quarta-feira, 18 de maio de 2011

RESSOCIALIZE

O BICHO

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.



O bicho, meu Deus, era um homem.


Não me deterei em elogios a peculiar percepção de Bandeira porque tenho falado sobre ele há algum tempo nesse espaço - Se bem que é pacífico a todos o apreço que tenho por este corifeu do pensamento modernista brasileiro. Entrementes, levando em consideração a poesia que, grosso modo, é um de meus mais diletos prazeres, confesso, a revelia do que caracteriza o homem médio que; imiscuído em minhas leituras (das mais variadas) e, acima de tudo, em minha vida devocional com Deus, encontro um conforto que dificilmente poderia definir em palavras. Conforto esse que sobrepuja qualquer prazer hodierno.

Desta forma, se estivesse em mim escolher - e graças a Deus que não está - com certeza não sairia de meu escritório. Continuaria por horas a fio naquela comunhão íntima com Deus e, como de costume, me deleitando nas páginas que demoradamente ouso virar sempre que posso.

Não me culpo por isso, essa era a vida que muitos de meus referencias queriam para si, vide Lutero, Calvino, Edwards e outros. O fato é que o conhecimento de Deus e toda a sua ternura que emerge dos escritos dos seus servos, deixam qualquer dos mortais inexoravelmente absorto.

No entanto, se consseguíssemos sorte neste mister, seríamos, preponderantemente, os mais mesquinhos de todos os homens. Isto porque roubaríamos esta mesma alegria - que flui de Deus - dos demais seres humanos. Algo que com certeza Ele jamais permitiria. Assim, plenamente convencido desta verdade, a qual é o âmago do evangelho, tenho lutado contra meus próprios interesses e tenho tentado viver não para mim mesmo, mas para a Glória d'Ele (Gl 5.20).

Destarte, resolvi me dedicar academicamente a maneiras plausíveis de comunicar estas "Boas Novas de grande alegria" de maneira que todos pudessem compreende-la, não importando o contexto em que se encontrassem. Me entreguei completamente a esta causa e mergulhei, tanto quanto pude, nas literaturas que me ajudassem neste sentido.

Ato contínuo, sempre sob a égide de que precisava comunicar o "Reino de Deus conforme o Evangelho de Cristo" (integralmente), e amalgamando esta premissa a paixão que nutro pela antropologia e pela fenomenologia, parti numa viagem maravilhosa pelo campo apaixonante da contextualização, me dedicando, quase que exclusivamente, a culturas alheias e a perspectivas mitológicas. E isto por um tempo considerável.

Ademais, não penso ter errado, absolutamente. Entretanto, creio que amealhado a esta paixão por fenômenos e histórias épicas, eu poderia ter apinçado um pouco da cultura e do momento histórico que me cerca. Digo isto, porque mesmo envolvido em projetos de cunho social e sendo um dos defensores do adimplamento da missão integral no contexto local, me vi surpreendido com o fato de que a realidade que hora vivo, em certa medida, suplanta as dificuldades de muitas das narrativas que aprendi a amar.

Meu ponto é que a reflexão teológica e/ou missiológica, deve ser regada a horizontalidade. Não a teórica, a qual estou acostumado, mas a prática. Sem querer me esconder sobre um verniz de "bom samaritano", me encontro numa espécie de contraproducência no que tange a relação: produção teórica x resposta prática. Talvez, alguém mais próximo de mim, pense ser esta reflexão um tanto dura, contudo, temo que mesmo numa jornada singela, iniciada a muito tempo, não tenha saído ainda de minha "zona de conforto".

Desta forma, resolvi - para usar um termo de Edwards - aplainar verticalidade e horizontalidade, não porduzir uma em detrimento da outra. Resolvi ser "relevante" de fato, como creio serem relevantes as pessoas que buscam esta postura. Quero produzir uma teologia ortodoxa que tenha o aroma de minha geração, a originalidade que requer o momento. Tal postura sempre esteve em meu coração, e, de fato, eu pensava vivê-la, mas, se a vivi, não foi com a intesidade com a qual quero ser lembrado.

