segunda-feira, 12 de julho de 2010

LIBERDADE, PARA QUE?


Graças, porém, a Deus, que, em Cristo, sempre nos conduz em triunfo” (II Co 2.14a). Não existe nada melhor que ser conquistado por Cristo, vencido por Ele, subjugado pelo seu poderoso poder, agrilhoado pelas correntes do Evangelho. Pode soar estranho, pois, diante das minhas afirmações, prontamente nos vem à mente o poderoso texto de Gálatas 5.1Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes e não vos submetais, de novo, a jugo de escravidão”. Então pensamos, se Cristo nos conquistou para gozarmos de inteira liberdade n’Ele, como agora podemos dizer que temos prazer em nos encontrar cativos de seu imenso poder, este mesmo que nos libertou? A resposta a esta pergunta é o ápice do cristianismo como estilo de vida.

Se não vejamos. Para que haveremos de querer ser livres? De que nos adianta reivindicarmos liberdade? Não é esta a premissa de nossa geração? Liberdade. Mas, liberdade para que? Meditando sobre estas questões cheguei inevitavelmente a uma conclusão. Não quero ser livre. Eu não agüento nem ao menos pensar em ser livre. De fato, odeio tão somente a possibilidade de poder escolher por qualquer coisa.

Mas, de onde me vem tanto receio? É simples. Ao fazer uma breve reflexão, descobri que, todas as vezes que procurei (se é que é possível) viver de acordo com minhas convicções, apenas me decepcionei, e invariavelmente consegui mais problemas com que me preocupar. Descobri que neste mundo funesto, não existe nada mais aprazível, mais sublime, mais apaixonante que viver sobre a poderosa intervenção de Deus. De modo que, toda minha vontade fosse perdida em sua vontade absoluta, sem que ao menos eu tivesse um simples vislumbre de como poderia ser se, ao menos, eu pudesse opinar.

Vivendo sobre minhas convicções, eu acordava pela manhã e, às vezes, sentia-me feliz. Mas, bastava o dia timidamente começar e lá estava eu perdido em meus afazeres, alheio a centelha de felicidade outrora experimentada. Prontamente perguntava-me: Como a felicidade passou por mim sem que a agarrasse, sem que me deleitasse mais efusivamente nela? Por que cargas d’água não me sinto mais absorto em Deus, meu único deleite? Simplesmente, o dia, naturalmente, o absorveu. Inconscientemente eu apenas vivia, sem culpa alguma, eu apenas vivia. E inexoravelmente, em minha vida, bem vivida, alheia ao pecado e sujeita a ele em termos acidentais, as tarefas me roubavam d’Ele, simplesmente.

Quando, pois, percebia o terrível abismo que me espreitava, resolutamente procurava me recompor, lembrar-me de onde inexplicavelmente eu havia caído e, como um corifeu da fé, recomeçava a minha jornada épica em busca de plena satisfação em Deus. Ato contínuo, momentos depois, recomeçava tudo de novo. “Esmurrava o meu corpo” em busca dos paladinos que me serviam de exemplo, e para meu total desgosto, sempre encontrava-me aquém de suas mais tímidas empreitadas.

Diante desta situação, mais parecia com um discípulo de Sísifo, que de Cristo. Achava que estava em mim o querer, o buscar, o entender – esforçava-me. Que ingênuo fui. A partir de então, em meio a angústia de não encontrar a plena satisfação que perseguia, resolvi entregar-me, completamente, nas mãos de Deus. Sábia decisão! Iniciava-se minha saga por compreensão, sempre regada a mais tenra espiritualidade e a mais singela dependência. No meio do caminho encontrei-me com o Pr. Hernandes Dias Lopes e com o Pr. John Piper, já quase convencido de que algo novo poderia encontrar-me, encontrei-me com Paulo, e, a partir dele, com Cristo. Só que agora, em fim, e porque não finalmente, com uma nova compreensão.

Descobri, com estes homens experimentados, que Deus encontra-se mais glorificado quando estamos mais satisfeitos n’Ele. Que inevitavelmente viveremos plenamente satisfeitos se buscarmos a duras penas a satisfação de Deus, a manifestação sempiterna de sua glória; e não a nossa própria alegria e deleite. Percebi que ingenuamente eu freqüentava a igreja na iminência de fazer-me feliz, de me satisfazer, de viver mais um culto cheio de vida e sair dali alimentado com sólido alimento espiritual – Esquecia-me de minha única utilidade, o motivo que da razão a minha existência e a tudo o mais, a glória de Deus. Nesta perspectiva, descobri um novo sentido para o termo liberdade, a saber.

Ser livre é ser feliz, e felicidade é encontrar satisfação, e satisfação só encontramos em Deus. Após esta humilde e talvez óbvia observação, resolvi usar minha tão cara liberdade para tornar-me um escravo. Deliberei em meu coração usar todas as minhas forças para conseguir ser aceito na lida de Cristo, em sua “senzala” (permitam-me o termo, a pesar de sua inditosa conotação). Tenho buscado para mim, ser um escravo a semelhança daquele que culturalmente conhecemos, entretanto, não pelos mesmos motivos. Os escravos que conhecemos, e que penosamente foram injustiçados pelos prazeres avaros dos homens ignóbeis e vis em seus projetos ardilosos, serviam contra sua vontade e, a todo custo (mesmo com o da própria vida), procuravam fugir e encontrar guarida noutras paragens (Quilombos), sonhavam em ser livres, em voltar ao seio da bendita e amada liberdade. Eram homens e mulheres de valor, guerreiros de denodo pungente, humanos a mais sensível semelhança que qualquer outro. Entretanto, eu, “quero” ser um escravo. Não quero ter vontade própria, escolher quais serão minhas atividades, o que terei de comer ou mesmo o que terei que vestir – Quero a penas depender, obedecer, perder-me inteiramente na vontade de meu Senhor, escravizar-me.

