rompe com o encontrado em todas as demais culturas e desta forma faz com o que o cristianismo seja um divisor de águas no que tange ao estudo das religiões.

O que se percebe a partir da leitura da Bíblia Sagrada – livro que vindica autoridade sobrenatural no cristianismo – é que Deus procura fazer com que o homem perceba que a finalidade precípua da aliança ora aventada não é necessariamente a proteção/satisfação do homem, e sim, a manifestação da Glória de Deus.

“Para que se saiba desde o nascente do sol, e desde o poente, que fora de mim não há outro; eu sou o SENHOR, e não há outro. Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o SENHOR, faço todas estas coisas”. Isaías 45:6-7

“Lembrai-vos das coisas passadas desde a antiguidade; que eu sou Deus, e não há outro Deus, não há outro semelhante a mim. Que anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam; que digo: O meu conselho será firme, e farei toda a minha vontade”. Isaías 46:9-10

Deus está fazendo a sua vontade, executando o seu projeto! Não há que se aventar submissão de IHWH ao homem que é sua criação, mas sim a completa misericórdia do mesmo em permitir a sobrevivência do homem em sua presença sem que a percepção do mesmo altere em nada a magnitude de seu Ser. Percebesse que o sucesso da aliança consiste na manutenção da glória de Deus que; sendo perfeito em todos os seus atributos confere ao homem a graça de permanecer em sua presença, sendo a sobrevivência e proteção do mesmo consequências acessórias ao projeto de Deus e nunca o seu fim.

Portanto, depreende-se que a aliança que Deus firmou com o homem consiste no fato de que a satisfação de Deus na glorificação do seu Ser empresta ao homem a prerrogativa de existir. Não há motivo para existência do homem a distrito da magnificação do ser absoluto de Deus. O que nos infere logicamente que a preservação da raça humana não é o fim último da aliança que Deus firmou com a mesma, e sim, condição mínima de execução de seu projeto que é a manifestação de sua glória sempiterna a seres que foram criados propositalmente com a capacidade de contemplá-la.

Em suma:

“Porque Deus, que disse: Das trevas resplandecerá a luz, ele mesmo resplandeceu em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo” 2 Coríntios 4.6

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

27ª Conferência Fiel para Pastores e Líderes

Estive assistindo as palestras promovidas pela Editora Fiel em sua 27ª Conferência.

O tema desta ditosa programação fora: Evangelização e Missões, proclamando o evangelho para alegria das nações.

Estiveram presentes no evento pregadores conhecidos, tais como: Augustus Nicodemos, Mauro Meister, Silas Campos, Franklin Ferreira, R. W. Glen, John Piper e o decano do evento, o Rev. Stuart Olyott.

Indubitável o nível em que a promoção da glória de Deus fora proclamada ao longo de todo o evento. Como diria o Rev. Piper, tivemos um poderoso exemplo do que entendemos por "exultação expositiva".

Creio que muitos dos congressistas ali presentes, bem como um sem número de pessoas que assistiram o evento do conforto de suas residências, graças a visão de Reindo da Ed. Fiel que o transmitiu ao vivo; foram impactados por sólida exposição bíblica.

Precisávamos de um bom evento em que a pregação fosse o norte. E o tivemos!

Estamos agora equipados com uma motivação oriunda da própria Palavra de Deus que creio nos comissionar ao desfrute prático de cada um dos tomos ventilados por seus respectivos pregadores. Percebemos missiologia em ação ao destilar teológico de pontos em tudo relevantes. Glória a Deus.

Oro para que o Senhor da ceara, como fora tão profícuamente mencionado, glorifique a Ele mesmo em resposta a sua oração de enviar mais ceifeiros. E que a nossa geração tome mais este evento como um alavancar de vocacionados, de fato, apaixonados pela promoção da Glória de Deus para alegria das nações.

Obrigado Senhor, por mais este deleite propciado, e, por todas as benesses agora dele recorrentes.

Que o Senhro seja louvado. Amém!