Portanto, enquanto estiver em mim, quero me instrumentalizar na ambição de produzir e/ou executar uma teologia que dirima a quantidade de "bichos" a semelhança do percebido por Bandeira no texto supra. Quero ser uma resposta "real" a necessidade aguda de uma sociedade materialista que não sabe a diferença entre dignidade e miserabilidade, ou que se sabe, simplesmente não se importa.

Quero lutar para não sentir esta mesma morbidez da próxima vez que vir uma foto como a que estampa este texto. Quero ser de fato sal e luz. Quero ser uma resposta. Quero ser relevante. Quero contribuir com tudo o que sou para o fim de tanto sofrimento.

Oh Senhor! Ajuda-me, ele não é um bicho, é um homem!!! Que mundo é esse? 

 

domingo, 15 de maio de 2011

O CÍRCULO DE ERANOS

O Círculo de Eranos é um marco na história do pensamento humano no que tange a produção científica de textos fenomenológicos e antropológicos. Este seleto grupo de eméritos pesquisadores das áreas da ciência da religião, psicologia, história da religião, mitologia e fenomenologia; se reunia num dos mais aprazíveis cenários mundiais, o Lago Maggiore, em Ascona, Suiça.

O círculo teve seu gérmem através da paixão quee Olga Froebe-Kapteyn (1881-1962), grande erudita de ascendência inglesa, nutria pela manifestação do sagrado e consequentemente por seu estudo. A primeira reunião ocorreu num momento de crasso anacronismo político no cenário mundial. Não obstante uma série de avanços nas áreas das ciencias humanas, a sociedade amargava um período de intensa inconsistência bélica, a saber, o nacionalismo facista e o marxismo comunista. Foi neste clima funesto de intrigas políticas que em 1933 o círculo se reuniu pela primeira vez.

A palavra "eranos", de origem grega, significa "comida em comum". A própria etimologia da palavra aponta para o motivo de tão conspícua reunião, quiçá, uma reflexão pungente no campo dos conflitos ideológicos que grassavam a sociedade de então. Ademais, o pano de fundo teórico também não dispensava o arquétipo supracultural que a hermeneutica de então trazia a tona, fruto da discussão que emergia dos citados campos de estudo que emblemavam os componentes do círculo.

Destarte, o círculo também tinha como meta a aproximação epistemológica dos vários ramos do estudo do sagrado, fato que legitimava o símbolo escolhido por seus componentes, a saber, o deus pagão Hermes, o qual significa a conjunção de caminhos opostos. Tal conjunção de caminhos ambicionava a manifestação de um sentido para as irrupções arquétipas por meio de uma hermeneutica simbólica. Sendo esta a principal atuação do círculo.

Após 1933, as reuniões cotinuaram a acontecer uma vez por ano sempre no mês de Agosto e perduraram por, pelo menos; 70 anos, quando vieram a se extinguir. A cada ano um novo tema era proposto e cada participante tinha oportunidade de se manifestar e expor suas idéias, contribuindo, desta forma, para o "banquete de idéias".

O Círculo de Eranos é seguramente o mais notável dos grupos que já surgiu nestes moldes, a revelia de meu interesse pelo tema, tenho neste seleto grupo boa parte de meus teóricos favoritos, e, não obstante o fato deles estarem sendo lembrados neste texto in memorian, ressalto a relevância que cada um deles, em seus respectivos campos de pesquisa, trouxeram para o desenvolvimento da humanidade em geral.

O Círculo de Eranos, com mais algumas peças (que infelizmente não foram contemporaneas dos fatos), seria, a meu ver, uma espécie real do que chamaria de "Banquete".

O grupo original era formado por:
Henry Corbin,
Mircea Eliade,
Gilbert Durand,
Joseph Campbell,
Haya Kawai,
Karl Kerenyi,
Laurens Van Der Post,
Gershom Sholer,
D. T. Suzuki,
Victor Zukerkandl,
Heinrich Zimmer.

Fontes:

Revista Anthropos, nº 154.