Tudo isto, para ter a certeza que jamais me imiscuirei em meus próprios desejos, em meus próprios projetos. Para poder ouvir a tenra voz de meu Senhor a me ordenar nas coisas mais simples. Pois, ao contrário do sempre vil senhor de escravos que clivou os anais da história com suas práticas vexosas, o meu Senhor, vitorioso em me dominar, “sempre me conduz em triunfo”. Ou seja, meu Senhor tem prazer em me conduzir perante todos os homens como seu escravo (cativo pela batalha travada na cruz) e na mesma proporção eu tenho sublime deleite em me ver agrilhoado pelas garras da graça (que tanto me orgulham), acompanhando a pouca distância meu amado amo em vista de todos. Pois, para glória de Deus, percebi que, quando em fim perdi minha vida em Cristo (Mt 10.39), a encontrei. Percebi que deixando de viver para mim mesmo, e tornando-me cativo a vontade de Cristo, a felicidade não mais me abandonou, tornou-se eterna.

Pois o meu Senhor é a maior dádiva a que se pode ter, a maior alegria que se pode achar, o maior dom do Evangelho. Ele, sendo suserano, de que terei falta?(Sl 23.1) Oh, prefiro perder-me a vontade n’Ele, pois, “Ele me fará ver os caminhos da vida; na sua presença a plenitude de alegria, na sua destra, delícias perpetuamente” (Sl 16.11).

Concluo – Se Cristo sempre nos conduz em triunfo, vos indago: Liberdade, para que?






terça-feira, 6 de julho de 2010

CARGO CULTS.


O Cargo Cults ou Culto de Carga é um tipo de prática religiosa que pode aparecer em sociedades tribais tradicionais. Os cultos estão centrados na ostentação da riqueza material da “cultura avançada”, através de pensamentos mágicos, rituais religiosos e práticas místicas. Os nativos que cultuam desta maneira acreditam que as riquezas pertencentes aos “brancos” eram destinadas a eles por seus “deuses e ancestrais” [1].

Na região do Congo, pode-se observar um exemplo clássico desta prática. Por estas cercanias, existe um mito que diz que por ocasião da independência do país (em suas lutas étnicas), em algumas aldeias os indígenas retirarão os tetos das casas, a fim de dar passagem as moedas de ouro que seus ancestrais farão chover (...) Em meio ao abandono geral (por parte das autoridades e dos próprios nativos que deixam suas habitações sem qualquer manutenção), apenas os caminhos que levam aos cemitérios são conservados, a fim de permitir que os ancestrais cheguem a aldeia. Percebemos neste mito ainda outra prática comum, pois, os recorrentes excessos orgiáticos significam, segundo o mito, que ao despontar desta nova era fundada com o Cargo Cults, todas as mulheres pertencerão a todos os homens [2].

Em meados do século XX, uma idéia melhor burilada deste mito passou a figurar em meio aos círculos acadêmicos. Os eruditos procuravam uma explicação mais plausível a manifestação cultural em tela. A partir desta premissa, novas teorias a respeito do surgimento deste rito foram surgindo, dentre elas destacamos a que diz que com a aproximação do homem branco (usamos esta nomenclatura apenas como uma forma de diferenciar o nativo do visitante) em território nativo, este último percebeu que os visitantes recebiam suas “encomendas” (cargas) através de navios ou aviões. Assim, os nativos, por não compreenderem a origem destas cargas, mais reconhecendo seu valor pecuniário, acabavam por atribuir estas remessas a entidades espirituais, o que inevitavelmente fomentou o tipo de culto que ora analisamos.

A maneira que os eruditos encontraram para substanciar suas conjecturas lhes foram advindas dos próprios nativos que em seu zelo pela acolhida da “carga sagrada” abriam clareiras nas selvas numa espécie de imitação dos aeroportos onde as “canoas voadoras” poderiam pousar com suas cargas sagradas; além destes pseudoaeroportos encontraram ainda a elaboração fictícia de rádios, equipamentos de comunicação, roupas características dos pilotos e marinheiros, e até réplicas de aviões talhadas em madeira. Tudo isso, servindo para provar que este mito não tinha origem “in ilo tempore”, mas, na chegada do visitante que deveras avançado exercia forte influência em meio à cultura nativa invariavelmente menos desenvolvida. Todas estas manifestações culturais serviram como prova do gérmem do Cargo Cults.

O fato que nos chama atenção e que nos impulsiona à escrita deste artigo é a premissa de que este mito pode servir como uma ponte para comunicação do Evangelho. Esta exótica manifestação cultural, mesmo em meio a este aparato “fantástico” pode ser revertida em Glória a Deus. Se não vejamos, diz o mito que no tempo da libertação, quando o deus tribal local enfim triunfar sobre todos os seus adversários, então, a “Carga Sagrada” será o coroamento da vitória e apontará para o triunfo final de todos os que esperaram esta dádiva advinda do céu. Esta crença corrobora o que foi idealizado a muito por Mircea Eliade, que mesmo não pensando numa perspectiva cristã, muito tem contribuído para o estudo das culturas religiosas. Segundo ele, em suma, os mitos descrevem as diversas, e algumas vezes dramáticas, irrupções do sagrado no mundo. É essa irrupção do sagrado que realmente fundamenta o mundo e o converte no que ele é. É em razão das intervenções dos seres sobrenaturais que o homem é o que é hoje, um ser mortal, sexuado e cultural [3].

Diante desta profícua explanação, o que nós compreendemos é que existe uma forma de se comunicar o evangelho a estas culturas sem, no entanto, destruí-las. Ora, é o sentimento de pertencer a algo que faz com que o homem consiga viver em sociedade [4]. Muitas empreitadas missionárias tem falhado ao longo dos anos porque não levam em conta a identidade cultural dos povos e ao invés de enlevar o que de bom existe e reparar as arestas que não louvam a Deus, mutilam completamente toda uma cultura, que por sua vez era acreditada como verdade absoluta, às vezes por milênios, criando não um convívio propício a comunicação do evangelho, mas, uma barreira quase que intransponível. A forma como nós podemos preservar a identidade cultural dos povos e faze-los adoradores do único Deus Verdadeiro é pregando o evangelho de maneira contextualizada.