Enciclopédia Livre,

www.adepac.org

sexta-feira, 13 de maio de 2011

MINHAS IMPRESSÕES SOBRE JOSEPH CAMPBELL, E O PODER DO MITO

Sendo uma das maiores autoridades do mundo em mitologia, Joseph Campbell nos legou um exemplo insofismável de que mente e coração podem, perfeitamente, andarem juntos. Novaiorquino de nascimento (1904), Campbell cresceu numa cidade interiorana e teve acesso a todas as benesses oriundas do poder aquisitivo da então emergente classe média. Desde tenra idade, o frágil Campbell sempre se mostrou suscetível a história e ao conhecimento popular de sua época, se interessando por contos folclóricos e, sobretudo, pela história dos índios que antecederam os primeiros ingleses a aportar no "Novo Mundo".

A partir de então, o mito e todas as suas implicações se amalgamaram de maneira tão pungente a vida do jovem Campbell que, não mais o deixaram até o dia de sua morte (1987). Para ele, mitologia não era um tatalar de histórias fictícias e incongruentes, não era a apelação objetiva de uma "ciência" emergente e, até então, aparentemente sem objeto, mas, o descobrir de uma "épica aventura".

Para Campbell, mitos deveriam ser estudados por pessoas apaixonadas e altruítas, pessoas que tivessem sensibilidade para sentir a brisa que emanava do Egeu durante as viagens de Odisseu, que sentíssem o respirar ofegante de Hércules em meio a seus exóticos "trabalhos", que perdessem o fôlego na fúria de Posseidon, que sentíssem o cheiro das matas intocadas dos muitos mitos nativos dos índios espalhados pelas américas, que preferissem sede excruciante a se dobrar ao Ente, que se deleitassem nas doces águas de Emnemosine, e que jamais perdessem o gosto por uma nova aventura [...]. Esse, em minha humilde opinião, seria, na perspectiva de Joseph Campbell, o perfil de alguém que gostasse de mitologia.

Destarte, em seu opúsculo "O Herói de Mil Faces", Campbell nos conduz aos sonhos que jazem nas mentes daqueles que se recusam a perder de vista a natureza lúdica da vida. Daqueles que insistem em não se render perante o secularismo ceticista que impimge nas mentes de nossos jovens a equivocada idéia de que mito e falácia são sinônimos. Nas páginas deste ditoso livro ovacionado pelo campo da fenomenologia, é possivle se ouvir um grito latente que se manifesta nos dizeres: "Fora com um pensamento assim tão pobre de espírito; tão vazio de vida". Não obstante serem os mitos, culturalmente falando, os balizadores do desenvolvimento social de todas as culturas hodiernas.

Ademais, falar de mito para Campbell era falar de vocação, dizia ele:

 "Vá em frente, viva a sua vida, é uma boa vida - Você não precisa de mitologia. Acredito que se possa ter interesse por um assunto só porque alguém diz que isso é importante. Acredito sem ser capturado pelo assunto, de uma maneira ou de outra. Mas, você poderá descobrir que, com uma introdução apropriada, o mito é capaz de capturá-lo. E então, o que ele poderá fazer por você, caso o capture de fato?"

 Resposta, melhorará a sua vida! Lhe dará novos óculos para ver o mundo! Este é o poder do mito.


Não obstante, amiúde a idéia de "história fictícia" a que estamos acostumados e, corroborando a posição de Campbell, Mircea Eliade (1907-1986), acredita que o mito precisa ser estudado como uma "verdade". Não a sua verdade necessariamente, ou mesmo a verdade de sua cultura, mas, sobretudo, uma verdade que você precisa alcançar, compreender e respeitar. Opino que este posicionamento de Eliade, em pleno despertar do pensamento contextualizado do século XX, revolucionou a academia.