Segundo Don Richardson, em cada cultura, seja ela qual for, existem parâmetros (os quais ele chama de pontes) que se bem trabalhados serviram para esclarecer as pessoas para a singularidade do Evangelho. Estas pontes estão inseridas na própria cultura evangelizada e funcionaram como um “abridor de olhos” que fará com que a verdade parcial que eles conhecem se transforme na verdade absoluta do evangelho de Jesus Cristo. No caso em questão, a ponte seria o próprio mito do Cargo Cults, que diz que na vitória do deus tribal a recompensa virá do céu. Este pensamento aponta de uma maneira maravilhosa para promessa que nos feita em Apocalipse 21.2Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, ataviada como noiva adornada para o seu esposo”. Ora, observem que ponte maravilhosa, se bem utilizada a promessa de Apocalipse pode eclipsar o falso pensamento das culturas do Cargo Cults. Eles, enfim, poderão compreender a perspectiva verdadeira daquilo que eles acreditam ser a verdade. Tudo através de um parâmetro cultural encontrado na própria sociedade e que aponta para uma verdade que fará com que estes povos deixem a penumbra nefasta das trevas e passem a viver sobre uma fulgurante luz, a qual emana unicamente do Evangelho.

Por isso o Senhor Deus nos abençoou com um Evangelho Supracultural, pois, uma vez que ele se encontra a cima das culturas, elas precisam conforme a comunicação dos santos, se amoldar ao evangelho, e nunca o contrário. Todavia, a pesar da total depravação tanto da humanidade quanto da criação, apenas os aspectos da própria cultura que não se encontram moldados à semelhança do Evangelho é que precisaram sofrer alterações, não apenas para o bem da cultura, mas, sobretudo, para Glória de Deus. Por isso, quando se fala em comunicação do Evangelho, o que se está em jogo não é à vontade daquele que comunica a mensagem, tão pouco a supremacia de sua cultura em detrimento da que está sendo evangelizada, e sim a manifestação da Glória de Deus. Nós não comunicamos o aniquilar da cultura receptora para manifestação a Glória de Deus, absolutamente! Nós comunicamos a supremacia de Cristo sobre todas as coisas, para Glória de Deus, e para alegria de todos os povos [5].

[1][2][3] ELIADE, Mircea 1907-1986
Mito e Realidade/Mircea Eliade; [Tradução Pola Civelli]. -- São Paulo:Perspectiva, 2007. -- (Coleção Debates; 52/dirigida por J. Guinsburg)

[4] Comissão de Lausanne para a Evangelização Mundial. O Evangelho e a Cultura. Série Lausanne 3.

[5] PIPER, John
God is the Gospel Deus é o Evangelho/ John Piper; [Tradução Marilene Paschoal, Ana Paulo Eusébio Pereira] -- São José dos Campos: Fiel, Missão Evangélica Literária.

terça-feira, 15 de junho de 2010

DEUS NÃO NOS DESTINOU PARA IRA.


Deus não nos destinou para ira. Esta verdade tem retumbado ultimamente em meu sofrível coração. É interessante notar a fragilidade de nossa vida; num momento tudo está bem, mas, bastam alguns poucos minutos e “boom”, mas um momento difícil se inicia. Não há nada de novo nisso, momentos assim foram perenes nas vidas dos grandes homens de Deus. Quem não lembra da escolha de Abraão diante do corpo inerte de seu único filho já deitado sobre o altar? Da angústia que avassalou o coração de Moisés quando do ferimento da rocha? Do triste arroubo de arrependimento que grassou o coração de Davi após o revelar de seu pecado pelo profeta, pecado este que o fez amargar uma vida de sofrimentos pelo resto dos seus dias? Estes são uns poucos exemplos dos milhares de que dispomos.

A verdade é que nossa vida não está imune a adversidades, elas existem, e são sempre recorrentes, seja em maior ou menor intensidade, elas sempre estão lá. O que invariavelmente acontece, salvo raríssimas exceções, é que quando elas surgem nós agimos como se o fim do mundo nos espreitasse, como se não existisse mais solução para nós, como se não servíssemos ao Deus Todo Poderoso. Esquecemos que Deus não nos destinou para ira! Há pouco tempo eu andava em voltas com algo que me atormentava, que insistia em tirar-me a paz tão cara que em Cristo eu havia conquistado. Como de praxe eu achava que estava tudo acabado, que para mim não existia mais solução. Creio que o sentimento que tanto me afligia era semelhante ao sentido pelo Apóstolo Paulo quando este declarou: “Porque não queremos, irmãos, que ignoreis a natureza da tribulação que nos sobreveio na Ásia, porquanto foi acima das nossas forças, a ponto de desesperarmos até da própria vida. Contudo, já em nós mesmos, tivemos a sentença de morte, para que não confiemos em nós, e sim no Deus que ressuscita os mortosII Co 1.8-9. Não sei a natureza do problema enfrentado por Paulo nesta situação, mas, conforme nos informa I Co 15.32, na Ásia ele “lutou com feras”.

Percebam que o fato de estarmos em plena comunhão com Deus necessariamente não nos exime de passarmos por momentos difíceis, ora, o próprio Senhor Jesus Cristo nos advertiu que no mundo teríamos aflições. Sendo assim, a pergunta que não quer calar é: O que fazer quando a adversidade se levantar?

Primeiro, creio que devemos dar tempo ao tempo. Explico – seria simplório se (eu) dissesse que no momento em que a adversidade se levanta nós não nos incomodamos, não sentimos nenhum tipo de abalo. Pois, na verdade, só é o que sentimos. Lembro-me bem de quando recebi a notícia de que minha filhinha recém nascida teria que ser internada na UTI Néo-Natal do hospital em que nasceu. Meu Deus, que sentimento terrível, ainda hoje insisto para que esta terrível lembrança aquiesça em meu coração. Que dia tenebroso! Todavia, dissipadas as primeiras nuvens cinzas que pairavam sobre a minha cabeça, a poderosa voz de Deus mais uma vez se fez ouvir retumbante pelos corredores sombrios daquele gélido hospital, através do tatalar singelo de uma humilde enfermeira que se deixou levar pela impetuosidade da Glória de Deus, meu coração descansou, e desde aquele instante eu descobri que aquela “prova” não era para morte, mas, para Glória de Deus. De fato, toda adversidade é para Glória de Deus.

Segundo, precisamos nos agarrar ao Evangelho, já dizia o Reverendo Piper, “as Boas Novas não são algo que simplesmente nos livram da justa ira de Deus, algo que nos salva, mas, algo que devemos nos agarrar todos os dias”. Nós precisamos desesperadamente do Evangelho todos os dias, ele é nosso sumo lenitivo, nosso amigo fiel, inabalável. É deveras difícil sobreviver a qualquer intempérie sem um abrigo apropriado, é praticamente impossível. E é justo quando se levantam as provas que nós enfim lembramos de nos abrigar, de nos proteger próximo a algo que nos ofereça “escudo e broquel”. Por isso, insisto que a adversidade, como tudo o mais que existe neste teatro maravilhoso chamado criação, serve apenas para supremacia do Nosso Deus, para glorificá-lo como tudo o mais. Agora, você deve estar se perguntando, como algo tão terrível como o sofrimento de um servo pode glorificar ao Deus ao qual serve? É simples, invariavelmente, o único abrigo deveras pertinente que encontramos durante as lutas é o nosso Deus. É na luta que corremos e recorremos a Ele, que descobrimos sua poderosa singularidade, seu amor constrangedor, seu fardo suave, sua poderosa voz, seu agir aterrador, e sua vontade sempre absoluta e soberana, enfim o “abrigo” de que tanto precisamos. No momento em que a adversidade chega é apenas o Evangelho da Glória de Deus que pode nos ajudar. É justamente o descobrir, ou melhor, o redescobrir (em alguns casos)deste abrigo, que glorifica a Deus

Terceiro, precisamos exercer a fé que nos foi outorgada pelo ouvir desta Palavra ora buscada. Mais uma vez, gostaria de recorrer ao amado Reverendo Piper. Foi num momento de profunda comoção que o Evangelho serviu-lhe como abrigo desejável, como uma bóia que lhe flutuava próximo em meio a um triste naufrágio no assaz profundo oceano Índico. No turbilhão de dor e insegurança que lhe afligia a alma, uma doce voz soou ao seu ansioso coração: “Porque Deus não nos destinou para ira, mas para alcançar salvação mediante nosso Senhor Jesus CristoI Ts 5.9. Após esta sentença, diz ele: “Paz como um rio”. É disto que falo, do que descobri com o ministério deste pastor amado, algo que ele chama em referência a Santo Agostinho de “O Legado da Alegria Soberana”. A alegria que não vê circunstâncias, que desdenha do impossível, que nos faz descansar mesmo em meio a mais cruciante batalha, que nos faz vislumbrar que após as nuvens espessas o sol fulgurante jamais deixou de brilhar, que nos impulsiona a levantarmos todos os dias na certeza de que a prova não frustra os planos de Deus, que ela não possui o poder de anular as promessas outrora feitas a cada um de nós, que ela é uma mera serva dos propósitos absolutos de Deus. Ó poderosa alegria!

Só quando esta alegria verdadeiramente inundar os nossos corações, é que entenderemos o que significa vivermos unicamente pela supremacia de Deus, pois, este legado triunfante nos fará compreender que as provas são parte da criação, e que neste circuito fechado, todas as coisas glorificam ao Deus que por tudo que criou glorifica a si mesmo. Tudo o que foi criado, mesmo que com funções diferentes, possui um mesmo fim – A Glória de Deus!

É por causa disso que me agarro ao Evangelho, para que junto com tudo mais venha eu também apontar para supremacia de Deus, através do sacrifício de Cristo, para alegria de todos os povos. Culminando com a alegria que só encontramos neste mister, quiçá a propagação do Evangelho.

Concluo...

Deus não nos destinou para ira, pois, conforme cremos, a prova não é um fim em si mesmo, mas, é, como tudo o mais, para a Glória de Deus! Para a Glória de Deus!

sexta-feira, 14 de maio de 2010

A IMPORTÂNCIA DA FAMÍLIA PARA OBRA MISSIONÁRIA

Palestra proferida na IEC da Liberdade, Campina Grande, PB.


Hoje, estarei me baseando no texto de Jó 1.1-3. Jó, sem sombra de dúvida é um legado sólido de alguém que em sua vida comunicava verdades extraordinárias, verdades estas, que até hoje contribuem consubstancialmente para o fortalecimento de muitas vidas e ministérios. Por pensar em fortalecimento, tendo como epígrafe o tema “A Importância da Família para Obra Missionária”, resolvi, para discorrer sobre o tema, destacar, dentre as várias características insofismáveis que emanam da vida deste homem “íntegro, reto, temente a Deus e que se desviava do mal”, pelo menos três, que ao meu ver, seriam uma resposta plausível a todo este atabalhoamento teológico que temos visto em nosso amado meio evangélico.

Como primeira característica eu destacaria a “Motivação”. Ora, não há que se reprisar a indubitável tragédia a que se incorreu o nobre Jó, por causa das ardilosas armadilhas de Satanás. Conforme nos assevera o texto, sendo Satanás acusador como é, estando presente em dado momento diante do Deus todo Poderoso, foi indagado por Deus acerca da postura incomparável de Jó. Por causa disso, numa simplória tentativa de macular os poderosos propósitos de Deus na vida do mesmo (como se fosse possível), questiona a Deus a cerca de todo o legado possuído por Jó, e se não seria este o motivo para tanta abnegação e zelo. Para prová-lo que não era o caso, se bem que Deus não precisa provar nada a quem quer que seja, num ato muito mais propício à posteridade do que a esdrúxula indagação de Satanás, Deus o permite (a Satanás) tocar em todos os bens de Jó, não lhe permitindo, porém, tocar-lhe fisicamente. Uma vez com suas ordens, Satanás deixa a presença de Deus e com sua permissão destrói completamente não só todos os bens que Jó possuía, como também, a toda a sua família, com exceção de sua esposa. Mas, para Glória de Deus, como de fato sempre foi essa a tônica dos fatos, ao fim de toda esta tragédia a postura de Jó foi sem precedentes. Após um relato fatídico protagonizado por seus servos, os quais ainda em pânico o colocavam a par de tudo o que o acontecia, sem titubear, este prolífico homem de Deus “se levantou, rasgou o seu manto, rapou a cabeça e lançou-se em terra e adorou”. E num ato de pura deferência a Deus, alçou voz num primeiro arroubo de fé que insiste em ecoar pelos séculos que se seguiram: “Nu sai do ventre de minha mãe e nu voltarei; o Senhor o deu e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor”. Diante de tamanha barbárie, Jó, com seus lábios, não pecou, tão pouco atribuiu a Deus falta alguma. Isto sim é o que podemos chamar de “caráter inabalável”. Errou Satanás ao achar que a motivação de Jó estava em seus bens, pois, conforme nos asseveram estas palavras tão impactantes, o coração de Jó não estava nos bens que possuía, mas em Deus.