Ato contínuo, analisando conjuntamente as perspectivas destes diletos autores, percebo um "divisor de águas" no campo da contextualização bíblica. É indubitável a mudança de foco que estes argumentos produzem em nosso entendimento de comunicação cultural. Neste íterim, o missionário (comunicador) deixa de ser um espécie de destruidor cultural das sociedades que deseja alcançar, e passa a ser um estudioso de verdades que, se bem aplicadas, produziram uma ponte sólida para que o evangelho possa transformar sem, necessariamente, mutilar. Nas palavras de Campbell, "mitos são pistas para as potencialidades espirituais da vida humana". 

A bem da verdade, é cedo para percebermos porosamente as mudanças que tenho objetado. Entretanto, o momento é alvissareiro. 

Finalmente, num mundo em que os novos heróis estão morrendo de inanição, que fique claro a todos as culturas a laboriosa contribuição de Joseph Campbell ao estudo do homem e suas implicações culturais e metafísicas. São pessoas da estirpe de Campbell, que nos asseguram que a beleza dos contos jamais se perderão, enquanto jovens idealistas houver. Eu creio em heróis! 


Enciclopédia Livre
O Poder do Mito, Joseph Campbell
O Herói de Mil Faces, Joseph Campbell

segunda-feira, 9 de maio de 2011

UMA MENTE A SERVIÇO DO REINO, WILLIAM TYNDALE

Servo extritamente abnegado e de uma piedade peculiar, assim resumiria William Tyndale (1484-1536). Tyndale nasceu em Gloucestershire, Grã Bretanha, num período em que a verdade das Escrituras encontrava-se obscurecida pela ostentação e pela falibilidade da igreja católica - até então detentora suprema da "interpretação" bíblica. Poderosamente influenciado pelos ideais reformados, Tyndale foi o homem utilizado por Deus para colocar a Bíblia nas "mãos" do povo de fala inglesa.


Em meados do século XVI, pós reforma protestante, era lastimável a situação espiritual que grassava o Reino Unido e partes da Europa. As pessoas viviam em polvorosa a procura de orientação espiritual, ambicionando paz para suas vidas carcomidas pelo medo da morte e do inferno, os quais, tendo em vista as péssimas condições de vida da época, eram assuntos sempre recorrentes.



Amiúde a pobreza crônica da época, os sacerdotes, descendentes diretos do "legado apostólico", viviam de ostentação e luxúria, pouco se importando com a realidade do povo. Ademais, a obscuridade da época e a sempre presente incerteza espiritual, fazia com que o povo, hávido por segurança, se submetesse a todos os caprichos do clero, os quais, variavam desde grandes penitencias místicas, até a venda de indulgências e salvo condutos do limbo, purgatório, e, até mesmo do próprio inferno.



Toda e qualquer pessoa que se insurgisse contra este funesto comércio era prontamente perseguida (vide reforma). As penas, geralmente oriundas do que seria conhecido posteriormente como Tribunal do Santo Ofício, variavam entre flagelos, votos de silêncio, excomunhão e, não poucas vezes, até a morte. O clima era de total desassossego. Muitos mártires surgiram neste período de crasso anacronismo no seio da Igreja Cristã.



Destarte, foi neste clima de incertezas e desconfianças que uma das mentes mais brilhantes da história do cristianismo entrou em cena. Mestre em Artes pela Universidade de Oxford e um dos mais proeminentes acadêmicos ingleses, William Tyndale, insurgiu-se contra a política obscurantista da igreja da época e, contra todos os reveses que lhe foram impingidos pelo sistema, intentou e corajosamente conseguiu fazer com que "os camponeses conhecessem a Bíblia melhor que muitos clérigos", sendo providencialmente ajudado pela utilização da imprensa.



Respirando ameaças e a própria morte, Tyndale, que a princípio iniciou o trabalho de tradução da Bíblia ainda na Inglaterra, por causa da perseguição que lhe seguiu, teve que refugiar-se na Bélgica. Por muito tempo foi alvo do ódio oriundo de Henrique VIII que, grosso modo, enamorado por Ana Bolein, apenas abstraía em Tyndale seu exdrúxulo modo de viver. Foram muitos dias de exílio e solidão em prol de um ditoso e glorioso ideal, os quais resultaram numa das mais belas traduções da Bíblia para língua inglesa.