A própria postura de Jó, faz coro a poderosa afirmação do Apóstolo Paulo e pode ter sido um dos motivos de sua reflexão: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mais Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo, na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus” Gl 2.20. O apóstolo com este texto belíssimo nos fala acerca da correta motivação de um servo; tudo quanto nós encontramos no caráter de Jó. Sendo assim, eu vos pergunto, qual tem sido a motivação de nossa geração? Infelizmente a Teologia da Prosperidade está aí para nos responder! Como primeiro ponto, assevero que se realmente quisermos ser uma resposta a tudo quanto estamos vendo em nosso evangelicalismo (falo daqueles que abandonaram o legado da reforma) precisamos fazer com que nossos jovens, que serão os futuros ministros da igreja, trabalhem impulsionados pela motivação correta. E que o Senhor nos proteja de ministros que prefiram receber o seu galardão por aqui. Por isso, fora com o pragmatismo que tem avassalado os púlpitos; fora com o hedonismo que gera vocacionados mais preocupados com suas auréolas do que com as almas dos homens; fora com a Teologia da Prosperidade e sua peçonha; fora com o Teísmo Aberto, com a Teologia Relacional, com a teoria da Evolução das Espécies; com o Liberalismo Teológico e tudo o mais que procure, conforme as mentes depravadas dos homens, deturpar o Glorioso Evangelho de Jesus Cristo. Que toda motivação que não almeje a Glória de Deus seja anátema! Para que a nossa família contribua para o fortalecimento da sociedade e para que os nossos jovens aspirem, como antes, as “Regiões Celestes”, precisamos da motivação correta!

Em segundo lugar, destaco como uma poderosa qualidade inerente à personalidade de Jó a “Disposição”. É certo que nosso Deus é tardio em irar-se, mas grande em poder e jamais inocenta o culpado (Na 1.3). O fato de se encontrar na qualidade de culpado na presença de Deus é algo terrível, todavia, o contrário também é deveras interessante, pois, conforme percebemos no testemunho de Jó, ele sabia que nada tinha feito para se encontrar em meio à tão intensa tempestade, por isso, ousadamente ele aspirava por uma oportunidade de indagar a Deus o porque de tanto sofrimento (não que exista alguém auto justificado, mas quando o pecado é tido como algo vexoso, tudo o possível é feito para evitá-lo, eis o porque da surpresa de uma conseqüência não produzida). Dizia Jó: “Ah se eu soubesse que o poderia achar! Então me chegaria ao seu tribunal” Jó 23.3. Saber o que procurar diminui em muito o nosso esforço em busca de algo. Neste ponto, encontramos um problema delicado, o qual tem contribuído indelevelmente para apatia espiritual de nossa época, a falta de referênciais. Nossos jovens estão morrendo de inanição teológica. A má disposição de muitos homens que se auto intitulam “Servos de Deus” têm fomentado terríveis referenciais teológicos. Tais homens com sua vida e teologia parecem fazer coro à famosa frase de Nietzsche: “Deus está morto”.

Não é preciso muito esforço para se refutar esta afirmação estapafúrdia. O problema não está em Deus, mas nos homens. “Homens mortos tiram de si sermões mortos e sermões mortos matam”. Referencial de nada serve se o desejo de dispor-se não brotar do coração. As famílias precisam urgentemente fazer com que os jovens voltem a se apaixonar pela vida ministerial, precisam reabrir a velha fábrica de missionários chamada “Lar Doce Lar”, precisam reacender a chama fulgurante que a muito aquiesce no coração de nossos jovens e que os consumia de desejo para entregar-se completamente a “Excelente Obra”. O fato é que nós temos desafeiçoado a mais plena de todas as vocações, que é a ministerial. Nossa resposta a esta geração têm sido paupérrima. A verdade é que nós temos produzido jovens que perderam o idealismo, a paixão e o fulgor. E este mal não tem sido produzido em laboratórios sofisticados custeados pelos demônios, não. Tem sido produzido nos lares. Que se retire da mente de nossos jovens que missão é sinônimo de miséria. Que se retire da mente de nossos jovens que missão é sinônimo de frustração. E que se pregue mais uma vez nos esquecidos cultos domésticos à “Glória” que é servir a Deus como poderosos Embaixadores do Céu. Que nossas mentes mais dinâmicas sejam tributadas a Deus, que nossos jovens mais zelosos sejam consagrados ao resgate dos perdidos, que as mentes mais promissoras funcionem para a Glória de Deus, que haja incentivo em meio às famílias e que estas não descansem enquanto a seara perecer por falta de seifeiros. Precisamos restaurar em nossa geração uma disposição que os inflame por almas.

Para que isto aconteça, creio que a única saída é restaurarmos no seio das famílias uma poderosa paixão pelas Sagradas Escrituras. Lembremo-nos do conselho do decano dos apóstolos “Jovens, eu vos escrevi, porque sois fortes, e a Palavra de Deus permanece em vós, e tendes vencido o Maligno” I Jo 2.14b. Para sermos uma família forte precisamos voltar a Palavra de Deus. Jó era um homem disponível porque conhecia o motivo de sua força: “nas suas pisadas, os meus pés se afirmaram; guardei o seu caminho, e não me desviei dele. Do preceito dos seus lábios nunca me apartei, e as palavras de sua boca prezei mais do que meu alimento” Jó 23.11-12. Jó sabia que só existia para servir a Deus. A semelhança de nosso Senhor Jesus Cristo que disse: “A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra” Jo 4.34. Que belíssima afirmação. Cristo asseverava que a única coisa que o mantinha firme e lhe restaurava as forças (propriedade dos alimentos) era cumprir o pleno desígnio que lhe fora outorgado por seu Pai. A única coisa que Ele tinha a fazer era dispor-se. Nossa família precisa dispor o que possui de melhor a Deus.

Por fim, outra característica poderosa deste corifeu da fé é sem dúvida alguma a “Perseverança”. “Aquele que leva a preciosa semente, andando e chorando, voltará, sem dúvida, com alegria, trazendo consigo os seus molhos” Sl 126.6. Após a perca de todos os seus bens e de todos os seus filhos; este homem de Deus ainda teve que atravessar o tenebroso “vale da sombra da morte”. Diz o livro que leva o seu nome que diante de mais uma derrota, Satanás sugestiona a Deus que se tocado na “pele” Jó blasfemaria abertamente. Conhecendo seu servo, e na eminência de mais uma vez Glorificar o seu nome, Deus o permite. Ato contínuo, outra vez de posse de suas ordens, Satanás fere a pessoa de Jó com tumores malignos que o acometiam desde a planta do pé, até o alto da cabeça. Jó, tendo em vista seu estado, sentado em cinzas raspava-se com um caco. O que nos chama a atenção é que sua mulher, que tivera perdido todos os seus bens além de todos os seus filhos e todos os seus criados, ao ver o seu amado marido naquele estado caótico, não resiste a tamanho sofrimento e num ato muito forte assevera: “Ainda conservas a tua integridade? Amaldiçoa a Deus e morre” Jó 2.9. Por causa do terrível mal lhes afligido, a mulher de Jó, que não tinha sua estrutura, não resistiu e sucumbiu. Entretanto, Jó não se deixou levar e mais uma vez prorrompeu num segundo discurso que a semelhança do primeiro tem servido de estímulo e refrigério para milhares de pessoas ao longo dos séculos: “Falas como qualquer doida; temos recebido o bem e não receberíamos o mal?” Jó 2.10. Jó possuía uma Perseverança belíssima.

Precisamos fazer com que as famílias instruam-se sob a égide deste tipo de testemunho, angariando forças de exemplos como este. Pois, a batalha que nos espreita é terrível e só um soldado bem preparado prevalecerá. Gostaria, a título de exemplo, de citar um livro escrito pelo Pastor John Pipper, “O Sorriso Escondido de Deus”, neste livro ela fala circunspecticamente acerca de três compenetrados homens de Deus. Mas, tendo em vista o espaço, gostaria de citar-lhes ao menos um, nosso amado irmão John Bunnyan. Este homem, apaixonado pelo Senhor como era, não acolheu a ordem que lhe impingia a obrigação de comunicar a Cristo tão somente de sobre o púlpito, e saindo pelos campos e montes propagava a Cristo com um ímpeto tão contagiante que as pessoas rendiam-se a Cristo em converções tão singulares que chamaram a atenção dos clérigos. Estes, enciumados pela presença de Deus na vida de Bunnyan, acharam por bem manietar-lhe no cárcere da prisão. Todavia, o que mais o afligia não era a prisão em si, mas, ter que ver pelas grades gélidas de sua fétida cela, a sua amada filha, que cega, mendigava à rua que ficava em frente à torre. Que visão lastimosa! Talvez qualquer um de nós tivesse se recolhido a um sentimento de auto comiseração que desaguaria numa profundíssima depressão. Mas, Bunnyan não. Este buscou forças em Deus, e, de posse de uma pena, um cadinho de tinta e algumas poucas folhas clivadas, escreveu o livro que excetuando-se a Bíblia é o mais lido do mundo, o aclamado “O Peregrino”. Que exemplo de uma poderosa perseverança.

Concluindo, oro para que o Senhor da seara nos impulsione a vencermos os desafios que nossa geração nos impõe. Que as características exaradas do testemunho de Jó nos impulsionem a vencermos a inércia que insiste em nos afastar do embate. Que o Senhor por seu irresistível poder nos torne mais uma vez visionários inflamados, ávidos por um mundo melhor, mais saudável e iluminado. As circunstâncias nos são contrárias, o inimigo tem se fortalecido, e às vezes até avançado. Entretanto, jamais será adversário a altura da “Igreja do Deus Vivo, Coluna e Baluarte da Verdade”. Que haja sempre em nossos catecúmenos motivação, disposição e perseverança, pois, “a esperança e a chama da fé não se apagarão, enquanto jovens idealistas houver, e de vasos de barro, o Senhor nos suscitar grandes exemplos. Eu também tenho um sonho!”.

A Família é importantíssima para obra missionária!

sexta-feira, 7 de maio de 2010

A CONTEXTUALIZAÇÃO NÃO NOS TORNA LIBERAIS.

Nunca tive dúvida alguma de que quem convence o homem do pecado, da justiça e do juízo é o Espírito Santo de Deus (Jo 16.8). Este convencimento, por sua vez, é produzido através da Pregação da Palavra de Deus de maneira pertinente e significativa. Com base nisso, ao contrário de muitos não me preocupo com resultados imediatos, com conversões em massa, ou mesmo com a forma com que a mudança regeneradora ocorrerá na vida do indivíduo que recebe a Palavra, seja em contexto transcultural ou não. Creio veementemente que minha única função é comunicar o Reino de Deus através do Evangelho de Cristo, e que os resultados, ficaram por parte de Deus. Minha única missão é me deter na comunicação. E para que ela tenha virtude em minha boca, procuro fazer com que o meu caráter preceda a minha habilidade de maneira que a minha vida se torne à vida de meu ministério. Ato contínuo, acredito que uma das maneiras de que dispomos para que esta comunicação se estabeleça de maneira genuína, seria através da pura e simples ortodoxia, a qual emana de uma vida de piedade e santidade.

Chamo atenção para o fato de que a premissa de se comunicar o Evangelho de maneira contextualizada não pressupõe de forma alguma um desapego à ortodoxia, absolutamente. É através da herança reformada de que dispomos que vislumbramos uma comunicação que conduza o receptor da mensagem a um Deus Soberano que nos encontra em estado de completa depravação, e que mesmo assim, conforme sua soberana vontade, se compadece de nós através do sacrifício perfeito de Nosso Senhor Jesus Cristo. Atentem para o fato de que é através da pregação do Evangelho que Deus transforma a vida do pecador.

Comunicar um evangelho dissociado das doutrinas inalienáveis da reforma é uma completa perca de tempo, pois, a ortodoxia está para o evangelho, assim como a contextualização está para aplicação da mensagem. Notem que é através de uma visão progressista que a perfeita comunicação se efetua. O evangelho precisa ser pregado levando-se em consideração a identidade cultural de cada povo, assim como o momento histórico vivido por ele. Todavia, não há que se confundir visão progressista com liberalismo teológico. Uma coisa não tem nada a ver com a outra, muito pelo contrário. O fato de se comunicar o Evangelho de maneira compreensível não pressupõe que o mesmo precise ser “diluído” para que as pessoas o compreendam. Isto é uma visão equivocada do que propõe a contextualização.