Nos diz a história - conforme é pacífico - que após uma emboscada das mais vis, Tyndale finalmente foi preso e levado manietado até ao tribunal, onde tenazmente recebeu a sentença de morte, sendo executado na fogueira em meados de 1536.



Finalmente, como um humilde adimirador dos grandes exegetas e tradutores bíblicos, tenho em Tyndale o expemplo de um grande estadista do Reino. Exímio conhecedor do grego e profundo conhecedor do que ficou conhecido como novo ingês, este homem piedoso nos deixou um poderoso legado de abnegação e amor pelas Sagradas Escrituras. Sobretudo por suas últimas palavras, proferidas ao então monarca que beligerantemente ordenou sua execução, "Senhor, abre os olhos do rei da Inglaterra".



Infelizmente, Tyndale não sobreviveu para ver o cumprimento de sua oração, concretizada cerca de um ano após sua morte, quando o puzilânime Henrique VIII, autorizou a publicação e consequente averbação da Bíblia de Tyndale como texto oficial da nova Igreja da Inglaterra.


Fontes:


Filme, O Fora da Lei de Deus.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

FORÇA RIO!


Como todos já sabem, uma tragédia acometeu a região serrana do Estado do Rio de Janeiro. Milhares de pessoas de todas as partes do país e do mundo estão unindo forças para auxiliar os nossos amados irmãos.

Cabe a você ajudar também!

O governo do Rio de Janeiro está recebendo donativos através de postos de arrecadação distribuidos em alguns postos da Polícia Rodoviária Federal, Batalhões da Polícia Militar, Supermercados e através de contas e bancos.

Além destes meios, a ONG Viva Rio disponibilizou uma conta junto ao Banco do Brasil para as medidas emergenciais C/C 411396-9 AG 1769-8. A prefeitura de Teresópolis também abriu uma conta bancária no Banco do Brasil com o nome “SOS Teresópolis – Donativos”, ela está disponível na agência 0741-2, com o número 110000-9. Vale salientar que ambas as contas estão recebendo qualquer quantia.

Eu e minha igreja já fizemos nossa parte. Procure fazer também a sua, para que possamos "viver o Reino de Deus, conforme o Evangelho de Cristo".

Deus abençoe nosso amado estado.

Força Rio!

domingo, 7 de novembro de 2010

SITUAÇÕES INEVITÁVEIS


Após algum tempo sem escrever... venho com palavras que, em muito, divergem das que estou acostumado a compartilhar. Entretanto, como sempre, escrevo sobre o que tenho.

Consoada

Quando a Indesejada as gentes chegar
(não sei se dura ou caroável),
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:

- Alô, iniludível!

O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta, com cada coisa em seu lugar.



Ah, querido Bandeira...
Você sabe o que sentimos agora. De fato não é bom escrever sobre nossos receios. Já dizia Pessoa:

Num desolado alvoroço
Mais que triste não me ignoro.
Hoje em dia apenas choro
Porque já chorar não posso.


Os pensamentos destes baluartes da poesia denotam algo interessante – As pessoas possuem as mais diversas maneiras de reagir ao inevitável. Estes dias algo parecido aconteceu. Uma irmã. Amiga. Aluna. Por estar saudável, adoeceu. Inevitavelmente. Uma das veias que oxigenam seu cérebro veio a se romper. Neste momento ela está inerte em uma cama de hospital, inconsciente. O coma não permite maiores detalhes.

Como iniciei, foi, de fato, como reagi. Diante de inditosa notícia, pensei – Há de ser, mais uma vez, a “Indesejada de todas as gentes”. Esta inditosa credora, “iniludível”. Mas, ela não foi feliz. Há vida. Há esperança. Tudo acontecerá conforme a vontade absoluta de Deus, inexoravelmente. Entretanto – graças há Deus! Em poucos segundos, outra verdade me ocorreu.
- A iniludível encontrou,

[...]lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta, com cada coisa em seu lugar.


Tudo estava em seu devido lugar! Ah, certeza maravilhosa! As reações foram as mais variadas. Cada um de nós reagiu à nova de maneira diversa. Contudo, cessado o rubor do inesperado, uma certeza. Tudo estava em seu devido lugar. Foi o que ouvi do meu querido aluno, que por sinal é marido, e, também, companheiro de seminário da pessoa em tela.

- Está tudo bem, Deus está no controle.
- Está tudo bem.

Minha reação instantaneamente mudou... Glória a Deus!
É bem verdade que a forma de sentir continua lúdica, contudo a motivação é outra. Nada de armaduras, estereótipo dos insensíveis. Mas, sensatez. Aprendi a chorar com os que choram, se bem que minhas reações não me furtaram a sobriedade do momento. Todavia,

Hoje em dia apenas choro
Porque já chorar não posso.


Obrigado, meu Deus querido, por me permitir amigos tão caros. Dá-nos forças...


1 - BANDEIRA, Manoel, 1886-1968. Manuel bandeira: uma antologia poética.

2 - PESSOA, Fernando,Fernando Pessoa: Mensagem.

domingo, 18 de julho de 2010

SHUTRUK-NAHUNTE, QUEM?


Shutruk-Nahunte I foi um líder elamita. Em meados de 1158 a.C. colocou a região de Elam (atualmente no sudeste do Irã) em seu apogeu.

Pouco se conhece da história de Shutruk-Nahunte. Filho de Hubannumena (Haludusinsusinak), pai de Kutir Nahunte II e o iniciador da dinastia Shutrukkides ou Shutrukida (Haludusinsusinak, Shutruknahunte I, Kutirnahunte II, Silhakinsusinak I, Huteludusinsusinak, Silhinahamrulagamar, Humbannumena II, Shutruknahunte II, Shuturnahunte I, Aksirnahunte Aksirsimut). Sabe-se também que ele foi rei da Anshand e Susa, sendo assim soberano da região de Elam durante 1180-1155a.C. Destruiu a cidade de Sippan (Sippar) com o "comando" do seu Deus Inshushinak. Acreditava também na deusa Napirisa (Kiririsha) tendo levantado um templo à ela em Liyan. Capturou muitos itens e levou para Susa, dentre eles as estelas de Hamurabi da Assíria e a estela de Naram Sin (Nirah-Sin) da Acádia, esta última foi levantada em homenagem ao seu Deus Inshushinak.

Shutruk-Nahunte é citado no filme "The Emperor's Club" (O Clube do Imperador, Universal, 2002), onde um professor de história o cita justamente por ser alguém que fez grandes conquistas por puro egoísmo, de forma que foi esquecido pela história. Shutruk-Nahunte também é citado no filme "Dead Poets Society" (Sociedade dos Poetas Mortos, drama estrelado por Robin Williams). Também, graças a sua qualidade de conquistar territórios sem porpósito algum [1]

Sucintamente, esta é a história de Shutruk-Nahunte. Um rei que em sua geração sobrepujava a todos. Por falta de notoriedade em seus feitos, o fato que melhor tem concorrido para posteridade é uma antiga citação que, segundo consta, foi proferida pelo mesmo.

Eu sou Shutruk-Nahunte, Rei de Anshand e Susa, Soberano da Terra de Elam. Sob o comando de Inshushinak, eu destruí Sippar, capturei a estrela de Nirah-Sin e a levei de volta a Elam onde eu a plantei como uma oferenda a meu Deus Inshushinak”. Shutruk Nahunte - 1158 A.C[2]

Diante deste arroubo de relevância, o mundo grita – e daí? O fato é que Shutruk-Nahunte, quando lembrado, é sempre sinônimo de egoísmo, de irrelevância. Tudo porque, enquanto governante, ele jamais se preocupou com os outros, mas, apenas consigo próprio, e, no afã de conseguir sempre mais, acabou por construir um grande império, só que erigido sobre um monturo de trivialidades. O que prova que, quando nossas atitudes não vislumbram um bem maior, elas são sempre fulgazes, efêmeras.