Muitos povos que teoricamente constam como “alcançados” infelizmente não estão tão bem evangelizados assim. Quando digo alcançados, necessariamente não associo presença evangélica com presença do evangelho. Existem povos que foram alcançados por evangélicos, mas que infelizmente não foram alcançados pelo evangelho. A Teologia Liberal em toda sua peçonha tem feito com que muito esforço e determinação culminem numa empreitada missionária desacreditada de verdade e vida. A comunicação de um evangelho que não expressa pormenorizadamente todo o desígnio de Deus não pode ser considerada salvífica, muito pelo contrário, é na verdade mais uma comunicação de engodo que precisa ser suplantada o quanto antes. Os liberais, hávidos por uma missiologia relacional, que suplanta a soberania de Deus, mais provocam dúvidas do que vida, e sempre que comunicam verdades apodíticas do Evangelho, o fazem de maneira que boa parte dos dogmas da igreja sejam vexosamente deixados de lado, para que ao seu bel prazer, às pessoas concebam um deus que não é o Deus soberano das Escrituras Sagradas, mas outro.

Em defesa da verdadeira missiologia, o missionário Ronaldo Lidório, sabiamente assevera que a comunicação intercultural do evangelho que não leva em consideração a contextualização, não passa de um simples compartilhar de idéias. Concordo plenamente. Porém, na mesma proporção, ao contrário do que crêem os liberais, creio que um Evangelho que não leve em consideração as verdades promulgadas pela Palavra de Deus em toda sua extensão, também não passa de um simples compartilhar de idéias. Ou seja, o evangelho pregado através de um viés neoliberal, em nada somará a vida dos ouvintes.

O que me faz prorromper em defesa dos sólidos alicerces ortodoxos em que repousam a missiologia genuína, são os comentários que vez por outra ouvimos de pessoas que pensam ser a comunicação contextualizada um sinônimo de liberalismo teológico. As doutrinas reformadas que emanam dos livros que relatam a história de missionários verdadeiramente comprometidos com o evangelicalismo retumbam em favor da práxis axiomática da comunicação centrada única e exclusivamente na Bíblia e comprovam que estão redondamente enganados todos os que pensam o contrário. Orgulho-me do fato de compartilhar o interesse pela compreensão do evangelho supracultural em contexto cultural com homens como o Apóstolo Paulo, Santo Agostinho, João Calvino, Martinho Lutero, William Karey, Hudson Taylor, David Brainerd, David Livinsgton, Jim Elliot e tantos outros que não compõem esta lista sucinta, mais que sem sombra de dúvida repousam seguros numa lista deveras mais importante.

É fato provado na história belíssima das chamadas “Missões Modernas” que o parâmetro que fez com que atuação missionária atendesse as expectativas almejadas foi a pregação da genuína Palavra de Deus na língua do povo de maneira a atender suas mais intimas expectativas. E isso, só foi possível graças ao legado imprescindível que nos foi deixado pela reforma. Falem na linguagem do povo! Era o grito de ordem dos nossos amados reformadores e foi ele que se fez ouvir no despertar missionário em tela. A ortodoxia que remonta o parecer apostólico e endossa nossas confissões de fé, é que foi decisiva para o despertar que nos impulsiona e alegra até os dias de hoje.

Depreende-se, que a comunicação conforme o padrão gramático-histórico das Escrituras, colocado em prática através da abordagem crítica da contextualização, nos dará a paz de que precisamos para deitarmos a noite e dormirmos tranqüilos na certeza de que “Estamos proclamando o Reino de Deus e vivendo o Evangelho de Cristo”. Mas, ainda assim, existem sempre aqueles que não querem dar ouvidos a verdade, conforme foi assaz demonstrada e continuarão a nos atacar rotulando-nos injustamente de liberais. Perseveremos, pois, existem muitos lugares para homens corajosos no céu, conforme bem nos alertou Paul Tournier:

O medo de ser julgado mata a
espontaneidade; impede os homens de se
manifestar e de se exprimir livremente, tal
como são. É preciso muita coragem para
pintar um quadro, para escrever um livro,
para construir um edifício com linha
arquitetônica nova ou pra formular uma
opinião independente, uma idéia original.


Nossa práxis remonta aquele que assumiu a semelhança de homem, o ápice da contextualização...

quarta-feira, 21 de abril de 2010

SOBRE O PODER DE DEUS.

Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até os confins da terra”. At 1.8

Aproveitamos este feriado, mais uma vez, para investirmos no fortalecimento do “Corpo de Cristo”. Ousamos, sobe a égide do Espírito Santo, obedecer a grande comissão e romper com nossa Jerusalém (igreja local) empreendendo vôo, num ônibus velho, até Samaria (uma favela próxima). E lá, em meio a córregos fétidos e pessoas desconfiadas, vislumbramos um pouco do Poder de Deus.

Para muitos, principalmente no momento que estamos vivendo, recheado com a teologia Neo-Pseudo-Pentecostail, com o Teísmo Aberto, com a Teologia Relacional e com a saga da Teologia da Prosperidade. Poder de Deus seria pular, correr, marchar... Filosofar sobre o metafísico... Duvidar da Soberania de Deus... Ou ganhar muito dinheiro... Porém, para alguns nobres soldados do Reino, poder de Deus foi ver alguns adolescentes alimentando um moribundo que mal podia ficar de pé degenerado por tanta fome. Foi ver um seminarista, inconformado com as páginas gélidas dos livros, colocá-lo (o moribundo) confortavelmente sobre um carrinho de mão e conduzi-lo serpenteante, morro a cima, até a igrejinha próxima, para com todo amor e carinho: banhá-lo, vesti-lo, alimentá-lo e piedosamente evangelizá-lo. Restaurando-lhe, mesmo a parcos recursos, num vislumbre de tempo, sua perdida e tão cara dignidade.