Nossa geração está repleta de homens à semelhança de Shutruk-Nahunte. Homens que andam as voltas com seu poderoso “umbigo”, e que vivem aquém da realidade que os cerca. Pessoas deste tipo estão sempre a procura de auréolas, de projeção celestial. Com suas vidas procuram a todo custo ofuscar a Glória sempterna do Todo Poderoso. Enrredam-se pelo pior de todos os erros. A paixão pela glória.

O fato é que Deus não compartilha de sua Glória com ninguém. Aqueles que escolhem este caminho, averão de encontrar-se com Caim, Balaão e Corá (Jd 11). Ai deles, pois, este caminho é caminho de morte.

Todavia, aqueles que em sua vida ambicionaram a projeção de outrem, sempre serão lembrados. Não como vassalos, mas, como idealizadores de um novo mundo. A história sempre é benévola com os coadjuvantes.

No campo espiritual, não é diferente. Nós temos aprendido assim – a quem honra, honra. Não se trata de retribuição, mas, de uma circunstância natural – somos aperfeiçoados para as boas obras. Todo aquele que vive, enquanto servo de Deus, não vive mais de maneira amorfa. Ele agora passa a ser uma pessoa de mente transformada, que possui a única missão de transformar todo o espaço em que vive, de modo a impactar e beneficiar a vida dos demais, não para deleite próprio, mas, para alegria dos demais e, inevitavelmente, para Glória de Deus.

Por isso, Shutruk-Nahunte não têm parte nesta extirpe, uma vez que, ele vivia para sua própria glória e, apesar dos reveses da vida, conseguiu. Só que como a luz que ele produzia só brilhava em si mesmo, com a sua morte, sua luz também se foi, apagou-se, nada mais restou, apenas vaidade. Em seu vexame, Shutruk-Nahunte me faz lembrar um pensamento de José Ingenieros[3]:

A popularidade ou a fama costumam dar, transitoriamente, a ilusão da glória. São suas formas expúrias e subalternas, externas porém, não profundas, esplendorosas mas fugazes. São mais que o simples êxito, acessível ao comum dos mortais, porém são menos que a glória(...) São ouropel, pedra falsa, luz de artifício. Manifestações diretas do entusiasmo gregário e, por isso mesmo, inferiores: aplauso de multidão, com algo de frenesi inconsciente e comunicativo. (...) tais aspectos caricaturescos da celebridade dependem de uma aptidão secundária (...), ou de um estado acidental da mentalidade coletiva. Amenizada a aptidão, ou transposta a circunstância, voltam a sombra e assistem am vida seus próprios funerais. Então pagam caro sua notoriedade; viver em perpétua nostalgia é o seu martírio”.

Diante da bela explanação de Ingenieros, reflita. Vale mesmo a pena afadigar-se em busca da própria glória? Como você será lembrado? De que forma será julgado?

A bíblia está repleta de testemunhos de homens que lutaram a todo custo para se perderem em Deus, para tributarem a Ele toda a glória por seus feitos. Homens que fizeram tudo o possível para passarem disapercebidos pela história, e que até acharam que haviam conseguido, todavia, aprouve a Deus conseder-lhes lugar de honra e, na cruciante batalha em prol da manifestação da glória de Deus, jamais serão esquecidos, porque “Deus não se envergonha deles, de ser chamado o seu Deus” Hb 11.16.

Todos nós vivemos por um único motivo, a manifestação da Glória de Deus, nunca a nossa. Não caia no erro de Shutruk-Nahunte. O tempo urge. Aproxima-se o dia em que você ouvirá – “Vinde benditos de meu pai!” (Mt 25.34) ou – “Shutruk-Nahunte! Chegaram os que faltavam!”.

A partir de agora é com você! Seja utilizável, abençoe, sirva, viva! Em ti serão benditas todas as famílias da terra!

[1] Enciclopédia Livre.

[2] Encontrando todos os deuses.

[3] INGENIEROS, José O homem medíocre/ 1ª Ed. Curitiba: Juruá, 2009.