Poder de Deus foi prorromper em meio a uma terra inóspita com uma centelha de esperança. Foi ver uma pequena multidão de crianças carentes sorrindo, mesmo que por um pouquinho de tempo, com as afáveis brincadeiras de nossas professoras da Escola Bíblica, todas devidamente fantasiadas e quebrantadas. Foi observar em meio a um sol tórrido e causticante, um singelo voluntário percorrer corredores estreitos e hostis no intuito de fazer um simples teste glicêmico, num popular que por motivo outro, não podia deslocar-se até nossa base (devidamente montada com caibros e lonas). Foi me emocionar ao ver uma jovem recém convertida propalando um convite que até alguns dias atrás lhe parecia tão distante, esforçando-se por conseguir o maior número possível de pessoas para ouvir, na tímida igrejinha de favela, a impactante Palavra de Deus.

Poder de Deus foi ver um grupo de jovens com a Bíblia na mão e os pés nos esgotos. Foi perceber as lágrimas nos olhos de uma velhinha que não estava com a pressão arterial alterada. Foi ouvir um “muito obrigado minha filha, que Deus a abençoe!” Quando o simpático ancião concluía o seu corte de cabelo. Foi observar uma fila que insistia em não ter fim a espera de algumas poucas roupas doadas e surradas. Foi deixar aquela favela um pouquinho mais feliz ao final de mais um projeto evangelístico...

À tardinha, levantamos acampamento após um culto vivo, santo e agradável a Deus e dentro de nosso algoz transporte velho (que nos levava daquele amado lugar) vimos lacrimosos a igrejinha de favela se perder entre os barracos no limiar do horizonte distante. Reclinando-nos aos bancos, em silêncio, volvemos o pensamento ao longe... Valeu a pena! Valeu a pena!

Ao término desta épica empreitada missionária. Apenas o nosso Deus em sua Onisciência saberá discernir o impacto sentido por nossa comunidade ao conviver por algumas horas com aquela gente humilde e amável. Apenas Ele poderá aferir a mudança que experimentará aquela comunidade depois desta humilde, mas poderosa experiência de amor e operosidade.

Isto sim é Poder de Deus!

Por fim, no afago de minha família, após esta maravilhosa experiência, concluo corroborando o amado que poetizou nossa história...

Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas
e iguais também porque o sangue,
que usamos tem pouca tinta.

E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina


A morte até pode ser a mesma, mas a vida enquanto é vida, pode ser vivida.

Graças ao evangelho, Poder de Deus!

sábado, 10 de abril de 2010

O CONTEXTO E A COMUNICAÇÃO


Compartilhar a mensagem cristã de maneira pertinente e significativa tem sido o maior desejo dos servos de Deus ao longo de toda a história do cristianismo. A princípio isto era relativamente fácil, uma vez que, quando do início da igreja, as pessoas se comunicavam tão somente com indivíduos que faziam parte de uma mesma cultura – a israelense. Todavia, com a expansão do cristianismo, novas pessoas de culturas completamente diferentes se viram necessitadas de absorver essa nova realidade espiritual que possuía plenas condições de transformar suas vidas. Esta necessidade de transformação e salvação foi fomentada justamente pela exposição da mensagem cristã, fato que de antemão tinha sido ordenado pelo seu idealizador, o Senhor Jesus Cristo. Esta ordem de comunicar a mensagem (Evangelho), que foi sancionada quando da descida do Espírito Santo no princípio da igreja (pentecostes), unida ao sentimento de urgência que emanava daqueles que pereciam sob a égide de um mundo que jaz no maligno, foi o combustível que impulsionou a expansão do cristianismo.

É fato que os discípulos tinham sido comissionados a compartilhar a mensagem, não só em Jerusalém, mas em toda Judéia, Samaria e até os confins da Terra – “Mas recebereis poder, ao descer sobre voz o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda Judéia e Samaria e até os confins da Terra” (At 1.8). Jesus utilizou estes termos locais como exemplos para ilustrar o fato de que toda humanidade carecia concomitantemente da restauração que provinha do evangelho e que a igreja era o órgão responsável por essa divulgação das Boas Novas. Por causa destas premissas – a grande comissão de Jesus e a urgente necessidade do mundo que clamava e clama por reconciliação –, a igreja, enquanto detentora deste poder restaurador e reconciliador, se viu com um problema (enquanto pertencente a uma cultura) diante de si: como compartilhar o evangelho de Jesus Cristo de maneira pertinente e significativa numa cultura completamente diferente da que a mensagem foi concebida e da que os missionários faziam parte?

A solução, encontrada a princípio por Jesus, e posteriormente utilizada por seus apóstolos, atualmente é o que entendemos ser o método Contextualizado. Jesus demonstrou através de seu ministério e do legado que deixou para os discípulos que para que uma mensagem concebida em contexto intracultural tivesse plenas condições de alcançar todo o mundo habitado, ela precisava ser comunicada de maneira supracultural (por que de fato ela é), ou seja, ela precisava ser fundamentada e extraída única e exclusivamente da Bíblia, todavia, através de parâmetros culturais inerentes ao indivíduo, os quais funcionassem como uma ponte para perfeita compreensão da mensagem, desde que os mesmos parâmetros não se encontrassem em discordância com o teor supracultural e sagrado da mesma. Isto é, a mensagem precisava ser comunicada de maneira contextualizada.

É a fundamentação deste “Pensamento Contextualizado” que dá sentido ao estudo das culturas e nos faz inteligíveis internacionalmente com a mensagem das “Boas Novas” de Salvação. Corroborando este pensamento, acreditamos ser inexorável fundamentar esta necessidade se o que realmente desejamos é uma perfeita comunicação transcultural.

Conforme se observa, é imprescindível que antes de qualquer atividade in loco conheçamos peremptoriamente as nuances culturais em tela e a perfeita relação (sempre crítica) entre o conteúdo cultural do povo alvo e a propagação do evangelho. Este plano de metas visa comprovar que cada povo possui sua própria identidade cultural, fato que justifica (não necessariamente) uma “abordagem diferente” para cada situação. Assim, uma vez definidos os principais objetivos que antecedem a atividade missionária, a Comunicação do Evangelho transcorrerá de maneira que os perigos do sincretismo e da alienação sejam poderosamente evitados. Ato contínuo, a genuína Palavra de Deus estará mais uma vez a realizar sua obra restauradora.

Por causa disso, depreende-se que a perfeita comunicação só pode ser conseguida em toda sua extensão através de uma perspectiva que solidifique a idéia de uma comunicação intercultural eficaz, através de um sólido conhecimento cultural prévio e da poderosa ação impulsionadora do Espírito Santo.

Que o Senhor da seara nos abençoe!